Império Serrano mostra a sua cara no ensaio técnico do Sambódromo

Não foi um show, mas o rendimento do Império Serrano na pista do Sambódromo, na noite desta sexta-feira, comprova a proximidade da retomada de uma das maiores potências do carnaval carioca. Destaque positivo para a evolução, o canto satisfatório e o perfeito andamento da sinfônica do samba, como é chamada a bateria imperiana. De negativo, o registro fica com a tímida participação da comissão de frente e o baixo volume do carro de som, que chegou a gerar descompasso entre os cantores e ritmistas. – Eu sempre digo e repito com muito prazer: estou feliz da vida com a homenagem! O meu Império vem forte e acredito que nós vamos ter um bom resultado – falou Dona Ivone Lara.
 

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– O Império provou que é uma escola grande! É emocionante ver a forma que o Império contagia. A escola estava organizada, cantando, tranquila, a bateria foi maravilhosa e temos um grande samba. Estamos fazendo um trabalho transparente para mostrar ao imperiano que a mudança está realmente acontecendo. Toda mudança é passível de crítica. A minha equipe é jovem, então em alguns momentos a gente se excede em comandos, decisões, mas a visão é essa: fazer parcerias com grandes empresas. Eu vou convidar vocês para irem lá e acompanhar os trabalhos. O que eu posso adiantar é que o público vai ver um novo Império, com carros diferenciados e uma nova forma de desfilar. A escola vem grandiosa e imponente. O meu pai me ensinou que o Império é a escola do luxo, da elegância. Então, mesmo no Acesso, o Império tem a obrigação de passar luxuoso – explicou o presidente do Império Serrano, Átila Gomes.

Logo no início da escola, uma cena cativaria qualquer ser humano presente no Sambódromo. A grande homenageada, Dona Ivone Lara, sentada em uma cadeira de rodas, mostrava as limitações físicas impostas pela idade, mas o largo sorriso e o semblante sereno, traços de sua personalidade, não saíram de sua face durante sequer um segundo de sua passagem pela Marquês de Sapucaí. O público, bem longe de lotar todas as arquibancadas, saudou a Dama do Samba e estendeu o tapete vermelho para o Império passar. A escola de Madureira encontrou alguns problemas com o som ainda em seu esquenta. Excessivamente grave e num volume baixo, o som voltaria a atrapalhar o trabalho da Verde e Branco minutos depois. Vale lembrar que os carros de som usados nos ensaios de Império e União da Ilha são diferentes.
 
A comissão de frente, que tem como coreógrafo Carlinhos de Jesus – ausente em razão de motivos pessoais – foi o ponto fraco do ensaio. Com palminhas e passinhos para o lado, o grupo destoou na boa abertura de ensaio da escola. Somente nas duas últimas cabines foi possível perceber algo diferente na coreografia. Os componentes também não mostraram muita intimidade com o samba da escola. – A comissão é formada por quinze dançarinhos profissionais (homens e mulheres) que pertencem a companhia do Carlinhos de Jesus. Estão inseridos no primeiro setor, porém representarão algo diferente de África (quase África, sem ser África, segundo ele). Coloca aí que vamos falar da "baianisse dela". A ideia da coreográfia é algo que o Carlinhos já possuia guardado em mente há um bom tempo e que se encaixou perfeitamente no enredo do Império Serrano, apesar disso, os ensaios só começaram em meados de dezembro, o que de certa forma atrasou a preparação do grupo. – disse Rodrigo Barros, diretor artístico de Carlinhos de Jesus.
 
Já o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Alex Marcelino e Raphaela Caboclo, que ainda não sabe o que vai representar a fantasia e nem fez nenhuma prova da roupa, mostrou o porquê de a diretoria apostar neles. Muito bem vestido, o casal apresentou uma coreografia leve e elegante, alinhada à tradição da dança do segmento. A simpatia também esteve presente na passagem dos dois pelo Sambódromo, que pareceram não se incomodar com o excesso de terra, proveniente da obra, na pista. – Estamos ensaiando de domingo a domingo, a partir das 17 horas, sem hora certa pra acabar, no Clube Democráticos, e aqui na Marquês de Sapucaí. Temos o auxílio de um coreógrafo e além dos ensaios exaustivos, pratico musculação e exercícios aeróbicos para fortalecer. No dia do desfile, o ritual é único, apenas agradecimentos, contatos espirituais e muito repouso para relaxar – disse a porta-bandeira. O mestre-sala ressaltou a dificuldade do "novo" Sambódromo. – O mais importante nesse momento é o reconhecimento do novo "chão". Percebemos que a reforma atrapalhou o nosso trabalho, pois o vento da Sapucaí aumentou, sem o paredão do lado esquerdo para balancear.

 
Para simular o espaço físico das cinco alegorias que o Império apresentará em seu desfile, banners com a logo do enredo foram levados, o que acabou possibilitando uma evolução ainda melhor à escola. Não houve correria tão pouco marasmo na passagem da agremiação. Tanto a saída da bateria do primeiro recuo, quanto a entrada e saída da mesma do segundo box foram realizadas de maneira perfeita. Ficou claro o crescimento do Império nesse aspecto, já que nos ensaios técnicos dos últimos anos, a evolução era o calcanhar de Aquiles da agremiação.

 
Com relação ao canto, a escola da Serrinha pode melhorar. Foi satisfatório, mas não foi raro ver componentes sem cantar a bela obra, principalmente em sua primeira parte. Já os refrãos, principalmente o da cabeça do samba, são cantados a plenos pulmões e tiveram boa resposta do público presente. Destaque para a primeira ala da escola, repleta de belas negras, que cantaram muito o samba. A primeira ala atrás do carro de som e ala 16 também se notabilizaram pelo canto forte.
 
A interpretação de Tiãozinho Cruz, alvo de preocupação de muitos imperianos, foi muito boa. De forma aguerrida, o experiente intérprete cantou com competência o samba que tem como um dos autores Arlindo Neto, um dos integrantes do carro de som da escola. Alex Ribeiro, filho de Roberto Ribeiro também integra o time, assim como Freddy Vianna, recém-contratado pela agremiação da Serrinha. Freddy, em razão de um engarrafamento na Avenida Brasil, só conseguiu chegar ao ensaio quando a bateria já estava em frente ao setor 7. O episódio, somado à precária qualidade do som disponibilizado, impossibilitou a avaliação do entrosamento entre Freddy, Tiãozinho e os demais cantores. – Eu peguei um engarrafamento na Avenida Brasil, demorei duas horas além do previsto. Saí de São Paulo ao meio-dia, com a previsão de chegar no Rio às 18 horas, mas, infelizmente, cheguei no meio do ensaio do Império. É triste porque não dá tempo de arrumar microfone com o desfile rolando, mas o que importa é que deu para colaborar com o Tiãozinho Cruz e a rapaziada do carro de som que já vem fazendo um grande trabalho – contou Freddy Vianna.
 
A bateria Sinfônica do Samba dava seu show particular até cair na armadilha do som um pouco antes da apresentação em frente ao primeiro módulo de julgadores. No momento de uma bossa, alguns versos antes do refrão do meio, houve um ligeiro descompasso entre a bateria e o carro de som. O problema não demorou a ser contornado e os ritmistas da Verde e Branco não sentiram o golpe. Continuaram mostrando o andamento perfeito e, mestre Gilmar foi ousado, ao repetir diversas vezes as bossas idealizadas. Destaque para os surdos de terceira, que mostraram desenho rítmico perfeitamente coerente à melodia do samba.
 

– Trouxemos 250 ritmistas, o mesmo número do desfile oficial. Percebi que atravessamos o canto algumas vezes antes da primeira cabine, mas confesso que fiquei "perdido" nessa nova Sapucaí e o carro de som estava baixo, o que atrapalhou, ressaltando que os cantores não são culpados pelo ocorrido e sim o volume do som. A importância foi reconhecimento do "campo", tanto pra mim, quanto para os meus diretores e ritmistas. Pretendo voltar aqui nos ensaios das outras escolas, para estudar melhor essa nova Marquês. É tudo muito novo, muito diferente. A acústica é outra – afirmou Gilmar. Segundo o mestre de bateria do Império Serrano, os ritmistas vão representar pessoas que faziam parte dos shows de Dona Ivone Lara. Ele contou também sobre as paradinhas e coreografias da bateria. – Hoje executamos três paradinhas, que vamos trazer para o desfile, mas no dia serão cinco ao todo. Estamos ensaiando intensamente para isso. As ideias das coreografias partem dos próprios ritmistas, o que a gente gosta entra, não é nada muito combinado. Ano passado deixei de fazer bossa coreografada, porque não pude trazer tudo que queria, pois me faltou confiança, mas esse ano vai ser diferente.
 
O samba, um dos melhores do Grupo de Acesso A, rendeu maravilhosamente bem e o sorriso largo do presidente Átila Gomes, que passeava entre as alas, assim como a empolgação do carnavalesco Mauro Quintaes, reforçam a confiança imperiana no retorno triunfal aos dias de glória. O ensaio deixou a certeza que, depois de muito tempo, o Império tem um trabalho voltado para a recuperação de seu status no carnaval.
 
O Império Serrano será a oitava escola a desfilar no sábado de carnaval, com enredo sobre Dona Ivone Lara, desenvolvido pelo carnavalesco Mauro Quintaes.

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