Gustavo Melo retorna ao site

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AONDE VAI A BOLA?

 

Entre tantas metáforas nascidas da filosofia do futebol, há uma que diz: “O bom jogador não é aquele que vai aonde a bola foi. Mas o que enxerga aonde a bola vai”. Nesse caso, as lições do esporte bretão caem como uma luva para o carnaval. E fica a pergunta: para onde a bola segue em 2012?

O que fará sucesso? O que inventar para encantar o público? Como acertar o chute potente que vai balançar a rede e fazer a alegria do povo? Afinal, vivemos um momento histórico: será o primeiro carnaval do Sambódromo como um rio de margens abertas. A direção da bola parece indefinida. Por isso, mais do que nunca, está na mão das escolas e dos carnavalescos desenhar essa trajetória.  

Chute a gol

A bola está aí quicando na pequena área. É só chutar e fazer gol. O momento para isso é… AGORA! A definição dos enredos é o pontapé inicial de um jogo de muitos lances, mas que se define nos detalhes. E é bom lembrar: enredo não é só possibilidade visual. Enredo também é discurso. É história e intenção. A criação e a arte mais do que nunca hão de ser julgados e reconhecidos pelo mais legítimo dos julgadores: o público.

Mas o que temos visto ultimamente é um jogo estacionado na zona de conforto. O artista do carnaval precisa desafiar a retranca imposta pelo patrocínio, driblar a descrença em ideias vanguardistas, dar um chapéu na desconfiança presente no pensamento medíocre que muitas vezes reina entre as escolas de samba e… ousar. Se jogar mesmo, sem medo de errar. Até porque entre tantos julgamentos sem critério como os que aconteceram no carnaval 2011, o jogo parece aberto. Para onde a bola irá, ninguém sabe. Se vai balançar a rede, muito menos. Mas o importante é criar jogadas diferentes do esquema tático vigente e botar tempero nesse feijão-com-arroz, sair do zero a zero.

E melhor, enfim, do que correr atrás da bola, será definir a sua própria direção. Isso é o que faz de um carnavalesco um artista popular de fato. Como um artilheiro na arte de criar jogadas de mestre.

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Recanto tão sutil

Muitas vezes a gente cantarola um samba-enredo, assobia uma melodia, viaja na letra, mas pouco se sabe sobre o que ele realmente quer falar. Um exemplo aconteceu comigo em relação ao samba de 1988 da Portela, “Lenda Carioca: Os Sonhos de um Vice-Rei” – um enredo bem confuso, mas cuja trilha musical descreve com maestria e singeleza um dos belos cenários perdidos na paisagem carioca.

É ela, a Fonte dos Amores, recanto tão sutil, destino final da bela alameda do Passeio Público, que fica no Centro do Rio de Janeiro, ali pertinho da Lapa. Lugar bastante disputado até o início do século 20, de onde se avistava o mar da Baía de Guanabara (sim, pasme, o mar ia até ali perto Passeio).

A fonte faz parte de um conjunto formado por dois obeliscos de granito, com um medalhão em pedra lioz, um tipo raro de calcário muito usado em Portugal. Entre as figuras decorativas estão também jacarés esculpidos em bronze. Um belo cenário para tecer os versos de amor que o vice-rei sonhou. E que a Portela cantou numa nublada manhã de uma segunda-feira gorda.

Por isso, ao flanar pelo Passeio Público, pode cantar sem medo: “Valentim / Foi ele sim, sim, que esculpiu / a Fonte dos Amores / Recanto tão Sutil”.

E viva a águia!!

O Couro Vai Comer

Samba de Sambar do Estácio. Eis aí um grande livro. Escrita pelo pesquisador musical e fotógrafo Humberto de Moraes Franceschi, a obra conta com deliciosa minúcia a força e a importância do bairro considerado o berço do samba. Na página 76, o autor reproduz uma entrevista com o Alcebíades Barcellos – o Bide – que descreve como as peças da bateria eram encouradas (aliás, vale ressaltar que o ofício de sapateiro ajudou Bide a manusear o couro como poucos). O trecho do livro também revela de forma quase poética – não fosse a mais pura realidade – um pouco dos fundamentos da percussão das escolas de samba em sua fase embrionária. Veja:


“O que veio a ser chamado de surdo não passava de um tambor feito de lata de manteiga de forma cilíndrica reforçada, interna e externamente, por aros de madeira, onde era esticado e pregado couro de cabrito. Com o uso, perdia o retesamento, sendo necessário aquecê-lo para que voltasse a produzir o som certo. Numa fogueira de jornal no meio da rua, o couro era esquentado até dar o som necessário à batida. A sonoridade grave do surdo possibilitava que a marcação fosse ouvida a distância”.  

Uma aula!

O que é que a baiana tem?

Tem brinco de ouro, tem… Tem pano da costa, tem… Tem bata rendada, tem… tem capacete espacial, tem… Tem peruca de gueixa, tem… Tem tecido de revista, tem… Tem saia inventiva, tem…

Que tal uma seção dedicada a elas, Nossas Senhoras Baianas? Aqui selecionamos cinco belos momentos de uma ala esperada, querida, celebrada, grande paixão do nosso carnaval. Vamos lá?
 

Ousadia espacial

Elas pareciam ter descido de uma nave-mãe direto para avenida, tal o impacto que causaram em quem teve a sorte de ver a Mocidade fazer todo o universo sambar com o seu ziriguidum. Com cabeça de inseto e asas também, o gingado e a brancura prateada faziam as damas de Padre Miguel flutuar na avenida. Olhe bem e diga: é ou não é uma revolução?

Iluminado ao Sol do Novo Mundo

Um mar de tule em amarelo e laranja, num jogo de tons que vai até o azul. Era o Sol do Novo Mundo explodindo em cores em plena a avenida. Um conjunto fabuloso, inesquecível tapete para o belíssimo desfile que Osvaldo Jardim bolou para a Unidos da Tijuca em 1995. Bravo!!

Originalidade: Nota DEZ!!!

Quem não se Comunica, se Trumbica. O enredo de Fernando Pamplona ganhou um baita charme com a Ala da Cidade Alta – sim, a ala de baianas do Império tem nome e sobrenome. E elas estavam pra lá de originais com o figurino criado pelo saudoso carnavalesco Ney Ayan. O desenho até que era tradicional. Mas os materiais… Que tal a bela solução de um “tecido” feito de páginas de revistas cobertas por plástico para dar aquele acabamento? Um show, muito bem premiado pelo júri do Estandarte de Ouro em 1987.

 

Mãe Baiana Gueixa

Poucos carnavalescos têm um esmero tão grande com as baianas quanto Rosa Magalhães. E em 1989, no enredo “Um, Dois, Feijão com Arroz”, ela foi longe demais. Mais precisamente ao Japão buscar inspiração no tradicional teatro Kabuk. Muita gente detestou, muita gente adorou. Mas ninguém pode negar: é preciso saber muito de figurino para comprar uma briga dessas. Valeu a pena! Arigatô, Estácio!!

Fogo do Coração Materno

O vermelho salgueirense se juntou ao dourado, mas abriu espaço também ao manto azul na parte de trás da fantasia para lembrar o Sagrado Coração. Eis aí a mãe de todos nós, a padroeira do Brasil Nossa Senhora Aparecida, que emocionou a avenida numa belíssima criação de Renato e Márcia Lage. Amém!

E você? Qual a sua preferida? Nos próximos posts, mais baianas vão rodopiar por aqui. Aguarde!!

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