Fred Soares: ‘As escolas que desfilam sexta no Sambódromo’

 

 

Honra e tradição. Estas são as duas palavras que bem podem resumir o espírito do desfile das escolas da Série A, que tem início nesta sexta-feira, na Marquês de Sapucaí. Ainda a anos-luz dos recursos financeiros disponibilizados às agremiações do grupo principal, estas briosas agremiações da Zona Norte, Zona Oeste, Baixada, Niterói e São Gonçalo lutam com tremenda dificuldade para colocarem seus carnavais na rua. Mas a falta de grana não obscurece a gana. E a paixão e a determinação que cada uma delas tem para cumprir as obrigações com as suas comunidades.

Mas o nosso carnaval carioca tem essa peculiaridade (copiada pelos demais desfiles hoje espalhados Brasil afora): a competição. Portanto, essas concorrentes também se oferecem a análises, críticas, comentários e, o que faremos agora, prognósticos. Estas opiniões são o sumo de informações vivenciadas ou colhidas ao longo dos últimos meses, desde a escolha do enredo, passando pelo período de escolhas dos sambas, chegando à temporada dos ensaios técnicos e algumas visitas a barracões e que nos permitem apontar como cada uma delas chegará à Avenida para lutar pelo seu objetivo: a busca pelo título ou a tentativa de permanecer no grupo.

Vamos às escolas de sexta-feira:

EM CIMA DA HORA – Um momento dos mais aguardados. Afinal, a avenida principal do carnaval voltará a receber a versão sambística da Ilíada, um dos nossos maiores clássicos: "Os Sertões", do grande Edeor de Paula. Isso por si só já merece aplausos de pé. No entanto, a escola de Cavalcanti não terá vida fácil principalmente na parte estética. Houve muitas dificuldades na montagem das alegorias e, considerando o alto padrão das concorrentes, a permanência na Série A será bem complicada.

UNIÃO DE JACAREPAGUÁ – Era considerada pule de dez para cair em 2013. Fez um desfile de certa forma surpreendente e assegurou a permanência. Obra e graça do competente carnavalesco Jorge Caribé, que consegue tirar leite de pedra. Para 2014, a escola segue naquela zona de perigo. Caribé foi mantido, o que é uma grande mais valia. O enredo, sobre as origens da Nação Nagô – cuja influência é notória na formação do nosso povo – não chega a ser uma grande novidade. De uma ou outra forma, já passou pela Avenida. No entanto, produziu um interessante samba-enredo. A briga pela permanência será mais árdua este ano. Mas disposição não falta a esta simpática escola, cuja sede é na Estrada Intendente Magalhães.

ACADÊMICOS DA ROCINHA – Arrisco-me a dizer que, nos três últimos carnavais, foi a escola que mais se sobressaiu na Série A quando o assunto é criatividade. E sempre na base do bom humor, com temas interessantes e alternativos, como a história do vidro e as histórias das praças no dia a dia da cidade. Este ano, no papel, a história é outra. Optou por um enredo mais quadrado (falar da Barra da Tijuca) em troca de um patrocínio que não chegou. Resultado: dificuldades na montagem do carnaval e muito trabalho para que os compositores pudessem transformar este insípido tema num bom samba-enredo. Sinceramente, não consigo ver este ano a Rocinha brigando na parte de cima.

RENASCER DE JACAREPAGUÁ – Um enredo excelente, um samba estupendo e um conjunto de componentes absolutamente comprometido. O tripé estámontado para que a Renascer volte à briga para retornar ao Grupo Especial. Foi muito feliz a iniciativa de escolher o cartunista Lan para ser o tema central desse desfile, que promete ser norteado pela emoção. A rigor, trata-se mesmo do reconhecimento desta cidade que este italiano escolheu para viver. Cidade e personagens que ele tão bem soube retratar em seus desenhos. O samba, resultado de uma encomenda aos compositores Moacyr Luz e Claudio Russo, tem como resultado a obra mais criativa deste carnaval, considerando mesmo o Grupo Especial. Pode não ser até o melhor samba. Mas é o mais autoral, sem sombra de dúvidas. No seu ensaio técnico, os componentes deram um show de harmonia, resultado em grande parte do bom trabalho da bateria.

PORTO DA PEDRA – Outra agremiação que apostou no singelo. Resolveu homenager os casais de mestre-sala e porta-bandeira, um dos pilares da formação da própria escola de samba. No dia do ensaio técnico, o que vi foi um conjunto de componentes cantando o bonito samba de forma absolutamente feliz. Se conseguir resolver este enredo com boas soluções estéticas, a acredito que, depois de dois anos de profundos insucessos, o Tigre de São Gonçalo possa ressurgir com força. A participação dos grandes casais de todos os tempos pode dar à apresentação um toque de nostalgia que teria peso num quesito que não conta pontos, mas influencia os demais: a emoção.

PARAÍSO DO TUIUTI – A escola de São Cristóvão resolveu levar para a Sapucaí uma reedição de "Kizomba, a Festa da Raça", enredo campeão pela Vila Isabel em 1988. Tema fortíssimo e um samba no mesmo nível. Uma combinação perfeita para uma agremiação que tem na força do componente a sua maior virtude. Considerando-se que o tema não exige luxos e faustos mais caros, e que é possível de ser desenvolvido com materiais mais simples e alternativos – o que é absolutamente necessário para o Tuiuti que nõ dispõe de tanto dinheiro assim – vejo com boas perspectivas a permanência da escola, até numa boa posição.

INOCENTES DE BELFORD ROXO – Essa escola em 2014 presta um grande serviço cultural à cidade e ao país ao resgatar uma história pouco conhecida da maioria: a vida de Joaquina Maria da Conceição, a Joaquina Lapinha, a primeira cantora lírica brasileira a se exibir em palcos europeus. Uma mulher que, negra, teve de lutar contra as barreiras do preconceito racial para se impor artisticamente. O tema proporcionou aquele que é, na minha opinião, o mais belo samba-enredo da Série A de 2014. Resultado de uma fusão, evidente dedo de Mestre Laíla, que emprestou seus serviços à escola. Aliás, o padrão Laíla de qualidade já pôde ser observado no ensaio técnico, quando tivemos componentes totalmente compromissados com a escola. Se vier com bom padrão de alegorias e fantasias, vai brigar lá em cima.

IMPÉRIO SERRANO – Antes de falar do Império, vamos primeiramente saudar o Império, escola que nos proporcionou a maior discografia de sambas-enredos. Mas, como disse, ela está sujeita a análises, Então vamos a ela. A verde-e-branco nos acostumou a pregar peças nos últimos anos. Quando achávamos que vinha mal, brilhou (como no ano em que venceu a Série A com um enredo sobre Carmem Miranda debaixo de um abençoado temporal). E na hora em que tudo indicava que a taça era dela, falhou. De certa forma, foi assim em 2013. Para este ano, escolheu um tema que não provoca maiores arrepios. Ressolveu falar de Angra dos Reis. No papel, mais um daqueles temas sobre cidades que pouco ou nada contribuem. Só que falamos do Império. O samba-enredo é um dos melhores da safra de 2014. E a escola tem um trunfo: o carnavalesco Eduardo Gonçalves, um dos melhores da nova geração (podem anotar o nome e me cobrar depois). Um artista que, da absoluta falta de dinheiro, consegue obter resultados notáveis. Não diria que o Império está sem dinheiro. Mas certamente o din-din não corre lá feito as águas de Angra. O ensaio técnico não ofereceu um grande cartão de visitas, mas, pela tradição, não podemos desconsiderar o "menino de 47".

Comente: