Exclusivo: Reginaldo Gomes conta tudo o que aconteceu no Carnaval 2012

Demorou, mas ele falou… Em sua primeira entrevista mais detalhada após o carnaval. O presidente da Inocentes de Belford Roxo e comandante da extinta Lesga, Reginaldo Gomes, pediu desculpas ao prefeito Eduardo Paes pela postura adotada por ele após o carnaval, quando o prefeito anunciou publicamente o descredenciamento da Lesga da organização dos desfiles dos Grupos A e B. Reginaldo, porém, não revelou o real motivo pela decisão de não cair nenhuma escola ter sido tomada, mas usou a palavra "estratégia" para falar sobre o caso.
 
– Eu assumo esse erro. Essa foi a estratégia que arrumei. Se tivesse dez minutos a mais, tomaria, talvez, uma posição diferente. Eles reclamaram com razão, não fomos elegantes com a Prefeitura. Foram cinco minutos para bolar um documento. Tinha que ser na hora.
 
Confira abaixo a estrevista completa concedida na quadra da Inocentes de Belford Roxo

CARNAVALESCO: Como está estruturando a Inocentes para ir bem no Grupo Especial?

Reginaldo Gomes: A primeira medida foi no sentido de escolher um enredo que nos desse a possibilidade de ter um apoio financeiro. A diferença entre as escolas que sobem e as que já estão é grande, as que sobem têm sempre algum tipo de passivo do carnaval anterior e uma estrutura menor, mas já estamos nos preparando, a começar pela quadra, são novos camarotes e no dia 15 vamos reinaugurá-la. No barracão não será diferente, assim que assumirmos vamos montar uma estrutura que possa fazer com que tenhamos um equilíbrio de forças com as demais escolas. Essa diferença nós já tiramos do Grupo B para o A e vamos tirar no Especial também. Quando subimos nós éramos vistos da mesma maneira que somos hoje. Disputamos com escolas de muita tradição e provamos que começando o trabalho mais cedo se pode superá-las. Toda escola que ganha o Grupo B acha que vai chegar no A e vai papar as escolas que estão lá, mas não foi assim. Mesmo com muitos recursos no carnaval sobre o Brizola (2009) nós pecamos muito. Essa evolução passa também pelos profissionais que você contrata. No ano seguinte fomos vice falando sobre a água(2010) com o Roberto Szaniecki, que é um profissional mais tarimbado. Depois, no carnaval dos Mamonas (2011), apostamos num carnavalesco da casa e tivemos muitos problemas, sem querer culpá-lo, mas começamos muito tarde a fazer o carnaval.

CARNAVALESCO: E a relação com o Wagner Gonçalves?

Reginaldo Gomes: É uma relação de confiança. Ele está adaptado ao que queremos para a escola. Ele tem essa linha de montar uma equipe nova e capacitada. Trouxe profissionais da Mangueira, da Unidos da Tijuca. Fizemos um trabalho muito bem calçado, guiado por ele, que trabalha à vontade na Inocentes. Confio muito nele. Diria que 70% do trabalho feito no último carnaval é responsabilidade dele.

CARNAVALESCO: E os questionamentos sobre o título da Inocentes em 2012?

Reginaldo Gomes: Se em dezembro do ano passado tivéssemos que desfilar já poderíamos ir para a Avenida. Com certeza éramos os únicos nessa condição. Nos cuidamos para não errar. Todo mundo sabia da força que iríamos mostrar no desfile e do investimento feito, mas até nós mesmos tínhamos dúvidas se tínhamos capacidade de fazer um desfile sem erros. A gente sabe das limitações que a escola tem, não temos 60, 70 anos de existência. Somos um grupo que está se montando. Mas esse medo acabou fazendo com que nos cuidássemos bastante. Do iluminador até o ferreiro, tínhamos o que havia de melhor no Grupo de Acesso. Existem as críticas de uns e outros, mas todo mundo tem que reconhecer o desfile que a Inocentes fez. Se preparou para ganhar o carnaval. Até entendo tudo o que falaram. É normal. Nós rompemos uma tradição. As pessoas não admitem que uma escola com 60 anos e nove títulos(Império Serrano) possa perder para uma escola de um município da Baixada Fluminense. Há um bairrismo. É a mesma coisa que aconteceu no futebol. Hoje a gente vê o São Cristóvão cair para a Terceira Divisão e o Macaé disputar a Série C do Campeonato Brasileiro. As cidades do interior estão investindo no esporte e a mesma coisa acontece com as escolas de samba. Botamos mais dinheiro que todo mundo e começamos antes que todo mundo. Enquanto todo mundo estava esperando chegar o dinheiro da subvenção, estávamos com quase tudo pronto. O dinheiro compra tudo, mas não compra o tempo. Você pode ter o máximo de recursos, mas se não tiver tempo não vai terminar o carnaval. É uma questão de gestão.

CARNAVALESCO: Acha que a não homologação do resultado por parte da Prefeitura e a suspeita de fraude são frutos de bairrismo?

Reginaldo Gomes: Acho que não. Na verdade foram ditas algumas coisas no calor do resultado e da emoção. A questão do não rebaixamento foi uma decisão conjunta. Não foi só minha. Tenho tudo provado para mostrar que algumas pessoas pediram isso naquele momento e a decisão foi tomada. Mas entendi o prefeito, não retruquei ele. Mesmo ele sendo contrário, num primeiro momento, ao título da Inocentes, a gente entende que ele é um cara que é voltado para o carnaval e participativo. É lógico que sei também que é difícil aceitar. Se eu não fizesse parte da Inocentes e você me perguntasse, sem ver o desfile, olhando menos ou sem olhar com o olhar crítico, quem foi melhor entre Inocentes e Império, qualquer um falaria que foi o Império Serrano. É como perguntar entre Flamengo e Olaria. Quem ganha? E não é só o Império, me refiro também a Viradouro, Cubango, Estácio… Escolas tradicionais. Houve uma confusão muito grande entre o não rebaixamento e o título da Inocentes. Não falo do prefeito e nem do secretário, mas algumas pessoas se aproveitaram do problema do descenso para questionar algo que eles não queriam, que era o título da Inocentes. Se tivesse acontecido o descenso, talvez não se falaria nada.

CARNAVALESCO: Se arrepende de ter assinado essa decisão?

Reginaldo Gomes: Foi uma decisão tomada em conjunto e acabei pagando por isso, até porque era o representante de todos ali. Nenhuma decisão na Lesga foi tomada isoladamente. Todos assinaram uma ata pedindo que não houvesse o rebaixamento. Depois, por pressão daqui e dali, acabaram não admitindo, mas isso agora está superado. Aprendi uma coisa nesse tempo que eu tenho de vida pública. É assim mesmo, as pessoas muitas vezes não cumprem aquilo que falam abertamente, mas a responsabilidade foi minha, poderia ter dito não e disse sim, mas já apanhei bastante por causa disso e não quero transformar esse episódio numa traição. Cada um lida da forma que quiser com isso. Um dia, todo mundo vai saber da verdade. Aquele momento fará parte da história do carnaval. Tenho certeza que fiz o que era melhor naquele momento para o carnaval do Rio. Nem todo mundo entendeu isso ainda, mas pode ter certeza que tenho essa consciência. Talvez se tivéssemos um mês para conversar ou dez dias para resolver, as coisas aconteceriam de uma forma diferente. Não tínhamos tempo para pensar. Fiquei quieto durante todo esse período, mas tinha essa consciência.

CARNAVALESCO: E o desentendimento com o prefeito?

Reginaldo Gomes: Talvez não tivesse ido para esse confronto direto se tivesse mais tempo para pensar. Deveria tê-lo procurado para discutir o que estava acontecendo, mas não era o momento. Tenho que pedir desculpas ao prefeito e ao secretário Antônio Pedro, eles foram muito parceiros e naquele momento nós colocamos o peso da responsabilidade pelo não rebaixamento na demora no repasse das verbas. Eu assumo esse erro. Essa foi a estratégia que arrumei. Se tivesse dez minutos a mais, tomaria, talvez, uma posição diferente. Eles reclamaram com razão, não fomos elegantes com a Prefeitura. Foram cinco minutos para bolar um documento. Tinha que ser na hora. Colocamos a culpa em quem não tinha culpa. Tomamos uma decisão e tínhamos quer ser maduros para saber o que estávamos fazendo. Eu errei… Peço desculpas ao Prefeito. Um dia vocês vão saber o que realmente aconteceu, mas isso nunca vai partir de mim.

CARNAVALESCO: E o surgimento da Lierj?

Reginaldo Gomes: A turma está lá tocando um projeto que a gente começou, teve muitas falhas, mas acho que ninguém pode atirar pedra e dizer que foi um completo fracasso. Montamos uma estrutura administrativa bem feita e conseguimos fechar um bom contrato com a televisão, além de fazer com que os horários fossem cumpridos. As arquibancadas lotadas também. Não imaginava que pudéssemos lotar aquele segundo pedaço. Sempre disse a eles que não deveria ter sido criada uma nova liga. Tivemos um problema naquele momento, mas vínhamos trabalhando bem. Gostaria de ter saído de uma forma em que não jogássemos na Prefeitura uma culpa que era nossa. Poderia até ter continuado, tinha força jurídica para isso, mas não adiantava atrapalhar o carnaval. O que for possível para ajudar a Lierj me coloco à disposição. Vivo para o carnaval. Tenho os meus negócios, meus trabalhos e gosto do carnaval.

CARNAVALESCO: Acredita que a Inocentes pode permanecer na elite?

Reginaldo Gomes: Aqueles que pensam que estamos só de passagem podem se preparar. Vamos vir fortes. Não vamos economizar. Não é uma vontade de ir no Especial e voltar. Belford Roxo não é uma comunidade, é uma cidade, sempre falo isso. É diferente de uma escola de um bairro, aqui é uma cidade com 500 mil habitantes que necessita muito do sucesso da Inocentes. A cidade já foi muito achincalhada com problemas de violência, mas hoje a população vê na escola uma esperança de que as coisas podem crescer em Belford Roxo. Em pouco tempo, a Inocentes se transformou e é um exemplo para a cidade. Vamos focar em dois ou três adversários e trabalhar em cima deles quesito por quesito. Já estamos trabalhando. O nosso casal, que ainda nem foi apresentado oficialmente, já está há um mês e meio ensaiando com a coreógrafa. Enquanto estão vendo o que vai acontecer, o nosso casal já está ensaiando. A nossa comissão, idem. Ela já surpreendeu no ano passado e se preparem para o que virá por aí. O Patrick Carvalho está se preparando, tá até na ''Dança dos Famosos'' também, colhendo os frutos do sucesso dele.

CARNAVALESCO: A meta então é permanecer?

Reginaldo Gomes: Exatamente. Estamos focando em três escolas. Alguns já acham que estão tranquilos porque se garantiram no Especial por mais um ano após o acesso da Inocentes, mas eu diria para não terem tranquilidade, pois estamos contratando e trabalhando o quesito em cima deles. É difícil permanecer, mas não é impossível. Pode até ser um carnaval de passagem, mas o investimento é pra ficar.

CARNAVALESCO: Qual será o tamanho do investimento nesse carnaval?

Reginaldo Gomes: Muito grande. Temos esse apoio da Coreia que vai injetar um valor considerável na escola. A Prefeitura de Belford Roxo também nos ajudará bem, até por que ela tem interesse nisso. Não vamos economizar. Vou alertar: ''Quem quer ficar no Grupo Especial, tira o escorpião do bolso, gasta dinheiro, porque aqui nós não vamos medir esforços''.

CARNAVALESCO: E esse enredo, como avalia?

Reginaldo Gomes: Compramos o barulho da Coreia do Sul, assim como fizemos com Corumbá, que estava envolvida em várias coisas negativas pela proximidade com a fronteira com a Bolívia. Mostramos que Corumbá é muito mais do que falavam, que tinha história, e vamos fazer a mesma coisa com a Coreia, um país de cinco mil anos. Eles querem que essa homenagem seja feita em conjunto com a que a Vila Maria vai fazer em São Paulo. Querem que isso alavanque a cultura deles fora no país. Lá na Vila Maria eles tem a abordagem deles, e aqui o Wagner criou a nossa.

CARNAVALESCO: Você pensa que a Inocentes pode trilhar um caminho parecido com o da Grande Rio no início da década de 90, por exemplo?

Reginaldo Gomes: Pode ser, mas na verdade o que a gente quer não é o crescimento só da escola. Queremos o mesmo fenômeno que aconteceu com Duque de Caxias. A Grande Rio ajudou no crescimento da cidade trazendo pessoas novas para o local. Começo a ver isso acontecer com a Inocentes. A cada evento aqui na quadra, vem pessoas novas do Recreio, da Barra, grupos de empresários. É uma relação que traz benefícios para a cidade. Isso é muito importante para quem mora na Baixada. Aqui existe um problema grave de autoestima, então a presença da Inocentes no Grupo Especial ajuda a melhorar isso. Num comparativo com a Grande Rio e até a Beija-Flor, temos que ser realistas e saber que não possuímos o poder financeiro que essas escolas têm. Esperamos também que outras pessoas possam chegar na Inocentes e que somem forças para aumentar o nosso poder.

CARNAVALESCO: Pretende contratar mais alguém para compro o quadro de profissionais?

Reginaldo Gomes: Não vai sair ninguém. A princípio não. Todos os profissionais que chegarem serão para somar, mas mandar embora não é a nossa ideia. Queremos profissionais com o perfil de Grupo Especial. Não queremos quem pensa em ir para o Grupo Especial e voltar.
 

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