Fred Soares: ‘Cheiro de mudança no ar’

A deixa do lançamento do livro "As Três Irmãs", dos companheiros Fábio Fabato, Alexandre Medeiros e Alan Diniz, serve de ponta do novelo para que possamos esticar uma discussão: estará o carnaval prestes a se enveredar em um novo modelo de gestão? Ou a atual forma de comando das escolas de samba do Rio se manterá ainda por longíquos anos?

Explico: a publicação faz uma reminiscência à época em que Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense e Mocidade Independente meteram o pé na porta do enclausurado domínio das chamadas quatro grandes (Mangueira, Portela, Salgueiro e Império Serrano) e começaram a escrever um novo capítulo na nossa história momesca. Este período tem estreita ligação com a entrada em massa dos contraventores ligados ao Jogo do Bicho. Com eles, estas escolas – antes meras coadjuvantes ou mesmo habituais frequentadoras do segundo grupo – deram um salto de qualidade monumental e passaram a colecionar títulos.

Anos mais tarde, isso se expandiu para a própria direção do espetáculo – com a criação da Liesa -, que ganhou um novo vulto e notória organização.

Só que, de meados dos anos 70 até hoje, o aprimoramento do modelo de gestão não acompanhou o crescimento da festa. A rigor, cada escola de samba preocupa-se basicamente com o desfile do ano seguinte. É pouco, muito pouco para uma instituição que, a se considerar a grandeza do contexto na qual está inserida, deveria auferir uma quantidade imensa de dividendos que lhe permitisse uma auto-sustensação segura e, por conseqüência, um planejamento para o seu futuro muito mais a longo prazo.

Comparando as escolas de samba com a política internacional, diria que elas ainda vivem dentro da sua "Cortina de Ferro", com filosofias muito fechadas e quase imutáveis. O resultado disso, por exemplo, é a tremenda dificuldade que as agremiações têm em obter parceiros comerciais para tocar os seus projetos. Quase invariavelmente, estes "sócios" vinculam suas colaborações a uma interferência no enredo que, em muitos casos, ferem gravemente a liberdade cultural que os carnavalescos deveriam possuir.

Mas há cheiro de mudança no ar – e perceber uma mudança histórica não é uma missão das mais fáceis. Com relação à Unidos da Tiuca, por exemplo, vê-se já há alguns anos um formato de administração que lembra o de uma empresa. Até mesmo na configuração física de seu barracão. O presidente funciona como uma espécie de CEO, enquanto seus auxiliares mais diretos agem como diretores, gerentes, fazendo a máquina da empresa girar. Ainda é pouco? Sem dúvida, é. Mas é um importante passo. Caso haja uma mudança na conjuntura, é certo que a escola do Borel é uma das que estará preparada.

Interessante também é observar o viés seguido por São Clemente,  escolas que, natural e teoricamente, entra naquele grupo das que lutam contra o rebaixamento. Vou longe ao afirmar que a escola de Botafogo mostra-se pioneira ao (voltando a fazer aquela comparação com a política internacional) se abrir para o capital externo. Associou-se ao empresário do ramo do entretenimento Luiz Calainho e estabaleceu um modelo que produziu recursos e veiculou sua imagem na mídia de uma forma nunca antes vista (é bem verdade, com uma relativa ingerência no enredo). A São Clemente que antes fazia, principalmente depois da escolha do samba-enredo, minguados ensaios às sextas-feiras, agora tem intensa movimentação em sua quadra às terças, quintas e sextas, algo antes inimaginável. Aposto que a simpática agremiação de Botafogo fará o mais rico desfile de sua história. Se vai ou não permanecer no grupo, aí é outra história. Mas, pelo menos, lançou, digamos, no mercado um novo caminho que pode ser seguido pelas outras.

Um caminho, sem sombra de dúvida, alternativo ao patronato e que, a médio ou longo prazo, pode determinar uma nova era para o carnaval do Rio de Janeiro.

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Algumas sobre os ensaios técnicos dos dias 14 e 15 e janeiro:

TUIUTI – Emocionante a garra e disposição dos componantes. Mas o samba-enredo tem seríssima tendência para o arrastado e a escola tem de tomar cuidado com isso.

ROCINHA – Muito animada, mas pouco organizada. As alas se embolaram a todo momento e a parte final da escola largou o samba de lado. Parou de cantar.

PORTELA – Um início apoteótico. Tem sem dúvida o melhor samba dos últimos anos. Mas o gigantismo foi assustador. Houve momentos, com a bateria já bem afastada, que o canto variou.

RENASCER – A mais agradável das surpresas. Uma escola descontraída, alegre e descompromissada, no melhor sentido. Só falhou na bateria, cujos instrumentos mostraram sérios problemas de afinação.

MOCIDADE – Falhou na organização do seu desfile. Saiu muito cedo com a bateria (que aliás apresentou-se com um andamento demasiadamente lento) e deixou uma multidão na pista quase sem referência de ritmo e som. Resultado: a parte final atravesosu o samba.

UNIDOS DA TIJUCA – Uma apresentação sublime. A impressão que deu foi de que cada integrante sabia exatamente o que tinhe de fazer. O resultado de evolução e de harmonia foram notáveis. Lembrou muito o estilo rolo-compressor da Beija-Flor, só que com mais graça, com mais alegria. E a bateria foi mais do que perfeita. Se houvesse a nota 11, certamente mereceria.

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