Foliões do carnaval

Não consigo passar um desfile do Bola Preta impunemente.

É sempre assim, a cada ano. A parte do tempo que fico em cima do caminhão é repleta, povoada de vôos por toda minha vida, por todos e tantos carnavais que passei.

O carnaval muda tanto, sem parar… impiedosamente. Estraçalha e acolhe, acaricia nossa melhor memória, melhores lembranças. Não é por outro motivo que cada geração tem o seu carnaval.

Sabemos que só ali ouviremos e cantaremos nossas marchinhas identificadoras de nossa nacionalidade e de nossa verve.

Por mais que se tente e que já se tenha tentado, inclusive através de redes de televisão, e através do maior e mais FANTÁSTICO canhão de audiência disponível, as marchinhas não reagem com a força necessária a lhes garantir sobrevivência.

Desde que a música de carnaval passou a ser produto, inclusive e principalmente a partir do Salgueiro pós Zuzuca, tanto as marchinhas quanto os sambas dos blocos foram quase mortalmente atingidos.

Tudo se passa como se fosse impossível a convivência de marchinhas, com sambas-enredo e marchas-ranchos.

O desfile anual do Bola, que tanto bem faz para todos nós, para toda a cidade e para todo o carnaval, tem ainda a propriedade de mostrar a possibilidade de convivência de todos os gêneros. Mesmo sendo um grupamento majoritariamente de marchinhas, o bloco usa e abusa de sambas-enredo,claro que escolhidos a dedo.

É o que vimos hoje. Em meio a tantas marchas o Bola serve para demonstrar isto. E assim fazendo mostra que a ILHA é a campeã desta união marcha-samba-enredo tantas são as vezes que seus formidáveis sambas animam e esquentam os desfiles do Bola Preta a cada ano.

E foi assim que foi hoje. E mais …o que o Bola provou hoje, para minha tristeza, é que todo mundo nesta cidade é Flamengo. Foi assim que, no momento, hoje, de maior “fervo”, na hora da execução do samba das torcidas, de Neguinho da Beija-Flor, dava para sentir, dava para escolher qualquer um dos milhões de foliões ali presentes, qual era o time que respondiam ao chamado do samba: “Domingo, eu vou ao maracanã, torcer para o time que sou fã”.

“(…) E o nome dele são vocês que vão dizer”.

Tantas vezes ouvi o refrão, tantas vezes observei bocas a gritar e identificar seu clube. Pois, digo com tristeza tricolor, não vi uma só pessoa gritar “NENSE”. Também não vi ninguém gritar Vasco e nem Fogo”. Quanta tristeza no carnaval…

A impressão que dá é que toda aquela massa faz daquele momento – tal como eu – seu momento maior do carnaval. Depois, cada um vai pro seu lado, para sua família, fica diante da TV, viaja ou fica ali pelo seu bloco de sujos. Mas a impressão é que ali é o momento maior.

Quantos se fantasiam, individualmente ou em grupos. As moças capricham a indumentária, em fantasias. E quanta sedução. A impressão é que todos ali estão para encontrar o amor de suas vidas, mesmo que só até quarta feira.

Me dá vontade de descer ali, a cada morena prometer amor eterno. Quantos casamentos prometo, principalmente enquanto fico em cima do caminhão. Ou prometer abandonar a família, jogar a aliança fora ou ficar com elas direto e só voltar na quarta-feira. Isto para depois mostrar a aliança, embalar o braço se referindo ao bebê que ficou em casa e trocar um sorriso aberto, largo, da mostra que tudo é brincadeira, tudo é carnaval.

O maior sucesso foi o sacolé de caipirinha a três pratas. Sucesso total. Os homens-aranha saíram com aquelas calças de bailarino trazendo por baixo imensas beringelas como se fossem pênis descomunais: muito sucesso, principalmente junto àquelas moças que ficaram em dúvida se era ficção ou realidade.

Só perderam para uma Mulher Maravilha, loura e de feições delicadas, que usou o …digamos…mesmo expediente peniano que os homens-aranha: sucesso total.

Mais uma vez não vi nenhuma briga. Neste ano não vi também nenhum punguista, embora saiba que estão sempre por perto. Mas, repito: nenhuma briga. Por quê será?

Quem somos nós que estamos ali? Será que é porque ali é o palco melhor e maior de nossas vidas? Será que é porque só queremos ali cantar e dançar? Será que é porque ali estamos no coração de nossa cidade… no coração do Brasil? Mostrando ao resto da cidade, a todos que não estavam ali, o orgulho de termos uma história musical tão bonita, tão admirada principalmente por todos nós.

Sim, estávamos ali cantando muitas vezes o nosso hino. E a cada vez que o cantávamos, dizíamos com o maior orgulho quem somos nós, o que nos distingue que nos faz diferentes.

Ali, cantamos bem alto, milhões de vozes, quem somos nós afinal:

“TODOS SÃO DE CORAÇÃO
FOLIÕES DO CARNAVAL”
 

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