Julgamento dos desfiles é criticado em bate papo na Uerj

Considerado pela opinião pública que acompanha o carnaval, um dos principais problemas atuais de nossa festa, o julgamento esteve em debate na manhã desta terça-feira, no Centro de Referência do Carnaval, na Uerj. O encontro contou com a mediação do colunista do site CARNAVALESCO, Ricardo Delezcluze, e as participações dos jornalistas Felipe Ferreira, que também é coordenador do Centro de Referência, e Aloy Jupiara, jurado do prêmio Estandarte de Ouro, além do antropólogo e pesquisador Fábio Pavão.

Um dos organizadores da série de encontros, Felipe Ferreira criticou o manual do julgador vigente atualmente no Grupo Especial e nos Grupos de Acesso A e B. Para ele, é preciso definir de maneira mais abrangente os critérios de julgamento.

– Acho que a questão do julgamento é a coisa mais relevante a ser debatida no carnaval atualmente. Sou sim favorável ao processo comparativo entre as escolas, mas não acho que o desfile deva ser julgado de uma maneira estritamente objetiva. Não se pode reduzir, por exemplo, a perda de um sapato de um componente como fator determinante numa nota. O carnaval é mais do que isso. Precisamos de uma formação mais eficaz para os julgadores. Além disso, a Liesa precisa protegê-los. Atualmente eles ficam desguarnecidos. Os presidentes das entidades devem chamar a responsabilidade da formação do corpo de julgadores para si. – afirmou Felipe, que foi jurado do quesito mestre-sala e porta-bandeira no Carnaval de 1998.

Aloy Jupiara concordou quanto ao erro de tornar os critérios de julgamento super-objetivos. Na opinião do jornalista, a subjetividade, característica aos desfiles das escolas de samba, deve ter influência na nota dos julgadores. Ele afirmou sentir falta da participação das escolas de samba nos parâmetros de definição do que será julgado em cada quesito.

– Acho que há um descompasso entre a burocracia do carnaval e o que os sambistas entendem pelo desfile. E isso não é fruto da evolução da administração do carnaval. Acho que começou a ocorrer no momento de definição dos quesitos. A construção do que se quer entender por um desfile de escola de samba tem que partir das próprias escolas. Alguns quesitos como mestre-sala e porta-bandeira, que é o mais prejudicado nessa história, e enredo, que, hoje, é uma avaliação do texto entregue aos julgadores, sofrem interferência direta desse descompasso.

Para Fábio Pavão, a influência dos julgadores no modo de desfile das escolas de samba acaba sendo algo que torna o espetáculo chato.

– Os jurados estão moldando os desfiles hoje. É por isso que a cada ano se vê mais escolas enfileiradas e menos criatividade no trabalho dos carnavalescos. Estamos vivendo a ditadura dos jurados. Chegou ao ponto em que um jurado diz o que ele vai querer ver na dança dos casais. Isso é um desrespeito às especificidades da cultura carnavalesca – revelou.

Outro fator positivo do encontro foi a participação da plateia, que contou com as ilustres participações do carnavalesco Luiz Fernando Reis, do jornalista Anderson Baltar e do colunista do site CARNAVALESCO, Luis Carlos Magalhães, além de alguns jurados de desfiles de outras cidades e estados, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Nova Iguaçu. A participação de jurados num bate-papo como este, por exemplo, foi citado por Felipe Ferreira como algo que poderia ser benéfico.

– Por que os jurados não sentam e trocam ideias quando o desfile acaba ou, até mesmo, durante o ano. É preciso dissecar cada quesito e comparar o que cada um tem achado do desfile. Isso é feito em vários lugares, não vejo motivo para não acontecer aqui no Rio.

Dentre as sugestões apresentadas, foi citado o que ocorreu com a Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, responsável pelos Grupos de Acesso C, D e E, que passou a contar com parceiros para analisar os currículos dos julgadores e teve resultados pouco contestados em 2011. A iniciativa da Liga das Escolas de Samba de São Paulo, que, em parceria com o Instituto do Carnaval da Facha, organizará um concurso e um extenso curso para a formação dos julgadores do Carnaval 2012, também foi elogiada.

– Pelo menos são ações em que nós percebemos a vontade de mudar. A Liesa não faz nada! É uma pena… Por que ela é o carro-chefe, acaba influenciando o carnaval de todo o país e os grupos de acesso. Até acho que o Jorginho concorda com quase tudo o que estamos falando aqui, mas acredito que ele fica impossibilitado de agir por uma série de questões políticas lá dentro – opinou Felipe Ferreira.

– Nós não estamos sós com essa opinião. Dentro das escolas de samba, muitas pessoas pensam desta forma, mas não têm espaço, não são nem ouvidas pelos dirigentes. Antes da mudança necessária no julgamento é preciso também uma transformação na cabeça dos nossos dirigentes – disse Aloy.

Algo que já foi discutido em outros encontros desta natureza, inclusive no I Seminário Pensando o Carnaval, realizado em junho, e voltou  a ser lembrado na Uerj, é a atribuição de um peso maior às notas de alguns quesitos de chão: como harmonia, samba enredo e bateria, por exemplo. Neste momento, os debatedores ficaram um pouco divididos.

– Não sei se isso seria a solução para o fim da supervalorização dos quesitos estéticos, mas o jornalista Leonardo Bruno, do jornal Extra, escreveu uma matéria muito interessante logo após o Carnaval 2011. A diferença entre as maiores e menores notas nos quesitos de chão, é bem inferior à diferença existente nos quesitos estéticos. Fica claro que os julgadores valorizam mais esse lado no carnaval de hoje – concluiu Fábio Pavão.

Felipe Ferreira não discorda que seja atribuído peso dois a alguns quesitos, mas acha que o caminho correto não seja bem esse. Ele falou após uma pergunta da plateia, que citava o desfile da Mangueira em 2011.

– O desfile da Mangueira foi muito bom nos quesitos de chão, mas não acho que ela tenha ficado devendo à Beija-Flor, por exemplo, em termos de estética. Não eram carros ricos e fantasias luxuosas, mas coisas de extremo bom gosto e muito bem feitas. A comissão de frente, por exemplo, foi uma coisa espetacular. Acho que a escola campeã deve equilibrar bem os dois lados.

Apesar de acharem praticamente impossível que isso aconteça no momento, foi consenso entre os debatedores que a Secretaria de Cultura fosse a responsável pelo controle e escolha dos julgadores. Desde 2008, o Centro de Referência do Carnaval vem promovendo encontros …