Julgadores de bateria falam sobre a responsabilidade de julgar o quesito

 

 

Julgar bateria não deve mesmo ser tarefa das mais fáceis. Não bastasse a especificidade delas dentro do próprio universo da percussão, a cada ano os ritmistas, mestres e diretores das baterias das agremiações do Grupo Especial parecem inventar novos desenhos musicais. Para ter noção da tarefa, conversamos com três dos quatro responsáveis pelas notas das 13 baterias da elite do carnaval em 2012. E eles foram unânimes: julgar bateria é muito complicado.


Pelo segundo ano consecutivo julgando no Grupo Especial, o baterista Xande Figueiredo diz que sempre acompanhou os desfiles pela televisão e, por morar em Vila Isabel, ouve sempre a bateria da Vila ensaiar na Boulevard 28 de setembro, principal via do bairro. Ele revela que irá ao Sambódromo no próximo final de semana.
 

– Esse ano, eu estava até comentando com os colegas, um treinamento auditivo é ir na Sapucaí. Só consegui ir no último domingo, mas no próximo final de semana eu vou de novo. O que eu consegui ouvir do Salgueiro no domingo foi incrível. O que esses músicos fazem é inacreditável. Não possuem o conhecimento formal, fazem de maneira intuitiva. A quantidade de polirritmia criada é impressionante.


Já para o também baterista Leandro Osiris, os mestres tem conseguido aliar bem a tradição de suas baterias com a modernidade pedida pelo espetáculo.


– O nível das baterias me deixa muito feliz como carioca e músico. Os mestres estão se aprimorando e, ao mesmo tempo, olhando para a antiguidade. Resgatando as batidas de caixa tradicionais, já que isso é a identidade de uma bateria. Eles estão trabalhando muito bem essa relação da antiguidade com a modernidade. Estão trabalhando também com elementos alusivos ao enredo e trazendo novos instrumentos. Vejo também que todos os mestres estão preocupados e fazer a escola desfilar. Não adianta vir com uma porção de paradinhas, até porque isso acaba dando uma quebrada no samba. O andamento também tem melhorado. Eu sei que no primeiro recuo é um pouco complicado manter um bom andamento, tem muita confusão e nervosismo, mas mesmo assim as baterias tem mostrado um bom rendimento nesse sentido.
 

– Tá muito alto o nível, tem que trabalhar bastante a percepção auditiva para dar as notas, perceber os detalhes. O presidente sempre cobra no sentido para não darmos muitas notas dez. Isso é importante, mas não podemos também só tirar ponto por tirar, falo isso abertamente para ele. As baterias tem acompanhado a sofisticação dos desfiles. Os arranjos, as bossas, as padronizações das caixas e das terceiras, são o exemplo disso – concorda com os colegas o julgador Sérgio Naidin.


Sérgio Naidin também revelou o que acha importante para uma bateria ganhar todas as notas dez em sua avaliação.

 
– Acho que tem que ter o ritmo bem articulado. Tem que mostrar claramente o que quer. Uma boa afinação. Eu vejo as baterias como camadas de timbres, um sobre o outro, elas precisam ser bem claras e terem sincronia. Tem também a criatividade das bossas, isso dá uma dinâmica interessante para o desfile. É uma competição.


Outro ponto bem conflitante e recente é o uso do metrônomo para monitorar o andamento. A grande maioria dos mestres de bateria tem usado o aparelho que mede a quantidade de batidas por minuto. Leandro Osiris acha importante o uso do metrônomo, mas pede que os mestres não se atenham somente a ele.
 
– A questão do metrônomo é importante, mas não se pode ficar muito preso a ele. Num desfile podem ocorrer vários problemas: um carro para de funcionar, abre buraco, e o diretor de harmonia manda a bateria correr. A gente sabe de tudo isso, desestabiliza um pouco e influencia no rendimento. O aceleramento após uma bossa é uma coisa normal. É claro que existe um limite, basta usar o bom senso, mas variação de andamento é normal. Usar o metrônomo ajuda, mas ficar completamente bitolado nele não acho legal.


Em 27 anos de carreira como músico, Xande Figueiredo aponta a experiência em ritmos como MPB e jazz. Para ele, mesmo nunca tendo desfilado em uma bateria, o senso de improviso obtido o ajuda na hora de avaliar as baterias. Ele diz o que a bateria deve mostrar para alcançar a nota máxima em sua avaliação


– Eu acho que a bateria não pode apresentar imprecisão rítmica. Isso acontece muito quando as baterias tocam andando, tende a acontecer em uma escola ou outra. Não ter uma variação de andamento tão grande. A criatividade das bossas precisa aparecer também, mas o que mais valorizo é a sonoridade, o perfeito equilíbrio entre os instrumentos. Se errar na sua frente errou. Aí você vai avaliar qual o grau daquele erro e quanto vai penalizar.


 

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