Intérpretes trabalham forte e lucram nas eliminatórias de samba

Fios condutores das obras nas eliminatórias de samba-enredo das escolas de samba, os intérpretes ganharam grande importância no atual cenário. Seja pela interpretação qualificada, que é dada por eles aos sambas, ou pela grife de ser cantor de uma agremiação do Grupo Especial, os compositores cada vez mais apostam em quem está em evidência. O site CARNAVALESCO conversou com três deles. Zé Paulo, um dos três tenores da Mangueira. Nêgo, atualmente na Vila Maria. E Luizinho Andanças, que após o bom trabalho feito no Porto da Pedra, defenderá as cores da Mocidade em 2012. Eles falaram sobre as peculiaridades da atual fase. Apesar de chegar a defender até seis sambas simultâneamente, Nêgo diz que não tem dificuldades para memorizar as letras e melodias que precisa interpretar. Ele aproveita as aulas de canto para se familiarizar com as obras.
 
– Tem um rapaz que é cavaquinista, mora perto da minha casa e me acompanha nas aulas de canto que faço diariamente. É algo rotineiro. Faço os exercícios passados pela professora e reservo quinze minutos da aula para exercitar os sambas que defendo. Procuro decorar bem a letra. A melodia é algo que quem já está acostumado a cantar pega com mais facilidade. Aproveito também a presença da minha professora para acertar as passagens de maior para menor – revela Nêgo, que este ano defende samba na Beija-Flor, Renascer, Imperatriz, Grande Rio e Mangueira.
 
Quem também não vê muita dificuldade para memorizar os sambas é o interprete mangueirense Zé Paulo. Ele confessa, porém, que hoje defende menos sambas do que em outras épocas.
 
– Agora está mais tranquilo. Canto menos sambas para não ficar pesado. Não posso me atrapalhar e faltar com a palavra com os compositores e com a Mangueira. Atualmente defendo um samba por dia, assim é melhor, não tem correria – disse Zé Paulo, que conta ter o costume de chegar cedo ao estúdio no dia da gravação para se familiarizar com a obra que vai cantar. Apesar disso, ele lembra que o ideal é conhecer o samba pelo menos dois dias antes de gravá-lo.
 
De acordo com Luizinho Andanças, alguns sambas, para serem bem interpretados, requerem um conhecimento prévio. O intérprete da Mocidade admite que já aprendeu muitos sambas na hora da gravação, mas complementa.
 
– Eu peço que me entreguem a letra com o áudio no mínimo de três dias antes da gravação. Muitas vezes você pega o samba até na hora, mas alguns são pesados, mais melodiosos, esses precisam de uma adaptação maior. Graças a Deus tenho facilidade para aprender rápido e nunca tive problemas quanto a isso.
 
Luizinho, assim como Zé Paulo e Nêgo, defenderá samba em cinco escolas no Rio de Janeiro. Já em São Paulo, ele afirma que recebe alguns convites principalmente para gravar, mas prefere não assumir compromissos na Terra da Garoa em razão da agenda apertada no Rio de Janeiro. Já Nêgo, firmou contrato com a Vila Maria com previsão de chegada a escola paulista somente em outubro, justamente para não ter atrapalhá-lo nas disputas. Luizinho lembrou também o aspecto financeiro desta época.
 
– Nunca tive problema com as diretorias das escolas em que eu trabalhei. As pessoas sabem que ganhamos uma graninha extra nas disputas. Com a Mocidade já existe uma conversa, além de a mudança nos horários dos ensaios de sábado me beneficiar. Assim vou poder atender a Mocidade e as parcerias que eu defender.
 
O problema da coincidência de datas é algo que Zé Paulo já deixa bem claro a quem quiser contratá-lo para defender um samba. A Verde e Rosa é prioridade.
 
– A Mangueira sempre é prioridade. Se me chamarem para defender samba no sábado, essa parceria já sabe que não poderá contar com o Zé Paulo durante dois ou três finais de semana. Até porque a escola exige que cantemos as obras em disputa a partir de um determinado momento – lembra o ex-cantor de Caprichosos e Arranco.
 
Veterano no assunto e com o respaldo de muitas conquistas nas disputas, Nêgo, que venceu pela primeira vez em 1981, ao lado de Neguinho na Beija-Flor, fez coro com os outros dois colegas ao revelar nunca ter tido problema com nenhum compositor insatisfeito com a sua performance em cima do palco.
 
– Acho que os caras não tem o que falar não. Estou acostumado a defender sambas e nos últimos anos venho ganhando frequentemente. Só no ano passado ganhei em seis escolas. Espero continuar ganhando e fazendo um bom trabalho quando requisitado – disse o bem humorado Nêgo.