Frases feitas no carnaval

 

Aos esquizofrênicos de plantão cabe dizer que este texto não foi escrito para uma pessoa em especial. Trata-se de um relato ficcional baseado no imaginário coletivo que proporciona comentários encontrados nos sites, listas de discussão e grupos no Facebook ou Orkut sobre carnaval, onde sempre rolam frases feitas das mais piegas e sem conteúdo.

Por exemplo: “Quem é escola tal, dá o sangue por ela…”.

Me recordo que algumas vezes amigos sambistas que frequentam suas escolas com assiduidade, necessitaram de doação de sangue para salvar suas próprias vidas ou a de parentes e apareceram 1 ou 2 doadores. Ou seja; esse sangue que dão para a escola, na verdade é pela festa e não por altruísmo. Quando se trata de ajudar ao próximo essa capacidade de doação desaparece. Não fosse assim, o Hemorio teria que agendar dia de doação e haveriam filas enormes na porta.

Outra frase feita: “Já virei muitas noites colando paetês”.

E fazem isto de graça (em termos). Pois, se não for lá colar e pregar, não vai ter fantasia de comunidade para desfilar…. Por falar nisso; quanta disposição para trabalhar. Será? A dúvida é porque na hora de fazer horas extras no emprego, estas mesmas pessoas reclamam até com o Bispo. Mesmo que dali role um cascalho necessário para sua família.

Mais uma: “Criticar em redes sociais denigre a imagem de nossa escola”.

Ora. Quer dizer que brigas dentro e fora das quadras, dirigentes respondendo a processos criminais, se associar a gente nada recomendável, contabilidades suspeitas, etc. Preservam o bom nome da escola?

Outra: “a minha escola está acima de tudo…”.

Como é cara pálida? Você está dizendo que a sua mãe, seu pai, sua esposa e seus filhos estão (em grau de importância) depois da sua paixão pela escola de samba?

Tem essa: “As pessoas passam mas, a escola fica”. Coisa mais óbvia. É até pleonasmo. Claro que fica. Não tem porque não ficar. Mas, se transformam e as escolas de samba são reflexos das pessoas que estão lá no momento. Melhor ou pior, uma escola de samba de hoje não é igual a de 40 anos atrás.

Que tal essa? “Reclama de nossa agremiação? Vá torcer para outra”. Uma variável de “Os incomodados que se mudem” ou “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Aquela coisa de falta de argumentos e autoritarismo.

Tem também: “Esse agora é o nosso hino”. Traduzindo: não tem jeito, é com essa coisa que vamos para a avenida, então trate de aprender a cantar logo esse negócio.

Ou ainda: “Perdi o samba mas quero mostrar para todo mundo que tenho a alma generosa, amo a minha escola e vou cantar o nosso novo hino na avenida…”. Só que fica pelos cantos da quadra e bares do bairro descendo o pau no samba vencedor.

Não podemos esquecer os agradecimentos. Esses são chavões dignos de concurso de miss: “Quero agradecer ao presidente, aos diretores, bateria, a quem torceu por nós. Esse caminho foi árduo mas aqui chegamos…”. Na verdade, custou muita cerveja e diversão pela noite adentro.

E não me venham dizer que isso é tudo em sentido figurado, pois não é. As pessoas falam como se fosse a própria vida. Então, cabe um estudo antropológico e psicológico, para entender esse homo-carnivalis, uma variável do homo-sapiens.

Lembrete aos navegantes: este texto não foi escrito sobre vocês (mas, se vocês conseguem se ver nele, então foi…).

Ah ! Uma última: “Quem é você no mundo do samba?“ um equivalente ao “Sabe com quem você está falando?” Normalmente, quem diz isso, é o filho, o neto do bisneto ou o filho do cunhado do genro de um benfeitor da escola. Na verdade ele mesmo não faz nada pelo samba, mas se apoia nos feitos de seu ancestral. Em suma, é um Zé Ninguém que tem Pedigree.

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