Família Almeida Gomes: exemplo de amor e dedicação para São Clemente

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Fotos de Vinicius Vasconcelos

Quando o assunto é escola de samba, logo vem os desfiles na cabeça. Mas as escolas são muito mais do que o desfile. Com atividades o ano todo, tanto nas quadras, quanto nos barracões, elas são locais de encontros, de festas, com clima familiar. E quando se fala em família, uma se destaca no mundo do samba: a família Almeida Gomes. São quatro filhos – três homens e uma mulher – e todos diretamente envolvidos com a confecção do carnaval.

Estamos falando de Regina, Roberto, Ricardo e Renato Almeida. Roberto, 59 anos, é vice-presidente da escola; Ricardo, 58, é responsável pela confecção de alegorias, mas coloca a mão na massa em tudo que precisarem dele; Renato é o atual presidente da São Clemente. Regina, a única mulher no grupo de quatro filhos, foi diretora de chocalho na bateria da escola por sete anos. O CARNAVALESCO promoveu uma grande reunião dos irmãos, e como num domingo em família, ao redor da mesa, colocando o “papo” em dia, vieram filhos, netos, esposas. Foram horas de conversas, compartilhando lembranças, sonhos, desafios, com direito a muitas risadas e emoções.

– Nossa história no samba começa com o meu pai, fundador da escola. Com 11 anos, eu e Ricardo começamos como parte de uma ala de família, que tinha irmãos, primos. A Regina, nossa irmã, também já participava. O Renato não veio no primeiro ano porque era muito jovem, 6 anos de idade. E, num dado momento, o meu pai, que era presidente, carnavalesco, compositor, diretor de bateria, achou que uma comissão de frente de crianças ia ser um atrativo, um diferencial, e chamou o Renato, caçula, e uns primos para participarem. Foi assim que o Renato começou e hoje está como presidente – contou Roberto.

– E eu, desde sempre, era o destaque principal em tudo. Eu já fui estrela, eu já fui sol, eu já fui tudo. Uma vez colocaram uma coroa presa com uma caixa inteira de grampos na minha cabeça. Era tanto grampo que eu desfilei com a cabeça doendo demais. Falavam que eu estava emocionada, porque meus olhos escorriam, mas era por causa da dor – disse Regina, arrancando risada de todos.

Carnaval é a paixão da família

O pai, Ivo, foi o precursor de tudo, e o amor pela São Clemente na família cresceu de tal forma que até os “agregados” – esposas, amigos- acabam se apaixonando pela escola também.

– Na São Clemente, o carnaval sempre foi em família. Aqui, quem não gosta de carnaval passa a gostar, até os agregados. Natal, ano-novo, a gente sempre fala de São Clemente – contou Renatinho, como carinhosamente é chamado o presidente.

familia_saoclemente_2– Os namorados vão chegando e já são colocados contra a parede: ou você gosta de samba ou passa a gostar. Não resta muita escolha. O meu namorado não era fã de samba. Foi para a bateria e se apaixonou. E é meio automático as pessoas que entram para a nossa família acabarem gostando. Esse é o diferencial da nossa escola: por ser família, as pessoas gostam de estar perto da escola e de nós. As pessoas se aproximam do Renato, da Amanda, e acabam se aproximando da São Clemente; acessam a escola através da família – contou Amanda, filha de Roberto.

Essa paixão da família remonta a outros carnavais, numa época em que a festa ainda sofria com preconceito e era considerada coisa de gente atoa.

– A minha mãe gostava de carnaval, de escola de samba, mas nunca desfilou. Ela fazia as fantasias, fez as primeiras da São Clemente, e achava que carnaval era o marido dela, e ela era a retaguarda, o pilar dele. Isso 60 anos atrás – contou Ricardo.

– E naquela época, havia aquele preconceito com carnaval, como “coisa de malandro”. Até por isso, ela não queria envolver ela e os filhos com isso, tanto que os mais velhos só passaram a frequentar a partir dos 10 anos de idade. Hoje, o carnaval é visto de uma forma tão diferente que a gente já sabe que o nosso menor, o sobrinho-neto, com três anos, pode participar – disse Roberto.

Antes de integrarem a administração da escola, todos foram parte de algum segmento da São Clemente. São foliões que se tornaram administradores da escola.

– Todo mundo da família toca. Todo mundo entrou no projeto. Tem quem toca terceira, caixa, até o de três anos de idade toca. E isso foi uma forma de todos se integrarem a escola – contou Renatinho.

A perda dos pais

A paixão pela São Clemente só existe porque, lá atrás, o pai, Ivo, fundou a escola. Esse é um dos motivos que a perda dele mexeu tanto com toda a família, como recordaram os quatro irmãos.

familia_saoclemente_3– A perda dos nossos pais é a maior lembrança, e triste, de todos esses anos de São Clemente. Não tem como falar de família e carnaval sem pensar que os fundadores da escola foram embora. Mas a herança maior que ficou foi o laço familiar. A gente deu continuidade a escola, e esse laço de continuidade liga muito a família a escola – disse Ricardo.

A relação em a família

Quando o assunto é a irmã, Regina, os três irmãos se emocionam ao falarem dela. Orgulhosos, contam que, após a perda dos pais, Regina se tornou a “mãezona”, cuidando para manter a família unida.

– A Regina sempre foi um xodó, e quando ela nos deu a Bruna, foi ainda maior a alegria, porque ela nos deu primeira neta/ bisneta. A Regina é a mais importante nessa família. E ela fez o mais importante para nós: cuidou da minha mãe. Nosso tesouro era nossa mãe, e a Regina cuidou dela. E ela é assim: você chama ela e ela está sempre disponível para nós – disse Renatinho.

– Eu me sinto mesmo mãezona de todos. Por mim, eu agregava todo mundo, levava para minha casa. Natal estamos juntos, Páscoa, ano-novo, os aniversários surpresa que a pessoa sempre sabe que vai ter. Sempre estamos unidos. Tenho sim essa vontade de estarmos sempre juntos – disse Regina.

Mas quando o assunto é a relação dos irmãos com os mais jovens, tudo muda de figura, e mesmo aqueles que já são adultos, aos olhos dos irmãos, ainda são “nenéns”.

familia_saoclemente_4– Os três irmãos são três “cabeças” completamente diferentes. Cada um pensa de uma forma, e para mim é ótimo porque aprendo muito com cada um deles. Eles se completam na forma de pensar, e eu absorvo muito. Aprendo muito. E na escola, o que dá para eu administrar eu faço, e só levo a eles o que de fato não posso resolver – disse Thiago, filho da Regina.

– Ele ainda é o nosso neném, absorvendo conhecimentos. Ele era um neném, agora já é um cara que toma decisões, e isso porque ele foi aprendendo vendo a gente fazer, mas sempre nosso neném. E, confesso, a gente ainda segura e protege mais as meninas, e nem é machismo, mas um protecionismo em relação a elas – disse Roberto.

Administrar em família

A escola já está vendo a terceira geração da família chegando para cuidar dos negócios e os irmãos já se apoiam nisso, trocando conhecimento e aprendizado com essa nova geração.

– A São Clemente foi criada pelo pai, e a partir de quando ele nos deixou, nós efetivamente mergulhamos nisso, na escola, e já preparando uma base para esses jovens aqui. E agora há uma troca entre nós e os jovens, porque antes eram nossos “bebês proteção”, mas agora eles já tem um nível de maturidade para a gente ter esse tipo de conversa – disse Roberto.

Trabalho é trabalho, família é família

Os Almeida contaram ao CARNAVALESCO que, apesar de todos estarem envolvidos com a escola, e problemas sempre surgirem no caminho, eles não permitem que nada seja resolvido fora da escola. Em outras palavras, nunca levam problema da São Clemente para casa.

– A gente não deixa ninguém trazer problema de casa para o samba ou do samba para dentro de casa. A gente já tem uma forma profissional de lidar, e aqui existem troca de ideias, as vezes um se excede, mas aqui, na escola. O que se faz, e até o que se briga aqui, pelo carnaval, fica aqui. Na família, nós não discutimos problemas. A gente discute a escola em casa, mas não aspectos administrativos – contou Ricardo.

Relação com a comunidade

Para os irmãos, ter a família toda participando ativamente do dia-a-dia da escola tem reflexos nos resultados e na relação da escola com a comunidade.

familia_saoclemente_5– A nossa família é toda integrada a comunidade. Eles frequentam o Santa Marta, qualquer lugar, sem distinção. A nossa família não consegue, claro, administrar 3 mil pessoas, mas a gente se cerca de gente que possa nos ajudar nisso: o nosso mestre de bateria, Caliquinho, por exemplo; o Gilberto Almeida, o Gil da bateria, meu primo; o Cará, mais velho componente da escola, com a família participando, são pessoas que a gente confia e que fazem um excelente trabalho com a comunidade – disse Renato.

O presidente falou ainda do orgulho que sente de ver a geração mais jovem da família utilizando a formação que adquiriram ao longo de anos de estudo a favor da escola.

– As crianças da família – a gente fala crianças porque, para nós, ainda são – estão formados: sobrinha advogada, outra administração, publicidade, turismo. A Amanda, por exemplo, é advogada e já cuida dos processos relacionados ao juizado de menores. Todas as ações pequenas ela já atua – contou, orgulhoso, Renato.

Rosa Magalhães, uma “agregada” da família

Os irmãos contam que a relação com a atual carnavalesca da escola é de muita proximidade, a ponto de considerarem Rosa Magalhães parte da família, ou como eles dizem em tom de brincadeira, mais uma “agregada” dos Almeida.

familia_saoclemente_6– A gente sabe que a Rosa é um diamante do carnaval. A gente tem essa consciência. A gente sabe que não paga para ela o que ela merece, mas o carinho que ela recebe de todos nós, de toda a família, não tem dinheiro que pague. A gente tem idolatria em ter ela na nossa escola. A gente só teve um grande mestre na nossa vida, que era o nosso pai, e hoje temos uma grande mestra. Ela dominou o Roberto primeiro. Ele é apaixonado por tudo o que ela faz. Ele passou essa paixão por ela para mim, para o Ricardo. Ela trouxe ideias legais para a escola, diferentes, que engrandecem a escola – disse Renatinho.

– Muita gente fala que nós três damos palpite no carnaval da Rosa. Não é verdade. Ela é livre para criar, e o fato de ela estar há algum tempo aqui, ela sempre sabe como a gente gosta, qual a linha a São Clemente quer seguir. Ela sempre faz a contento – explicou Roberto.

Carnaval Inesquecível

Como os irmãos estão, desde sempre, presentes no dia-a-dia da escola, histórias sobre a São Clemente não faltam, e para cada um deles, há um carnaval que não sai da lembrança.

– Eu gosto de 2007, “Barrados no Baile”, porque falava de discriminação, e nos orgulha sempre falar disso, porque a São Clemente não discrimina. A gente conseguiu passar isso para nosso enredo, nossa escola, e a gente teve uma sacada legal, a cara da nossa escola. Para nós, os carnavais são marcantes porque antes de sermos dirigentes, sempre fomos foliões. Então a gente não é como alguns que vem só para administrar. A gente é parte da escola – disse Roberto.

familia_saoclemente_7– O de 1990: “E o samba sambou”. A São Clemente estava começando a formar grandes profissionais, e foi quando Roberto Costa lançou esse enredo. E foi a partir de 1990 que começou o grande profissionalismo do carnaval, e nós formamos profissionais que hoje estão em outras escolas, como Sidclei, porque ele começou aqui, o Igor Sorriso, que é um talento gigante; e foi um desafio fazer esse enredo. Ele foi apresentado a Mocidade, e ela não quis, e a gente fez. 20 minutos da apuração, a São Clemente estava em primeiro, só com 10 atrás de 10. Perdemos em alegorias e fantasias – lembrou Renatinho.

– O meu inesquecível também é o de 1990, por esses motivos todos. Foi mesmo um grande carnaval da escola – disse Ricardo.

– Para mim todos são inesquecíveis. Não consigo escolher um só, porque cada um tem suas histórias, suas emoções – disse Regina.

Carnaval 2017

familia_saoclemente_9Agora, a grande expectativa da família é ver a São Clemente fazer um grande carnaval em 2017 e voltar entre as campeãs. Mas os irmãos estão confiantes que esse ano a escola vai alcançar o objetivo.

– O carnaval 2017 vai ser o ano mais luxuoso da história da São Clemente. Viemos com um samba poético, um carnaval belíssimo. E a nossa missão agora é lutar, com os nossos componentes, para alcançar uma colocação melhor. Tivemos um oitavo lugar, que foi bom; fomos para nono e não gostamos disso, e agora queremos mais: sétimo, sexto. Já está na hora de querermos mais, porque a gente tem mais maturidade e estamos mais preparados para isso. E com as novidades nas regras, o módulo do meio, onde tem a cabine dupla, se tornou a sensação do carnaval. Quem comprou lugar para lá, vai ver o título ser decidido. – disse Renatinho.

Uma família exemplar

Questionado sobre qual é a marca da família Almeida, os irmãos são bem objetivos na resposta: união.

– Nossa família é exemplo de união. A gente se dedica para as nossas crianças, dá exemplo para eles, e a gente tem muito orgulho deles. E todos nós cuidamos juntos. Somos unidos – disse o presidente Renatinho.

Mas não é só com os jovens da família que os irmãos se preocupam não. Há um enorme cuidado da parte deles com os jovens que a escola recebe, como os da bateria, por exemplo.

familia_saoclemente_8– O Caliquinho faz um trabalho muito legal na comunidade dele. Ele pegou vários jovens na comunidade e colocou para tocar. E hoje eles têm vaga em qualquer bateria. É um trabalho bacana, e que ajuda a resgatar os jovens, a cuidar deles. Os garotos já viajaram para Itália, México, pela escola. E o Caliquinho cobra deles empenho, mas também estudo, dedicação aqui e fora da São Clemente também – explicou Renato.

E não são apenas os homens que cuidam dos jovens da bateria, porque tem uma pessoa da família que convive ainda mais de perto com eles e tem muita preocupação com cada um: a rainha Raphaela, filha do presidente da escola.

– Eu chegar a rainha foi algo que ocorreu de forma natural. Eu já desfilava na escola desde nova. Estou há tempos na escola, e hoje, a frente da bateria, eu posso dizer que a São Clemente, mais do que nunca, é a minha vida. E quando estou na bateria, eu tento sempre representar essa família toda que está aqui, e minha família se preocupa com cada um ali, e eu não sou diferente. Faço isso com o maior amor do mundo – disse a rainha.

Há poucos dias para o carnaval, na família Almeida a preocupação é uma só: o desfile. Só resta aos Almeida aguardar para ver quais as lembranças que vão ficar no álbum da família sobre o carnaval 2017.

– Falar da São Clemente é falar da história da nossa família – disse Roberto.