Império Serrano: decrifra-me ou te devoro

 

 

Mais uma eleição no Império Serrano, mais uma esperança. Eleições deveriam ser momentos abençoados, significam, ou sugerem, o espírito republicano que as escolas, e nosso próprio país, estão longe de atingir. Espírito que aquela escola assumiu e representou desde sua fundação.

No carnaval ocorre um fenômeno curioso. Enquanto as escolas estão vitoriosas ninguém liga para eleições, ou não faz muita questão. Os patronos acabam elegendo gente de suas confianças e… segue o baile.

Recentemente o carnaval respirou esperanças com as eleições da Portela e da Mangueira. A Portela sai delas fortalecida e vitoriosa, com um carnaval de encher os olhos e, principalmente, uma estruturação nova que lhe garantirá alegrias futuras. Já a Mangueira, menos, mas a esperança continua. Sabemos, ou deveríamos todos saber, que o buraco lá, além de quente, é muito mais embaixo. A Portela tinha um obstáculo a vencer e venceu. A Mangueira tem muitos outros, e os está enfrentando.

Tivemos outras situações e vimos na Vila, no Salgueiro e Mocidade. Situações diferentes, realidades diferentes, resultados diferentes. Esfinges com enigmas diferentes a decifrar. Mas e o Império Serrano? Como identificar os obstáculos do Império Serrano, para quem torcer, em quem acreditar? Até nos deuses do carnaval já se depositou esperanças. Átila era o príncipe da Sapucaí com sua bateria formidável a nos encher de alegrias. Foi pra Vila e deixou Gilmar em seu posto com uma batuta que não devia nada a dele.

Depois, Átila “não foi feliz” na Vila e volta para o Império como Presidente. Átila, o príncipe, voltava como liderança maior de uma escola cuja bateria não precisava mais dele. Tudo parecia obra dos deuses, mas não foi. O Império teve avanços, mas insuficientes. Pior: visto aqui de fora, Átila não conseguiu diminuir a enorme pressão daquela panela quente que consegue a proeza de tirar do páreo uma das escolas de samba mais vigorosas de corpo e alma de toda a história do carnaval.

A pergunta, para quem está aqui de fora, é se o problema é do Átila, de qualquer outro presidente, ou se é daquele caldeirão político da escola? Pode até não ser verdade, mas o que se diz ali fora, nas biroscas daquele larguinho em Madureira, é que o imperiano gosta mais de política que de carnaval. Pode até não ser
verdade, repito, mas será que é mentira?

Voltando às comparações, a Mangueira optou por uma solução vitoriosa de passado recente que a havia levado a reviver grandes momentos. A Portela se articulou em torno de novas lideranças, conquistou jovens influências, se fortaleceu nas suas tradições e foi à mídia buscar forças para derrotar seu principal, ou único, adversário.

E o Império? Quais e quantos inimigos tem? Será que uma eleição, independente de quem venha a vencer, tem força para fazer frente a seus obstáculos? Será que há cabeças ali com distanciamento necessário a encontrar, neutralizar e esfinge a ponto de decifrar seu enigma?

Para quem não lembra, muito distante de Madureira, muito mais distante ainda no tempo, um monstro com cabeça de mulher, corpo de leão, e asas de águia assombrava também um Império, ou um reino. Um mostro nem tão feio assim como os obstáculos que enfrenta o nosso Império de bambas, este aqui perto da gente.

Para vencer as eleições… não, não é isso! Para fazer tal monstro desaparecer só se decifrando o enigma pelos imp.., não, pelos sambistas Tebanos. Enigma que assim se apresentava: “que animal anda com quatro patas pela manhã, dois ao meio dia, três ao entardecer“.

Coroa imperial, ou real, à parte, lá e aqui, quem salvou o Império não foi obrigatoriamente quem ganhou, quem vai ganhar esta ou as próximas eleições, como no Império daqui. Certamente estes continuarão a ter a tarefa de fazer o carnaval e derrotar a esfinge imperiana. Lá, na outra história perdida no tempo dos séculos, o vencedor tinha a coroa na cabeça (a outra, de rei, não a da Serrinha) e nem precisava de eleições, mas tinha que enfrentar o monstro. E sabia que não era com eleições e sim com o poder da compreensão e na real intenção de salvar seu reino (o de lá, não o Império, daqui). Pois o rei de lá decifrou o enigma ao identificar o tal ser como seu próprio semelhante, o próprio homem ao se mover quando criança, engatinhando; como homem, caminhando; e depois bem velhinho de bengala.

Mas isto tudo aí em cima é uma visão de quem está de fora, de quem, sem ser imperiano, tem o Império como parte das melhores lembranças de sua vida. Quem vencer a eleição terá que compreender o enigma próprio da escola, para poder decifrá-lo. A lição do passado é que, lá… a saída para o futuro estava não em usar a força contra o monstro multiforme, mas sim em usar a compreensão para decifrar que o futuro estava na resposta para o enigma, a resposta estava no próprio homem.

Essa a grande lição.

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