FALA MANGUEIRA!!!!!

“Não há … nem pode haver, como em Mangueira não há (…)”

Este aí é um dos versos de “Fala Mangueira”, um dos mais marcantes entre tantos todos sobre a velha Mangueira. Não o mais belo verso, nem o mais belo samba, apenas o que melhor se aplica a tão preocupante momento.

Um verso forte presente no samba que também dá título ao disco inesquecível de 1967 com Carlos Cachaça, Cartola, Clementina, Nelson Cavaquinho e Odete Amaral.

Era um tempo em que toda a gente, inclusive aquele quase menino que eu era, se surpreendia com a qualidade poética e melódica dos sambas compostos por compositor do morro…sobretudo daquele morro.

Um tempo em que mesmo compositores de fora do morro compunham samba e levavam para o todo o país a magia daquele lugar; o maior canteiro de arte popular do país, no dizer de Sergio Cabral.

Fico imaginando as ondas potentes da Rádio Nacional levando até os ouvintes do mais distante sertão brasileiro uma música que dizia como era tão belo aquele cenário. Como seria o imaginário popular naqueles tempos, como ouvir e entender um cenário de barracos de zinco cantado com tanto orgulho por seus moradores. Imaginar aquele morro de gente tão pobre que “quando amanhece… que esplendor”.

Este um samba purinho do morro, de Enéas Brittes e Aloisio Costa, ambos trabalhadores da velha e lendária Cerâmica, forte com força suficiente para conquistar a cidade no carnaval de 1956, para depois na voz legendária de Jamelão, ecoar por todo o país plantando mangueirenses em cada esquina … em cada barzinho mais distantes deste imenso país.

“Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou”

Também no carnaval de 1956 o samba, título deste artigo, de Mirabeau e Milton de Oliveira, de fora do morro, mandava:

“Fala Mangueira, fala
Mostra a força da tua tradição
Com licença da Favela e Portela, a Mangueira
Mora no meu coração".

Era um dos momentos de máxima mídia positiva da escola que, pelas revistas O CRUZEIRO e MANCHETE da época, exibia em fevereiro a cara de seus heróis Delegado, Neide, Mocinha, Cartola, Zica, Neuma e tantos e tantos outros.

Um dia veio com um desses sambas insuperáveis, mais uma vez de fora do morro, de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola, a falar daquele mesmo cenário, desta vez para dizer dele que, quando visto do alto, mais parecia um céu no chão.

Mas os tempos mudaram…

Naquela última eleição da Mangueira, naquele episódio em que o presidente aparecia em cerimônia que envolvia o mais destacado traficante da cidade, no momento em que ninguém parecia querer “assumir” a comando da escola, tive oportunidade de destacar o quanto deveria ser difícil para qualquer ser humano, mesmo de dentro da escola, assumir naquele contexto de violências e ameaças.

Naquele momento cheguei a temer e supor estar assistindo ao ocaso de um gigante do samba.

Seguiu-se o episódio da cabine-camarote para uso da turma do tráfico: parecia ser o momento top da mídia negativa da escola. Parecia, pelo menos…

O posto maior da escola foi decidido sem que a Mangueira falasse, por ausência de concorrentes.

E chega agora mais um momento eleitoral. Com ele, novamente, se repete o momento top de mídia negativa para a escola.

De um lado a notícia, ainda investigada, que um grupo armado teria impedido o processo preliminar eleitoral. Outra notícia trazia a impugnação de chapas cercada de medidas judiciais vindas de todo lado. A revista da escola publicou, para depois retirar, notícias envolvendo captação de recursos sem prestação de contas.

Do blog de um candidato veio a afirmação mais instigante de todas: a de que o presidente teria criado a marca “SURDO UM” e estaria usando a própria força da escola para valorizá-la, inclusive usando o samba enredo da escola para tanto.

De tudo o mais preocupante, o mais marcante capítulo é o que agora tardiamente vem direto da delegacia de polícia para explicar, se comprovado, o desfecho daquela outra eleição realizada há três anos marcada pela ausência de concorrentes. Um dos candidatos desistentes à época vem agora a público e a cartório policial depor sobre as razões cabeludas de sua tão surpreendente atitude.

Será que estamos assistindo o ocaso de um gigante do samba?

O impasse e o clima surgidos sugerem que nenhuma das chapas terá condições de dar rumo à escola nas circunstâncias vigentes. Não se trata aqui de valorizar maledicências, tititis, desaforos e inconfidência próprias das disputas eleitorais, sobretudo em clubes e escolas de samba.

A questão é outra, de enorme gravidade.

Será que há um grupo que pode ter paz no morro e também status no mercado patrocinador? Será que terá um grupo com prestígio no mercado que tenha paz no morro?

Será que um ou outro terá força junto às principais correntes de influência da escola?

Uma coisa é vencer eleições, outra é assumir o comando de verdade. Qual será a forma de enfrentar tais perguntas, tantas sem respostas? Será que, na atual conjuntura, há mesmo uma chapa que possa sair vitoriosa com força suficiente para comandar a escola?

Qualquer resultado que venha da Mangueira calada só fará esta história de agora se repetir por outras tantas outras eleições futuras, a exemplo daquela ocorrida há três anos, independentemente do sucesso ou não de quem a tenha dirigido.

A única coisa em que acredito de verdade é na voz da Mangueira. Acredito e tenho certeza de que toda a força daquele morro não caiu do céu, não foi presente de ninguém e muito menos foi obra isolada de cada um de seus maiores baluartes.

Acredito, isto sim, na voz da Mangueira. Uma voz que esteve calada naquele último pleito e está calada também até agora.

Para quem está de fora, para quem tem a escola como uma das forças fundamentais capaz de influir em um desfile já quase-chato, o que se espera, independente de quem quer que tenha razão nas acusações recíprocas, é que a voz da escola seja ouvida. E mais, que seja a voz livre da escola, não a voz muda… calada, contida de agora.

Que se apague tudo. Que o Ministério Público intervenha. Intervenha no sentido de pacificar, de botar as cartas na mesa, os votos nas mãos de quem pode votar. Que garanta as condições de inscrição de chapas claramente dispostas.

Que os eleitores saibam que podem votar secretamente.

Fora isto, seja quem for o presidente, de agora e do futuro, por tudo que vem acontecendo, a Mangueira corre sério risco de murchar, de perder a graça depois de tanta mídia negativa repetida, repetida e repetida.

Murchará com conseqüências imprevisíveis até para seus filhos mais otimistas, mais valentes, mais valorosos.

Mais do que nunca, e cada vez mais, a voz da Mangueira precisa ser ouvida e, mais, precisa prevalecer. A Mangueira precisa disto, o samba, o desfile, o carnaval precisa disto.

Fala Mangueira… também para nós, não mangueirenses.

Nós sambistas que precisamos tanto do teu samba…da beleza do teu cenário…da força da tua voz.
 

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