Justificativas de Fábio Fabato

Antes de qualquer coisa, é importante que sejamos justos: parodiando Euclides da Cunha, o compositor é, antes de tudo, um forte. Com alguns enredos bem frágeis na teoria (na prática, claro, a coisa pode mudar), verdadeiros abacaxis, muitos poetas fizeram “caipifrutas” pra lá de razoáveis. Preservemos, meus bons, o quesito enredo enquanto ainda há tempo. Ele está se perdendo…

Vila Isabel: 10
Uma delícia. De novo. Emoção, sinestesia, letra e melodia em sintonia, samba que gruda e pede para não desgrudar jamais. André Diniz é, sem dúvida, o maior craque de samba-enredo desde o seu atual parceiro, Martinho. Adoro “a lua se ajeita”, que traz a marca jocosa do enredo…

Portela: 10
O segundo café, dizem, nunca é igual ao primeiro. Neste caso, os poetas fizeram um café diferente, mas tão bom quanto. Não é fácil a segunda vez após um clássico desamarrado como o de 2012. E eles conseguiram vencer o desafio.

Beija-Flor: 9,6
Bem abaixo das obras geniais da primogênita das “Três Irmãs” nos anos 2000, mas um samba valente que conseguiu driblar as muitas armadilhas de um enredo, cá pra nós, longe de descer redondo. Relinchos à parte, beleza de gravação!

Tijuca: 9,5
O refrão tem aquela sacada interessante do coração e a obra, no geral, apresenta trechos bem elaborados. Difícil fazer um samba sobre a Alemanha que toque nossa caliente emoção tropical, mas a obra chega lá.

Mangueira: 9,5
O enredo-CEP batido, claro, dificulta tudo. Mas os compositores, talentosos, produziram uma obra com muita dignidade, plena de trechos inspirados.

Salgueiro: 9,4
Melhor samba, disparado, na disputa salgueirense. E um milagre para o tema sobre o qual está debruçado. A obra conseguiu ir além da proposta teórica da escola com boas sacadas.

Mocidade: 9,4
Outro samba que, na minha visão, é um autêntico milagre. Já imaginou fazer uma obra sobre o Rock In Rio? O enredo não é o rock, é o Rock In Rio, um festival comercial, sem nenhuma das ideologias de Woodstock, por exemplo. Melhor samba da disputa independente e candidato, a partir de sua valente melodia, a dar certo na pista.

Imperatriz: 9,4
Samba muito bem gravado pela dupla improvável e sem nenhum grande pecado. Distante, porém, do ótimo passado recente (e antigo) da escola.  Conta bem a proposta – que já desfilou trocentas vezes no palco iluminado –, mas não decola…

São Clemente: 9,3
Longe do brilho do Bububu no bobobó, mas, novamente, com a identidade da escola. Isto, claro, garante alguns passos à frente na disputa pela aprovação do povão. Não me espantarei se virar hit do carnaval 2013…

Inocentes: 9,2
Mais uma daquelas ingratas missões: misturar samba e Coreia do Sul. A proposta não chega a afundar nas águas do Pacífico, mas o resultado – não por culpa dos compositores –, tem ares de forçação de barra.

União da Ilha: 9,1
Ao contrário do que acontece com Salgueiro e Mocidade, o samba está aquém do grande enredo. Vinicius de Moraes foi homenageado, recentemente, pelo Império Serrano e a comparação entre as duas obras é inevitável. Faltaram gelo, uísque, banheira e, claro, mais poesia na obra insulana sobre o poetinha. Um pecado…


Grande Rio: 9,1
O enredo é inacreditável e os compositores tiveram uma árdua missão. A obra tem certa valentia melódica – com algumas tentativas de boas sacadas em meio a toda a dificuldade imposta –, mas o resultado, como já esperado, termina bem antes da camada do Pré-Sal. Ah, sim: veta, Dilma!