Eugênio Leal: ‘A retomada do carnaval político’

Por Eugênio Leal

eugenio_leal_carnavalesco1Dois mil e dezoito marca a volta da crônica social e da crítica política às Escolas de Samba. Depois de muitos carnavais acomodadas no “politicamente correto” as agremiações entenderam a necessidade de dar voz à angústia da sociedade diante do momento trágico que vive, especialmente, a cidade do Rio de Janeiro, mas também todo nosso país. Este é, sim, um papel do carnaval. Historicamente esta manifestação cultural foi marcada por dar voz às ruas através de críticas às vezes irreverentes, às vezes mais ácidas mesmo.

É indiscutível que os desfiles com este tom foram os que mais repercutiram neste carnaval. Mangueira, Tuiuti e Beija-Flor provocaram a plateia. Você pode concordar ou não com o que elas mostraram, mas pensou sobre. Até mesmo para refutar tais ideias. A arte tem como uma de suas missões instigar as pessoas, tirá-las da zona de conforto, desafiá-las. Incomodar. E elas conseguiram. Missão cumprida.

O resultado? A gente passa o ano medindo quem tem o melhor enredo, o melhor samba, as melhores fantasias. Teremos uma campeã este ano. Pelos padrões de julgamento tradicionalistas e amarrados do carnaval o Salgueiro pinta como grande favorito. Encheu as medidas previstas no regulamento. Acho até que a Mangueira pode sonhar em beliscar este título. Mas isso é o que menos importa para mim. Ano que vem haverá outro carnaval e assim será a cada fevereiro. A questão é: como você passará seus dias até lá.

A Beija-flor encerrou os desfiles revertendo a lógica do carnaval. As pessoas vão à Sapucaí para navegar no mundo dos sonhos; ver carros grandiosos e brilhantes; fantasias coloridas cheias de pluma; componentes de corpos pintados, corpos esculturais seminus e coisas do tipo. Querem fugir da realidade. O que a escola de Nilópolis fez foi jogar na cara das pessoas a esta realidade que as espera quando deixam o sambódromo.

Alguns viciados em padrões estéticos gritaram: “Isso não é carnaval!”; “Que acabamento horroso!”; “Não há enredo”. Outros “politizados” apontaram o dedo – uma escola financiada pela subvenção não tem moral para criticar ninguém. Houve até quem apontasse que o desfile era de direita.

Eu apenas chorei. Há muito tempo um desfile não me emocionava tanto. Pensei em como a gente é sacaneado diariamente, em como vivemos com medo, em que perspectiva de futuro há para nossos filhos. Pensei naquela gente humilde que veio de Nilópolis para cantar a plenos pulmões o sofrimento que vive a cada dia.

Num momento como este não me preocupo com o resultado do carnaval. Ele é muito pequeno, mas muito mesmo. Imagino que a Beija-flor também não. Apenas gostaria que a mensagem de Nilópolis passasse de novo pela avenida no sábado. Assim como a do Tuiuti e a da Mangueira. O carnaval precisa delas.

Todos os outros desfiles foram apenas reproduções do que vimos por tantos anos de escuridão sob o império do “politicamente correto” na Sapucaí. Por isso há tanto equilíbrio. Difícil dizer quem volta entre as seis ou quem vai ser rebaixado.

O carnaval deu a volta por cima após um ano trágico de 2017. E o fez por voltar a se antenar com a realidade das ruas. Que não perca mais este vínculo. Mesmo em momentos de “calmaria”.