Irreverência para retratar as obras de Nelson Rodrigues é a aposta da Viradouro

 

 

Vice-campeã no carnaval passado, a Unidos do Viradouro bateu na trave para voltar ao Grupo Especial, local onde ficou por 20 anos e foi campeã em 1997. Este ano, com enredo que conta a obra de Nelson Rodrigues, a Vermelho e Branco de Niterói, que tem Alexandre Louzada e Júnior Barata como carnavalescos, aposta na irreverência e na força de seu chão para alcançar novamente a elite do samba carioca.


Como Alexandre Louzada assinará três carnavais este ano – Mocidade, Vai Vai e a própria Viradouro – o experiente carnavalesco delegou ao jovem Júnior Barata a função de desenvolver o desfile da escola de Niterói. Isso não quer dizer, porém, que Louzada não marque presença no barracão da Viradouro. De acordo com Júnior, mesmo quando não vai lá, Alexandre Louzada recebe uma espécie relatório.


– Participei da criação da sinopse ao lado do Alexandre e estou no processo de criação da escola desde o início. Mesmo quando ele não vem, passo tudo, até porque tem coisas que ele precisa pedir, aparecer. Muitas vezes fazem vista grossa porque sou eu. O nome dele tem mais peso – garante Barata, que trabalha no carnaval desde 2006, mas há apenas um ano com Alexandre Louzada.


Ele fez questão de ressaltar que o enredo da Viradouro não é biográfico. Não será contada a história de vida Nelson Rodrigues. O desfile será baseado nas frases e pensamentos do cronista, além das obras e personagens do teatrólogo e escritor. Os muitos personagens de Nelson poderão ser vistos logo na entrada da escola na Avenida. A comissão de frente trará vários deles dentro uma caixa com um buraco da fechadura. A caixa é tridimensional e  que acontecer dentro dela poderá ser visto de todos os ângulos da Marquês de Sapucaí.


– No primeiro setor vamos retratar o Nelson Rodrigues cronista especificamente, com vínculo voltado para o jornalismo, quando ele começou ainda adolescente a escrever para o jornal onde o pai dele trabalhava. O primeiro setor é o universo jornalístico dele. Já no segundo setor, começamos a trazer os personagens que ganharam vida sob o olhar dele no subúrbio, lugar onde nasceu. Vamos trazer fofoqueiras, bêbados, loucos, donas de casa, uma série de personagens observados por ele em sua vida no subúrbio e que, mais tarde, o inspiraram a escrever algumas obras –  explica Júnior Barata.


O terceiro setor da escola abordará uma grande paixão de Nelson Rodrigues e promete levantar a Sapucaí: o futebol. Além do Fluminense, clube do coração do cronista, o Flamengo e o Fla-Flu ganham espaço. Barata diz que era ritualístico para ele ir ao Maracanã, sentar na arquibancada e assistir ao clássico tomando picolé chicabom. Este é o setor da bateria, que virá de Larápios do Apito. O Sobrenatural de Almeida, personagem criado por ele para discriminar os caminhos escusos da bola, também vai estar presente no setor.


– No quarto setor nós vamos especificar as obras dele que foram teatralizadas. Mostraremos o Vestido de Noiva, Viva Porém Honesta, A Falecida, a Serpente, Álbum de Família e Os Sete Gatinhos. A alegoria é uma ribalta e será totalmente voltada para a teatralização. É a alegoria que mais aposto e não posso dar mais detalhes. Ela não estava no meu projeto inicial e depois tive uma ideia uma pouco diferente. Conversei com o Alexandre e ele aprovou. Acho que dará um efeito bem bacana.


Para encerrar o desfile, a Viradouro vai trazer o universo cinematográfico e as fases vividas durante a carreira de Nelson Rodrigues. Júnior Barata revela que pretende fazer uma síntese das multifaces do cronista.


– Durante a vida inteira ele se auto-intitulou um Anjo Pornográfico e nós vamos transformar todas as faces dele num anjo. Tem o anjo jornalista, o teatrólogo, o cinematográfico, o anjo indecifrável e o anjo maldito, que é metade anjo, metade vilão, uma espécie de síntese dele.


Para escolher o que iria ou não para a Avenida, Alexandre Louzada e Júnior Barata deram preferência aos personagens que lhes trariam uma boa fantasia, pelo menos no que diz respeito às alas. Eles foram anotando os nomes e selecionando os mais relevantes e os que trariam uma plástica interessante. Barata conta que a ideia desde o niício era levar uma escola bem leve e bem humorada.


– A ideia do Alexandre desde o início era não tornar esse enredo pesado para a escola. Ele é assim, muito pornográfico. Nós procuramos tratar isso com certa irreverência e vimos que é possível fazer. A escola não poderia ficar cansada visualmente, senão eu não conseguiria trazer a explosão de cores que vamos trazer.


A teatralização nas alegorias aparecerá bastante nas cinco alegorias da Viradouro. Além disso, serão 27 alas, a grande maioria da comunidade, o que é o maior trunfo da escola para esse carnaval. De fato, a julgar pelo ensaio técnico realizado pela escola no Sambódromo este ano, a Viradouro mostrou que tem chão de nível do Grupo Especial.


– Acredito em tudo que a gente está fazendo aqui, mas a minha maior aposta nesse desfile é a comunidade. Tenho uma fé tremenda no componente da Viradouro. Mesmo se a Viradouro não estiver belíssima plasticamente, a comunidade tem condições de abafar isso. É uma escola de emoção, tem muito calor humano e isso é o mais importante num desfile.


A Unidos do Viradouro será a sexta escola a desfilar no sábado de carnaval. Até o ano passado, a Vermelho e Branco havia disputado o Grupo de Acesso A em apenas uma oportunidade, 1990, quando sagrou-se campeã.  

Comente: