Guaiamuns e Nagoas na nossa novela das seis

Uma vez fui convidado para participar da mesa que homenageava Mestre Camisa, do grupo de capoeira Abadá, na Câmara Municipal, onde o mestre receberia a Medalha Pedro Ernesto. Na mesa, entre outros, estava o cônsul alemão no Rio de janeiro. No plenário, dezenas e dezenas de jovens capoeiras de todas as nacionalidades, todos, surpreendentemente para mim, se expressando tranquilamente na língua portuguesa, prova do tanto que cultuavam o jogo-dança tão fascinante que ali representavam.

Antes da cerimônia, enquanto esperávamos na antessala, conversamos sobre… futebol claro, depois que ambos nos identificamos com admiradores de Overath, formidável canhotinha alemão maestro da seleção campeã da Copa de 1974.

Morador da Gávea, ficou absolutamente surpreso quando lhe contei que o morro do Vidigal, bem próximo à sua residência, fora batizado com o nome de um dos personagens centrais, indireto e distante, daquela homenagem que ali vivíamos.

Vidigal é, também, necessária e diretamente personagem destacado daqueles tempos contados na “nossa novela” das seis.

Conto essa historinha aí em cima a propósito dos últimos episódios da “nossa novela”, LADO A LADO, quando nossa heroína Isabel descobre que seu amado Zé Maria era não só um “capoeira” mas um bandido, segundo ela, após encontrar em suas roupas uma navalha e a fita vermelha no chapéu identificadora dos integrante da tão temível malta dos “Guaiamuns”.

Comparando os dois momentos citados, não deixa de surpreender que a trajetória da capoeira, no decurso de um século, chega a ser quase tão significativa quanto a volta por cima que o samba e as escolas deram no mesmo período deixando de ser atividades marginais para se transformarem, ambas, em manifestações culturais do povo brasileiro de grande respeitabilidade internacional.

O que quero dizer é que se algum daqueles jovens capoeiras, discípulos do mestre Camisa, namorasse minha filha, eu ficaria feliz por ser ele um jovem sadio e atlético, reação diametralmente oposta àquela outra de horror manifestada pela personagem Isabel ao identificar Zé Maria como um “selvagem”capoeira.

Na verdade há muitas contradições, dúvidas e imprecisões a respeito dos capoeiras. Ora são heróis de sua gente, abolicionistas, ora são vilões republicanos, ora heróis da pátria como na guerra do Paraguai, de tão triste memória.

Maurício Barros de Castro, da revista “HISTÓRIA VIVA”, narra episódios ainda no século XIX quando grupos de negros se postavam à frente de uma banda de música que desfilava na Lapa, gingando e dando rasteiras, com suas navalhas, ameaçando o público tanto verbal como corporalmente, como faziam habitualmente pelas ruas da cidade. Ora admite que a luta pode ter nascido nos ambientes rurais dos quilombos e senzalas, ora admite ter sido nas cidades portuárias que receberam grandes quantidades de africanos escravizados, principalmente aqui, então capital do Império, onde a luta foi usada pelos escravos de ganho como defesa ao sistema de servidão e também para controle de território.

Esses escravos rebeldes que hostilizavam cidadãos pelas ruas e desafiavam seus senhores eram chamados de capoeiras.

Organizavam-se em maltas, eram tidos como ameaça à ordem pública e foram tenazmente perseguidos. Tinham vida dupla, ora dentro da casa do senhor, ora nas ruas em suas atividades de ganho, principalmente nos chafarizes quando se encontravam e combinavam fugas, ataques tanto no Rio Colonial quanto no Rio Imperial.

Utilizavam bengalas e porretes, sendo a navalha sua arma-símbolo, ainda que a maior destreza e mobilidade fossem demonstradas em rasteiras, cabeçadas, rabos-de-arraia e um imenso repertório de golpes.

As maltas dos “Guaiamuns” e dos “Nagoas” eram as mais assustadoras e ativas gangues que circulavam pelo centro da cidade. Os “Guaiamuns” dominavam a zona portuária e a área central da cidade; os “Nagoas” atuavam em torno do Campo de Santana, Lapa, Catete e Glória.

Os “Nagoas” eram identificados pela cor branca enquanto que os “Guaiamuns” eram identificados pela cor vermelha, tal como aquela fita que circundava o chapéu de Zé Maria, encontrado por Isabel nos escombros do cortiço demolido.

Foi aí que chegou o Vidigal…

Com mão, braço e autoridade total entra em cena o Major Vidigal. A malandragem dos nossos tempos, que tanto se queixava do delegado Chico Palha, aquele que “não prendia, só batia”,pode acreditar que seu comportamento era de uma freira se comparado aos métodos de Vidigal que não só prendia, mas batia muito também. E valia até a chibata.

É este mesmo Vidigal que deu nome ao morro da Gávea, vizinho à residência do nosso cônsul alemão, morro que recebeu de presente por serviços prestados. É este Vidigal que virou personagem do romance-folhetim “Memórias de um Sargento de Milícias” de Manoel Antonio de Almeida e do samba-lençol da Portela, campeão de 1966, filho único de pai solteiro de sambas enredo que é Paulinho da Viola.

Mas nem isto deu conta da capoeiragem que, afinal, derrotava as autoridades policiais do Império.

E não eram só as cores branca de uma e vermelha de outra que distinguiam as maltas. No jogo político eleitoral, valorizadas pelos candidatos, as maltas passaram a ser usadas por correntes políticas igualmente opostas: Guaiamus protegiam e cabalavam votos para os liberais enquanto Nagoas contemplavam da mesma forma os conservadores. Eram os tempos do voto não secreto e os eleitores eram muitas vezes obrigados a votar com a presença de um capoeira em seu cangote, em suas comunidades, em meio às famosas arruaças eleitorais promovidas pelas maltas, ora uma, ora outra.

Nada, portanto, como um mergulho no tempo para perceber o quanto era, e é, tão difícil aquilatar o quanto, no comportamento dos capoeiras, havia de autodefesa, como a primeira proteção dada no carnaval à Isabel e a reação à demolição dos cortiços, e o quanto havia de bandidagem explícita que tanto assustava a mesma Isabel.

Qual era aí a linha divisória? É isto que pretendemos, desta vez, ver contado e observar na “nossa novela”, mesmo sabendo que tempos depois tal envolvimento eleitoral, conhecido como capangagem, tenha tirado muito ou todo o caráter legítimo dos lutadores ao tempo em que viraram massa de manobra de políticos menores.

Se era o passo sem volta em direção oposta a essa discutida legitimidade, era também a porta aberta para utilização dos escravos nos embates em políticas mais abrangentes como a própria abolição. A criação da Guarda Negra representava o repúdio não só à abolição recém proclamada como também repúdio aos ideais republicanos.

E foi, afinal, a República que pôs termo ao prestígio, fama e ao caráter utilitário-eleitoreiro das maltas. Era o código penal de 1890 que tipificava como crime o ato de fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem.

Era a arma letal que dispunha o chefe de polícia Sampaio Ferraz que usava a letra da lei para desterrar os capoeiras para a ilha de Fernando de Noronha, já no governo republicano de Deodoro da Fonseca. O mesmo Sampaio Ferraz que virou nome de rua no largo do Estácio, ali mesmo onde décadas depois reinariam afamados malandros cariocas , sucessores que foram , nas gerações seguintes, dos antigos capoeiras.

Parece até samba da Imperatriz.

Mas aí já é outra história…

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Referência bibliográfica: “Gangues do Rio de Janeiro”. Revista História Viva: Maurício Barros de Castro.

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