Gestão do carnaval em debate na primeira noite do seminário

Na segunda mesa de debates do ?I Semin?rio Pensando o Carnaval?, que acontece at? s?bado no audit?rio da Facha, em Botafogo, esteve em pauta algo que ? respons?vel direto pelo sucesso atual das escolas de samba: a gest?o administrativa. Presentes, os jovens presidentes D?o Pessoa, da Acad?micos da Rocinha, e Gusttavo Clar?o, da Unidos do Viradouro. Al?m da dupla de gestores, Gustavo Melo, integrante do departamento cultural do Salgueiro, e Tavinho Novelo, diretor de carnaval da Grande Rio, completaram o time. Na media??o, o jornalista Alberto Jo?o, editor do site CARNAVALESCO, e o jornalista Bruno Filippo, colunista do site O Dia na Folia e coordenador do Instituto do Carnaval da Facha.
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Contando com bom p?blico, o bate-papo seguiu a tend?ncia proposta pelos organizadores do evento: captar ideias que possam ajudar as escolas de samba e o carnaval de maneira geral. Gusttavo Clar?o, que ? m?dico por forma??o, mas que nunca exerceu a profiss?o, confessou que n?o passou por nenhum tipo de prepara??o para assumir a Unidos do Viradouro, que havia acabado de ser rebaixada para o Grupo de Acesso A. Ele disse que est? aprendendo o of?cio e afirmou ser um saudosista.

– Tenho grande paix?o pelo carnaval. Me emociono quando vejo as pessoas falando bem da Viradouro. Acho que estamos no caminho certo. N?o tive tempo de me preparar. O cavalo passou e eu montei nele andando. Fa?o o que meu cora??o manda -? disse o compositor, que j? venceu oito sambas na Viradouro.

Com rela??o ao car?ter que o carnaval vem ganhando nos ?ltimos anos, onde se valoriza mais o conceito pl?stico de um desfile, em detrimento aos quesitos de ch?o: harmonia, evolu??o, samba-enredo, bateria e etc, o presidente da Viradouro deixou claro que ? um saudosista e que transmite essa caracter?stica para a sua administra??o. Gusttavo lembrou tamb?m a renova??o que vem promovendo nos segmentos da Vermelho e Branco, citando o mestre de bateria Pablo e a efetiva??o do quarteto de int?rpretes.

J? D?o Pessoa, que tem praticamente o mesmo tempo que Gusttavo ? frente de sua Rocinha, disse n?o ter nenhuma refer?ncia administrativa para conduzir a agremia??o de S?o Conrado. Filho de nordestinos, D?o apontou o pr?prio pai como maior refer?ncia e lembrou que cada agremia??o tem suas pr?prias caracter?sticas. Na opini?o dele, isso deve ser considerado na hora de administrar.

– N?o d? pra pegar um modelo de outra escola e trazer pra dentro da Rocinha. Temos as nossas pr?prias caracter?sticas. N?o tenho nenhuma refer?ncia, apenas meu pai, que era um l?der comunit?rio dentro da Rocinha. O presidente de uma escola de samba precisa ter essa lideran?a forte.

Escalado para a mesa pela experi?ncia e longo curr?culo de servi?os prestados no departamento cultural do Acad?micos do Salgueiro, Gustavo Melo explicou como ? a rela??o e o trabalho do grupo salgueirense com a diretoria e o carnavalesco Renato Lage.

– Come?amos fazendo um trabalho de resgate em documentos hist?ricos da escola. Quer?amos mostrar o carnaval de uma forma que n?s, amantes da escola, gostar?amos. Contamos com todo o respaldo da diretoria desde a gest?o anterior e, hoje, muito mais. Um departamento cultural ajuda no fortalecimento da marca da agremia??o e at? na capta??o de patroc?nio, algo que ? desejado pelas escolas hoje. O papel do Renato tamb?m fundamental. Ele trabalha junto conosco e nos prestigia bastante.

Outro debatedor, o diretor de carnaval da Grande Rio, Tavinho Novelo, parte integrante da pot?ncia administrativa que ? a Tricolor de Caxias, trouxe a experi?ncia acumulada de anos na fun??o n?o s? na agremia??o, mas tamb?m em outras escolas. Ele defendeu a escola das acusa??es de que o lado financeiro seria o fator principal da estrutura da Grande Rio.

– Na Grande Rio n?s trabalhamos com um ano de anteced?ncia. Em 2012, n?o teremos patroc?nio, mas j? estamos viabilizando os recursos para fazer um carnaval de alto n?vel. N?s n?o pensamos s? no lado financeiro, pensamos no cultural tamb?m, mas existe uma folha salarial para ser cumprida. Os funcion?rios da Grande Rio recebem rigorosamente em dia, al?m de todos os direitos trabalhistas.

Buscando novas alternativas de capta??o de recursos para as escolas de samba, Bruno Filippo pediu o desenvolvimento ou a cria??o dos departamentos de marketing das agremia??es. Para corroborar a tese, Gustavo Melo deu exemplos da NBA, liga de basquete norte-americana, que, nos anos 90, viu sua arrecada??o crescer astronomicamente com a??es de marketing. O esporte passou a ser o segundo mais praticado no planeta ap?s o investimento. A comiss?o de frente da Unidos da Tijuca, que faz shows pelo Brasil tamb?m foi lembrada como um exemplo bem sucedido.

Para que uma escola se torne atrativa para os investidores ? fundamental ter uma quadra minimamente movimentada e rent?vel. No Grupo de Acesso A, sabe-se que a situa??o ? mais dif?cil, foi o que lembrou D?o Pessoa.

– ? dif?cil movimentar a quadra quando n?o se est? no Grupo Especial. Quando est?vamos l?, os nossos ensaios ficavam lotados. Agora isso n?o acontece mais. Posso at? dar o exemplo da Renascer, que subiu e em duas feijoadas recebeu um ?timo p?blico. Fazer grandes shows pode ser uma sa?da, mas ? preciso capital para isso. O resultado do carnaval tamb?m atrapalha. Em 2011, fiquei em nono lugar. Isso repercute de maneira negativa no ?mbito social e empresarial ? afirmou o comandante da Rocinha.

J? o caso de Gusttavo ? diferente. Ele n?o reclamou da freq??ncia de p?blico na quadra da Viradouro, mas lembrou que o passado recente da escola deixou ??mal acostumado?? o componente.

– Eu brinco dizendo que a comunidade ficou mal acostumada pelo Monassa. ? a ??Cultura do 0800??. No carnaval passado eu doei todas as roupas para a comunidade. Al?m disso, n?o posso cobrar caro pela cerveja e pela entrada na quadra. Quanto ? freq??ncia, n?o posso reclamar de nada. A quadra da Viradouro fica muito bem localizada. Pego gente de duas cidades ? Niter?i e S?o Gon?alo ? mas achar que vou ganhar dinheiro na quadra ? ilus?o ? disse ele.

Perguntado sobre o que acha do modelo atual das disputas de samba-enredo, Gusttavo Clar?o mostrou-se chateado, mas revelou que ser? dif?cil uma mudan?a no cen?rio. Com o respaldo de quem conhece do que est? falando, o dirigente disse o que faz para frear certos v?cios das disputas contempor?neas.

– Esse neg?cio de torcida e bandeira n?o me influencia. Escolho o samba pela emo??o que ele transmite e pela qualidade da obra. Apesar disso, n?o d? para o cara colocar qualquer um pra cantar o samba dele no dia disputa. Tem que levar algu?m bom, n?o tem jeito, hoje ? assim. Gostaria muito que fosse como antigamente, mas os tempos mudaram. Hoje compositor de samba-enredo gasta mais do que ganha.

Outro tema recorrente ? ?ltima d?cada, os ensaios t?cnicos, tamb?m entrou na pauta. Tavinho Novelo pediu aos ?rg?os de imprensa que tenham mais cuidado ao avaliar as escolas de samba em seus treinos na Sapuca?. Ele afirma que j? se criou uma competi??o paralela.

– ?s vezes tenho a impress?o que n?o posso levar a minha escola para ensaiar. J? tomei muita porrada por erros em ensaios t?cnicos. Estou ali para acertar os erros, poxa! N?o vou para o ensaio para ficar no oba-oba. At? o carro de som que quisemos levar uma vez foi alvo de cr?ticas. Falaram que est?vamos peitando a Liesa, mas n?o era nada disso. Apenas tentamos melhorar algo do nosso ensaio. Eu ensaio com 2.800 pessoas na Grande Rio. ? claro que com aquele som vai atravessar o canto na Avenida.

A transmiss?o dos desfiles tamb?m foi alvo de cr?ticas todos na mesa. Gustavo Melo foi contundente ao apontar as falhas da TV Globo.

– Eu discordo do conceito de show que eles tentam passar. ? preciso uma interven??o maior do jornalismo da emissora. O desfile ? pobre em informa??o. Os profissionais escalados n?o t?m preparo. Falta a presen?a de mais especialistas. Este ano foi uma falta de respeito colocar os comentaristas de costas para a Avenida ? completou.
Pontos que ser?o debatidos e perguntados a todos que participarem do semin?rio foram respondidos por Gusttavo Clar?o, D?o Pessoa e Tavinhop Novelo. As justificativas para as notas dez concedidas ? um deles. O trio foi un?nime ao apontar que n?o h? necessidade de justificar uma nota m?xima. J? a exclus?o dos jurados que recebem orienta??o para julgar e mesmo assim cometem erros crassos tamb?m foi opini?o absoluta.

Com rela??o ao descarte de notas, D?o Pessoa e Gusttavo Clar?o manifestaram vontade de mudan?a no modelo implementado no ?ltimo carnaval. A dupla pediu que a Lesga revise a decis?o de espalhar cinco cabines de jurados ao longo da Marqu?s de Sapuca?. Para eles, quatro cabines ? o n?mero correto. Al?m disso, na opini?o de Gusttavo e D?o todas as notas deveriam valer.

Diretor de carnaval de uma agremia??o do Grupo Especial, Tavinho tem opini?o contr?ria. Ele revelou-se favor?vel ao descarte da maior e da menor nota.

– Esse sistema recupera um erro grave ou qualquer distor??o que possa aparecer no julgamento ? disse Tavinho.

Pr?ximo ao fim do primeiro dia do semin?rio, um desabafo emocionado da grande Lygia Santos, filha do sambista Donga e pesquisadora da cultura brasileira, al?m de jurada permanente do Estandarte de Ouro, mexeu com a maioria dos presentes e chamou aten??o para um poss?vel problema do carnaval contempor?neo. Lygia pediu aos gestores presentes que lutem pela manuten??o da tradi??o do samba, que honrem o esfor?o dos que lutaram pela propaga??o da cultura afro-brasileira e que n?o deixem de trabalhar a base das escolas de samba: as crian?as.

Nesta ter?a-feira tem muito mais. Das 14h ?s 17h, o quesito mestre-sala e porta-bandeira estar? em debate. J? das 18h ?s 21h, feras como La?la, Wagner Ara?jo e Ricardo Fernandes debater?o as particularidades e as novas possibilidades dos quesitos harmonia, evolu??o e conjunto.