Eugênio Leal: ‘o último dos sambistas’

Por Eugênio Leal

eugenio_leal_carnavalesco1As Escolas de Samba hoje em dia são dominadas pelos “sambeiros”. Aqueles que se aproximam delas por interesse, ou mesmo por gostarem, mas que não têm o samba na veia. Não entendem a raiz desta manifestação, suas matrizes culturais, sua ancestralidade, seu papel na sociedade. Tais pessoas afastaram, ao longo dos anos, o povo do samba.

O último sambista de verdade a ocupar um cargo de destaque nos desfiles, com poder para ditar tendências, é Laíla. Há outros por aí ainda, claro. Poucos têm influência decisiva na festa. Culpa dos próprios sambistas que se curvaram ao poder do dinheiro para que suas Escolas fossem mais “competitivas” e se deixaram comandar por forasteiros que às vezes se impuseram de outras maneiras neste mundo violento.

Laíla representa a resistência da essência das Escolas de Samba. A revolução que ele fez na Beija-Flor nestes últimos vinte e três carnavais talvez tenha sido o último sopro de samba nos desfiles. Ele criou a “Comunidade”. Apostou no povo humilde de Nilópolis para moldar um estilo de desfile que privilegia a força do chão, das bases de uma Escola de Samba. Mesmo nos anos em que não foi “maravilhosa e soberana”, “um festival de prata em plena pista” os quesitos básicos como samba-enredo, bateria, harmonia e evolução asseguraram notas consistentes à agremiação. Claro que o fato de estar numa escola intimamente ligada ao poder ajudou nos resultados.

Acontece que a Beija-flor ficou quinze anos sem ser campeã enquanto Laíla esteve fora. Os títulos deste estilo que ele criou ajudaram o carnaval como um todo. O vencedor impõe tendências. As vitórias fizeram com que outras agremiações entendessem a importância de seu “chão” e investissem nisso até mais que a Beija-flor. O desfile melhorou.

O tempo passou. As mudanças sempre chegam. A “era” Laíla na Beija-flor acabou. Ele ainda tem fôlego para trabalhar em outra escola. Não sabemos, entretanto, se com o mesmo poder e a mesma força para influenciar o carnaval. Espero que sim. O samba ainda precisa de sambistas.