Fred Soares: ‘O carnaval na mesa do debate político’

O crescimento das escolas de samba nos últimos 25 anos é mais do que evidente. E, por isso, até tardiamente, a gestão do seu desfile entrou no debate político da próxima eleição municipal.

E, como tudo que gera uma discussão, de forma polêmica. O assunto veio à tona partir das declarações do Deputado Freixo, principal candidato de oposição ao governo do Rio, que questionou alguns pontos da gestão do espetáculo e expôs sua opinião a respeito dos temas apresentados por agremiações que, segundo ele, não teria estofo cultural suficiente para ser desenvolvido na Marquês de Sapucaí.

Tenho algumas opiniões sobre isso e, deste espaço que me é oferecido pelo “Carnavalesco”, pretendo colaborar com esse debate que – isso, sim, não merece contestação – é muito saudável para o carnaval e, principalmente, para a cidade.

Não há como negar que a história das escolas de samba – no que tange à gestão – se divide na era pré e pós Liga Independente das Escolas de Samba. O crescimento da festa como um negócio, ou seja, que rende muito a seus participantes e à cidade, é indiscutível. Por outro lado, o desfile perdeu parte da sua espontaneidade e daquilo que costumamos chamar de raiz. Talvez seja esse um dos pontos reclamados pelo candidato do PSOL.

Na verdade, o Município se tornou omisso, principalmente na última década, da sua função – prevista inclusive na sua Lei Orgânica – de participar do processo. Os governos Cesar Maia, Conde e Eduardo Paes não erraram ao reconhecerem a expertise da Liesa. Mas falharam em virar as costas para tudo. O poder público tem a obrigação de ser um elemento ativo nas decisões, sem impor posições, mas interferindo e fiscalizando o andamento das coisas. E aí reside outro levantamento do candidato Freixo: a escolha dos jurados, tema que há muito tempo gera polêmicas. Município e Liesa deveriam, JUNTAS, trabalhar nesse ponto. Ao mesmo tempo, o governo não fugiria à sua responsabilidade e a Liesa se livraria de um peso enorme sobre as costas, o qual é obrigada a carregar todos os anos, sobretudo quando o resultado final causa polêmica.

Sabemos todos que não custa pouco pôr um carnaval na rua. Fator que leva muitas escolas a optarem pelos tais enredos patrocinados. Cabe a elas – e só a elas -, porém, avaliar o custo-benefício desta escolha. Dirigentes e carnavalescos sabem que uma má escolha é quase a assinatura de um atestado de fracasso no desfile. Por isso, achei radical e inapropriada a colocação do Deputado Freixo, afinal é um tanto subjetivo se determinar a relevância cultural ou não de um tema. Mas a entendo como uma cobrança, já que o dinheiro público entra no jogo e é justo que se cobre a contrapartida cultural. Quantos de nós já não torceu o nariz ao saber sobre a escolha deste ou daquele enredo por, na nossa opinião, não oferecer conteúdo suficiente para a execução de um bom carnaval? No caso do Salgueiro, por exemplo, fui um dos que não via no tema proposto elementos que justificassem um enredo. Fui convencido do contrário, depois de uma longa conversa com a carnavalesca Márcia Lávia, que, a partir dos elementos colhidos na pesquisa, mostrou-me ali um enredo interessante. Será o enredo dos meus sonhos? Possivelmente, não. Mas há ali uma boa história a ser contada. Quanto a outros enredos polêmicos – como da Grande Rio, da Inocentes de Belford Roxo e da Beija-Flor –, isso pode muito bem se repetir. Mas, revelo, ainda não fui convencido disso.

Ainda sobre o tópico anterior, vale lembrar que, com sensibilidade artística e talento, é possível conciliar a relevância cultural com bom patrocínio. Um bom exemplo disso é o enredo que será apresentado pela Unidos de Vila Isabel. E também é bom ressaltar que a interferência do patrocínio nem sempre é sinônimo de bons resultados. Vide a história recente da Unidos da Tijuca que, de 2004 em diante, sempre com enredos originalmente criados e desenvolvidos pela sua equipe cultural e artística, transformou-se numa verdadeira potência, com dois títulos e dois vice-campeonatos.

Ofendida com as declarações de Freixo, leio que a presidente do Salgueiro convocou uma manifestação a favor da liberdade de expressão. É um direito legítimo, mas uma atitude exagerada, da mesma forma como achei inapropriada a colocação do candidato. Em momento algum, na minha opinião, sua afirmação teve algum cunho de censura. Muito pelo contrário. Ele deu uma opinião absolutamente particular e, por ter o peso da opinião de um político bem conceituado, incentivou o debate (causando a discussão), o que é saudabilíssimo. Cabe à presidente, sim, apresentar argumentos que sirvam como réplica ao que foi levantado pelo candidato. Só assim vamos ajudar a sociedade a tomar uma posição que seja, acima de tudo, relevante para o engrandecimento do desfile das escolas de samba.

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