Jornalistas especializados dizem que o carnaval precisa debater seus problemas e encontrar soluções

Por Amanda Rocha

beija-flor_final2018_132Filho do patrono da Beija-Flor, Gabriel David, vem cada vez mais participando do dia a dia da escola. Recentemente, em entrevista ao site Sambarazzo, o jovem apresentou ideias para o carnaval e suas propostas geraram polêmicas entre os sambistas. Segundo ele, ninguém aguenta ouvir 12 horas de samba, e por isso, outros estilos musicais devem fazer parte da festa nos camarotes utilizando os intervalos dos desfiles.

– O Gabriel, no afã de ajudar o carnaval (festa que ele aprendeu em casa), certamente se equivocou. Vejo a entrevista dele como a de alguém preocupado em ajudar, mas que, fundamentalmente, precisa conversar com pessoas mais experientes (e tudo o que ele vai encontrar na Beija-Flor é tradição e experiência), para entender que esta festa tem signos que versam sobre a alma de nossa gente. Temos, sim, de ouvir samba bem mais do que doze horas. Temos de ouvir em todas as horas, porque as escolas de samba são os grandes espelhos sociais das décadas e trazem na pele e nos elementos a formação do povo brasileiro. O Gabriel, o Rodrigo Pacheco e o Luis Carlos Magalhães são os caras que, juntos, podem dar uma virada no atual baixo astral da festa. E com muito samba por testemunha e lastro. Precisam conversar unidos. Quero muito mais samba, muito mais Leandro Vieira, muito mais Tia Surica e Tia Nilda, muito mais Selminha Sorriso. São estas as senhas do resgate e sustentabilidade – disse o jornalista Fábio Fabato.

O jornalista Aydano André Motta declara que é importante que alguém com poder de ser ouvido esteja pensando em mudanças, mesmo que equivocadas.

– Ele está preocupado com evoluções, só precisa estudar mais para promover as mudanças necessárias – comentou.

beija-flor_final2018_130Para Aydano, as escolas precisam mudar para que o carnaval seja um espetáculo melhor.

– É preciso mudar dentro e fora da pista. Prestar serviços de qualidade, cuidar da segurança de foliões, componentes e jornalistas e promover desfiles mais emocionantes. Uma escola não pode viver só para o desfile. O carnaval precisa passar por algumas mudanças, mas é importante que não se perca sua essência e consiga unir tradição e modernidade para que ele consiga se sustentar e mantenha sua cultura.

Fábio Fabato afirma que o ponto principal é entender que o carnaval é um espetáculo cultural.

– As bases sólidas que precisam ser cuidadas para que sobreviva essencialmente. Tem que ter samba, tem que ter baiana, bateria. É o que o diferencia na raiz. Mas já que ganhou proporções de show, que também entreguem as mínimas condições para que o público não se sinta lesado pelo preço paga – seja no serviço prestado, na certeza de que o julgamento será justo no fim, na preocupação com segurança. Lá na frente vai definir se um patrocinador irá ou não colocar dinheiro no evento como um todo. É a senha da segurança financeira.

Sobre os ritmos musicais apresentados nos camarotes, Fabato não mostra preocupação. Ele diz que o erro está na formação cultural e educacional.

– O que se faz dentro dos camarotes, confesso, não me preocupa. O problema não é esse. As pessoas não são ensinadas – nas escolas e nas famílias – a amarem a cultura popular e o que é nosso no íntimo. E o segundo equívoco é da organização da festa (Ligas, escolas, poder público), que precisam conversar e descobrir a forma de novamente serem amadas. As escolas – salvo raras exceções, como a Portela (cultural à beça e com um belo trabalho de marketing) – não sabem fidelizar público. Tudo envolve o reforçar de laços identitários, eventos em que o público se sinta representado e confortável, posicionamento em redes sociais, estratégias de financiamento novas. O carnaval é imediatista e se ama muito pouco. Vive a passar pires para benfeitores de araque. Isto afasta o seu público, afasta possibilidades de construção sustentável de público, de valores, de identificação e, para falar diretamente com o que os supostos gestores tanto prezam: grana.