Freixo quer poder público no comando do Sambódromo e dos jurados do carnaval

 

 

O pré-candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (PSOL), promoveu encontro na Câmara dos Vereadores, na noite desta sexta-feira, para apresentação de um projeto piloto com uma série de mudanças na administração do carnaval carioca. O encontro contou com a presença de lideranças da imprensa carnavalesca e de componentes de diversas agremiações. Dentre os principais pontos do documento, que não é definitivo e ainda será debatido em suas minúcias, está a transferência de determinadas atribuições da Liga Independente das Escolas de Samba para o Poder Público, que ganharia uma subsecretaria de carnaval.


Ao lado de Freixo na mesa de debate, Dudu Botelho, compositor do Salgueiro e um dos signatários do documento, e Eliomar Coelho, vereador representante do partido na Casa. O pré-candidato do PSOL abriu a noite de maneira bem humorada, lembrando a última vez que esteve no auditório que serviu de sede para o encontro.


– Quero dizer que para mim é um alívio estar aqui neste local com pessoas desta natureza e debatendo um tema tão importante. Da última vez que estive aqui, foi para a leitura do parecer final da CPI das Milícias, em 2008, e quase levei um tiro, foi uma situação bem tensa, vocês podem imaginar.


Após a leitura da proposta e breves dissertações sobre cada item, Freixo respondeu perguntas dos presentes e abriu espaço para algumas opiniões. Ficou acordado que o próximo encontro para abordar o tema acontecerá no dia 18 de junho, às 19h, ainda sem data definida. O interesse de Marcelo Freixo sobre a questão surgiu após as notícias do imbróglio envolvendo a Prefeitura e o resultado do Grupo de Acesso A no último carnaval. Chamado pelo deputado, Dudu Botelho trouxe para a conversa uma série de integrantes da imprensa carnavalesca e amantes da festa, que externaram alguns pontos que, na visão deles, estaria descaracterizando o carnaval carioca. Dudu mostrou-se emocionado com o desenvolvimento da ideia.


– Recebi um chamado do Marcelo, que queria entender o que estava acontecendo no carnaval e busquei a ajuda de amigos para buscarmos uma forma de propor mudanças que possam salvar o carnaval do rumo que ele está tomando. Este não é o carnaval que aprendemos a gostar e estou muito emocionado de ver o resultado que isso está dando. Encontramos no Marcelo um eco para as vozes de quem realmente está preocupado com o futuro do carnaval – disse ele.


Freixo chamou de ‘’ausência de presença do Poder Público’’, a organização atual do carnaval carioca. Em seu plano para o carnaval, a Liesa perderia poder.


– A Liesa não pode fazer a função do Poder Público. Não é questão de acabar com a entidade, nós não queremos fazer isso, simplesmente queremos devolver ao Poder Público aquilo que nunca deveria ter perdido. O Poder Público tem que ser Poder Público e não um balcão de negócios como vem ocorrendo não só com o carnaval, mas também em outras áreas da sociedade. Nossas propostas não são dirigismo. Se dirigismo é ter cuidado com o dinheiro e com o bem público, ok. Nós sabemos que não há prestação de contas sobre os recursos públicos que as escolas ganham.


O formato de venda dos ingressos também foi alvo de críticas. Na visão dele ‘’é inadmissível que, no século XXI, se venda ingresso para um evento somente por telefone e fax e com o pagamento em dinheiro vivo’’. Além disso, Freixo pretende que a escolha dos julgadores seja feita também pelo Pode Público.
 

– A sociedade simplesmente engole essa história. Quero que me digam um grande evento em que a venda de ingressos é feita desta forma. Venda de ingresso não pode ser função da Liesa. Ela representa as escolas e ponto. Se as escolas acharem que devem ser representadas por ela, ótimo. Isso não significa uma demonstração autoritária de poder. É bom deixar claro que esse documento não é definitivo e nem um projeto por inteiro. É um pontapé inicial e estamos abertos a discussões. Os blocos também serão debatidos. É um documento aberto ao debate. Quem escolhe jurado, por exemplo, é o Poder Público. Isso tem que ser responsabilidade de uma subsecretaria de carnaval. A Riotur tem que cuidar do turismo, não das escolas de samba. Através do diálogo vamos tentar fazê-los entender.


As mudanças, frente ao cenário e a mentalidade que temos atualmente no carnaval parecem improváveis, mas ele garante que há forma de tornar as medidas reais. Os últimos exemplos de participação pública na administração do carnaval não foram felizes, mas Freixo diz que isso também pode ser diferente.


 – Já estou acostumado a sofrer rejeição, mas o Poder Público será Poder Público. Acho que o diálogo sempre tem que estar presente em qualquer decisão. Volto a dizer: não é autoritarismo, apenas o Poder Público fazendo a sua função, o seu papel. As pessoas desconfiam porque já têm trauma da atuação do Poder Público em outras áreas da sociedade, mas porque sempre tem que ser assim? Podemos mudar.

 

Confira abaixo algumas declarações de Marcelo Freixo sobre cada ponto do projeto piloto apresentado.
 

Criação da Subsecretaria de Cultura Especial do Carnaval – A Subsecretaria vai assumir a organização do Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, considerado o grande espetáculo do planeta. Serão privilegiados os valores culturais, o julgamento coerente e a correta gestão dos recursos públicos destinados às agremiações.


– O Poder Público voltará a ter aquilo que não deveria ter perdido, a gerência sobre o carnaval. Não será o Poder Público que dirá o que será feito com a Liesa. Não haverá ingerência nessa questão, a autonomia das escolas continua e a Liga será uma entidade que representará as escolas, ponto. A escolha dos jurados, a venda dos ingressos, a administração do Sambódromo e do carnaval serão de responsabilidade do Poder Público.


Subvenção condicionada à relevância cultural dos enredos – Caso uma agremiação opte por retratar uma marca, não deverá receber verba pública. Esta proposta não se trata, de forma alguma, de uma tentativa de dirigismo temático. É apenas a busca pela gestão criteriosa de recursos para que as escolas não se tornem canais de propaganda.


– Essa é uma questão polêmica. Sei que vai ter muito debate e eu quero é isso mesmo. Já disse que esse documento não é definitivo. O ano de 2013 é a prova disso. Dá pra montar num Mangalarga Marchador e ir até a Ilha de Caras. Dá para marcar uma passagem para a Coreia do Sul e ir ao Rock in Rio. As escolas não podem receber dinheiro público e não transferir essa quantia em bens culturais para a sociedade. Mais uma vez eu falo: ‘’Isso não é autoritarismo’’. A escola que quiser falar de uma marca pode falar, mas verba pública para isso não vai receber.


Apoio às agremiações dos grupos de acesso – Mais recursos e estrutura para a realização dos desfiles dos grupos de acesso, que acontecem na Estrada Intendente Magalhães, no bairro do Campinho.


Apoio a todas as instituições carnavalescas – Política que vise ao fomento e à distribuição geográfica de blocos, cordões e quaisquer instituições carnavalescas por toda a cidade, possibilitando a ocupação democrática do espaço público. Importante salientar: escolas de samba não podem ser rebaixadas à condição de blocos, e estes não podem se tornar escolas de samba, por ação de órgãos controladores. Suas naturezas são distintas e possíveis mudanças estruturais devem ser frutos de decisões internas ou comunitárias.

– Tomei conhecimento que algumas escolas tradicionalíssimas e relevantes correm o risco de serem forçadas a virar bloco. Isso é um absurdo. Não é o Poder Público que vai dizer se uma escola deve ou não virar bloco, se um bloco deve ou não virar escola. Isso sim é autoritarismo. As entidades carnavalescas são livres para se expressarem da melhor forma que considerarem. Temos que colocar mais dinheiro onde se precisa de mais dinheiro. As escolas do Grupo de Acesso estão abandonadas.


Preservação das entidades foliãs e seus espaços comunitários – O poder público precisa garantir a preservação de grandes agremiações, responsáveis por históricos desfiles e sambas, mas que perderam a força com o passar dos anos. Também é necessário pesquisar, identificar e preservar os perímetros culturais no entorno dos berços das escolas, a fim de que seja a face material, geográfica e sentimental do samba como Patrimônio Imaterial do Rio do Janeiro.


Retorno do projeto original do sambódromo – O fim das frisas (ou, pelo menos, de um lado delas), transformando-as, como no projeto original, em uma grande “geral”, com preços populares. A ideia é combater a frieza dos desfiles e reaproximar o carioca do espetáculo.

– Essa é outra questão que sei que vai dar polêmica, mas o carnaval não pode tomar esse rumo elitista e excludente que está tomando. Quero retomar o projeto inicial do Sambódromo. Pelo menos um lado das frisas, queremos transformar numa espécie de geral. Essa seria a forma de incluir no carnaval pessoas que querem, mas devido aos altos preços não podem comprar os ingressos. Não há nem meia-entrada no Sambódromo. Acho que é o único evento no Rio que não oferece esse serviço. Do jeito que está o carnaval toma o mesmo rumo do futebol. Hoje, a geral do Maracanã é o pay per view do barzinho.


Concorrência da transmissão televisiva – O fim da exclusividade na transmissão televisiva condicionaria diferentes formas de narração, aumentando as possibilidades de apresentação do espetáculo para o público de casa. Como resultado, o aumento do conteúdo jornalístico disponível aos espectadores e uma saudável disputa pelo melhor “olhar” sobre a festa.


TV Educativa e carnaval – Em caso de quebra do monopólio televisivo, em um novo contrato discutido pelo poder público, que haja uma cláusula que permita às Tevês Educativas a transmissão sem a necessidade de pagar pelos direitos.


– Acho perfeitamente possível a adoção dessas medidas. Todo monopólio é prejudicial. Nada pode ser mostrado somente através de uma abordagem. Tenho certeza que as Tv´s educativas mostrariam o carnaval de uma maneira não só comercial. Há espaço para os dois tipos de transmissão.

 

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