Irmãos e rivais

Voltei mais uma vez para Manaus e como não poderia ser diferente minha primeira parada “sambística” foi o já citado bairro do Morro da Liberdade. Desta vez fui realizar a visita ao Sr. Ivan de Oliveira que havia ficado devendo na última viagem. Refiro-me respeitosamente ao Sr. Ivan não por uma questão de idade, mas por respeito a trajetória que este constituiu dentro do samba. Ele um baluarte do Morro, duas vezes presidente da escola do bairro, além de figura extremamente simpática é referência quando o assunto é o Reino Unido. E como tal congrega e abre as portas de sua casa não apenas a este humilde escriba de outras paragens, mas todos que fazem sua morada no samba.

E foi ali comendo uma deliciosa salada de pirarucu que conheci Clênio, de passagem pela casa do Seu Ivan. Ele é um dos autores do samba de 2012 da Reino Unido. Campeão pela primeira vez na escola recorda-se com saudade dos tempos de bateria mirim. No Morro da Liberdade é assim, se aprende a fazer samba desde criança através da escola mirim Reino do Amanhã. O projeto é referência não apenas no Amazonas, mas no Brasil e junto com a escola mãe resgata a auto-estima do bairro e jovens da criminalidade. É mais que uma escola mirim, até pelo fato de desfilar apenas nas ruas do bairro. Funciona o ano inteiro como poucas
escolas mirins. Só que isso pode ser papo para outra ocasião.

Quero chamar atenção para o quadro dramático que se desenlaça na família de Clênio, compositor de umas das nove postulantes ao título do carnaval de Manaus. Não apenas uma das nove postulantes ao título, mas uma das favoritas, a atual campeã. Seu irmão é ninguém menos que Clemilton Pinto, o ex-diretor de harmonia da Reino Unido da Liberdade. Clemilton é conhecido fora do universo do carnaval pelo apelido de Peará. Assim é conhecido no Brasil todo, comandando a Batucada, o grupo rítmico do Boi Garantido no festival de Parintins. Com a admiração explícita em sua voz é Clênio quem explica o apelido: “trata-se do líder dos porcos selvagens na gíria cabocla. Meu irmão teve que lutar muito e conseguiu ser respeitado por todos a ponto de lhe confiarem a liderança de um grupo guerreiro”.

O drama começa quando o irmão de Clênio anuncia sua saída após o título do carnaval de 2011 na Reino Unido da Liberdade. E justo no ano em que seu irmão ganhou o samba na escola, Clemilton transfere-se para a Mocidade Independente de Aparecida, a vice-campeã no carnaval 2011. A explicação é do próprio Clemilton, muito ligado aos fundadores da escola, com uma história e muitos amigos na Aparecida: “Quando ganhei o título, sei que venci pessoas de quem eu gostava, meus amigos” diz Clemilton, explicando sua decisão.

E a dramaticidade atinge níveis estratosféricos quando se trata da temida Aparecida. A escola é simplesmente a maior vencedora de carnavais em Manaus contando com 17 vitórias em desfiles do grupo principal da cidade. Quem visita a quadra no bairro de Aparecida, bem próximo ao centro sente o peso da escola. Uma estrutura de fazer inveja a muitas escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Além da estrutura conta ainda com uma bateria simplesmente sensacional comandada por mestre Zé Carlos, antigo comandante da Marujada de Guerra do Boi Caprichoso de Parintins e primo dos irmãos Clênio e Clemilton.

Apesar do caldeirão de rivalidade que a competição coloca a família os dois irmãos são unânimes em afirmar que “a família está acima de tudo” e os laços que os une nem os resultados da quarta de cinzas vão romper. E o desenlace dessa e muitas histórias de paixão e guerra só o carnaval dirá. Dirá coisas que talvez a vida não nos diz. Competir contra um irmão de sangue, contra a família, pode acontecer. Quem vai ganhar ninguém arriscaria. A única certeza é que passaram anos e esses irmãos, nossos “co-irmãos” e rivais sempre serão nossos heróis e maiores fãs.

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