Integrante da comissão de frente do desfile de Kizomba, Décio Bastos completa 10 anos na harmonia da Vila

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Um dos rostos mais conhecidos e carismáticos quando se trata da Unidos de Vila Isabel é o de Décio Bastos. O diretor, que está na Vila há 30 anos, presenciou os altos e baixos da escola. Os momentos mais tristes e também os mais felizes. Nos últimos anos, Décio divide seu tempo entre direção de geral de harmonia e direção de carnaval, ao lado de Junior Schall. Em meio a correria da rotina do barracão da azul e branco, reservou seu tempo para contar sua história.

– Quando mencionamos 10 anos, estamos tratando do Décio Bastos à frente da harmonia. Na realidade, estou há 30 anos na Unidos de Vila Isabel. Estou aqui desde 86 para 87, inclusive, fortaleci o time da comissão de frente do histórico Kizomba. Ao longo do caminho fui em outras escolas e voltei, até que 2005 para o carnaval 2006, entrei para harmonia da escola. Esses 10 anos parecem uma eternidade. É uma honra ter participado de todos os títulos da Vila de forma eficaz. Não só os do Acesso, mas também em Kizomba na comissão de frente, e os outros dois que foram bem efetivos. Ao longo desse tempo posso resumir que tivemos muito tiro, porrada, bomba, amor, carinho e turbulência. Quando trabalhamos com dedicação, carinho e afinco, ainda mais na função que tenho, preciso por diversas vezes ter que dizer não. Esse é o problema, quando digo “não”, deixo de ser o amigo e viro o marrento, o grosso, o mal educado. Todas as vezes que tive que dizer, fiz com carinho e muito respeito as pessoas. Nem tudo podemos dizer sim. Criei grandes amigos aqui, grandes parceiros e devo ter provavelmente criado alguns desafetos no meio do caminho, mas tudo em prol do melhor para a instituição que eu represento e tanto amo. A instituição que me fez acreditar que é possível ser vencedor no carnaval sem pisar em ninguém, e mais do que nunca, que é possível fazer harmonia em harmonia. Isso é muito importante. Sempre tentei colocar no grupo de comandados que precisamos tratar bem o componente, respeitar nosso pavilhão, respeitar as orientações emanadas pela nossa diretoria, mesmo que as vezes possamos não concordar. Como sou um homem de equipe, sempre vou respeitar as orientações do meu presidente e sua diretoria. Embora hoje, trabalhamos muito juntos e procuramos tomar todas as atitudes juntos para que a Vila percorra um melhor caminho.

Apesar da história vitoriosa da escola, a Vila também passou por momentos complicados. E Décio também participou deles. Quando a escola estava no Acesso, o afinco e empenho foram os mesmos para que voltassem ao Especial o mais rápido possível.

– Estive junto também nos insucessos. É uma luta grande e árdua. O que posso dizer pra minha comunidade é que tudo que fiz foi para engrandecer meu pavilhão. As pessoas passam, mas a instituição Vila Isabel é mais forte que tudo. Por mais que a gente discorde de uma ou outra ação, de um ou outro membro, tudo é feito com muito carinho e planejamento para que de certo. Para que a Vila esteja no lugar mais alto do pódio. As vezes não conseguimos. Mas só o fato de ter a certeza de que alguns carnavais ganhamos mas não levamos, e em outros não ganhamos, deixamos a impressão e a certeza do nosso máximo. Se o campeonato não veio, é uma pena – desabafou.

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Ele também acrescenta que participar da Vila é motivo de orgulho, tendo em vista que a escola é uma das poucas que fazem questão de sempre reafirmar seu posicionamento político, religioso e étnico na Marquês de Sapucaí.

– Nos enredos da Vila sempre é possível ver um lado social muito forte. Entendo que somos uma das poucas escolas que tem mantido a função de escola de samba. Função de educar, ensinar e etc. Eu, enquanto diretor, passo para os meus comandados sobre parceria, união, responsabilidade em todos os campos. Isso é um grande barato. Lá em 1988, quando ganhamos em Kizomba, o ponto alto do enredo era o respeito do negro pelo negro. Hoje, 2017, ano que relembramos Kizomba, Martinho e sua gama de conhecimento, da luta pela posição social do negro, é mais importante ainda essa reafirmação. O nosso tema mais do que nunca fala do negro, das matrizes africanas que o negro trouxe e soltou pelas Américas. E ainda por cima, 100% autoral, feito pelo Alex de Souza que não é negro. Cabe a nós, brasileiros e frutos dessa miscigenação, levar a bandeira com maior empenho e tesão possível. Sem a força do negro, tanto trabalho seja na arte, cultura, política, educação, não teríamos essa “bagunça” que chamamos de miscigenação e não teríamos hoje o genuíno povo brasileiro. O que a Vila faz hoje é mostrar uma grande parcela de quem iniciou essa história. Mesmo que seja com lamento, com dor, porrada, açoite, ainda encontraram força para cantar, dançar, lutar pela sua cultura. Lutando sempre pela sobrevivência. A Vila hoje, mais do que nunca, precisa louvar os negros e suas matrizes. Por isso cantamos “O som da cor”, cor essa que o negro miscigenado com os demais nos deu essa maravilha que hoje representamos: o samba. E podemos mandar de volta em forma de agradecimento para o mundo inteiro – ressaltou emocionado.

Não é segredo para ninguém que o oitavo lugar conquistado pela Vila em 2016 não agradou a escola e seus torcedores. Porém, Décio reafirma que a comunidade entendeu que o trabalho foi feito em meio as dificuldades e o resultado não é só o que se vê na avenida.

– No último anos ficamos numa posição muito ingrata, mas fomos abraçados pela comunidade, que entendeu nosso trabalho e luta. Isso é extremamente gratificante, poder olhar para o meu grupo, minha comunidade e diretoria e poder dizer que fiz o máximo e não poupei uma gota de suor. Não deixei de dormir uma noite no barracão para que acontecesse o sucesso. Não deixamos de entregar uma fantasia ao componente para que não tivéssemos problemas. Ter a cabeça erguida e poder olhar o lho no olho, dizer que fiz o que podia pela minha Vila Isabel é o máximo. Graças aos deuses estamos sendo reconhecidos, isso é muito importante e não tem preço.

Até quem não é torcedor da Vila tem consciência do quão grandioso foi o desfile de 1988. E para Décio, apaixonado pela escola, é o mais grandioso dos três campeonatos conquistados.

– Kizomba é imbatível, em tudo e por tudo. Ele é tão imbatível, tão mágico, tão inexplicável e místico que não teve outro. Lembro que um dos primeiros comentários que vi logo depois do desfile foi. “Quem viu, viu. Quem não viu, não vai ver. E é verdade. Pouco tempo atrás assisti o desfile novamente, relembrei dele como se fosse no dia. Soy loco por ti América foi bacana, ganhamos no susto porque ninguém esperava. O homem do campo foi um belo campeonato, trabalhamos demais, repleto de emoção. Mas nenhum deles foi da maneira de Kizomba. Realmente é mágico e indescritível. Eu não tenho palavras. Se você conversar com quem estava lá, cada um vai te dizer que não sabe o que falar. Se tivesse desfile das campeãs naquele ano talvez nós não tivéssemos carro, fantasias e nem pessoas para desfilar. No entanto o desfile é épico. Só tínhamos 2 posições para aquele ano: primeiro ou último. Ou ganhava, ou descia. Os deuses e astros conspiraram. Esse é o título do coração, quem não teve 88 pode ter agora em 2017 – finalizou.

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