Justificativas de Luiz Antonio Simas

VILA ISABEL: NOTA: 10,0
Não chega a ter (pela própria natureza do enredo) a beleza épica do samba da escola de 2012, mas se destaca com folgas na safra de 2013. Descreve de forma quase ingênua, como pede o enredo, o cotidiano de um agricultor que parece imune aos dramas da lida no campo e a diluição da cultura caipira em um simulacro de Texas tropical. A letra dá conta do recado, ainda que flerte de leve com versos fáceis como “a emoção vai florescer”. Tem uma melodia bem construída, com destaque para o belo trecho (iniciado com “cai a tarde, acendo a luz do lampião”) que deságua no refrão final (este começa com dois versos perigosamente marcheados, mas termina bem resolvido).  O refrão do meio, puxado para o calango, é irresistível.

PORTELA: NOTA: 10,0
A parceria de 2012 acertou novamente. É um samba de pegada incomparável, com uma melodia que flerta com o samba de roda, o jongo e o samba-enredo tradicional. A letra, com rimas internas e referências constantes ao cotidiano do bairro de Madureira, é de longe a melhor do ano (o trecho que começa no verso “tempo rodou na roda do trem e veio” e termina em “agitou o suingue do black e a nega baiana girou” é de antologia).  O início do samba tem a fluência da melodia prejudicada por duas notas estranhamente altas – nas palavras “amor” e “onde”. Nada que comprometa o conjunto excelente da obra; a melhor da safra.

SALGUEIRO: NOTA: 9,7
O tema, que causou tanta polêmica, gerou um samba correto, que não causará polêmica alguma: não é melhor, não é pior e não é diferente. A melodia, fato que já virou uma marca duvidosa do Salgueiro dos últimos vinte anos (exceções confirmam a regra), dispensa ousadias e descamba para a marchinha com facilidade, sobretudo no puladinho óbvio do refrão do meio. A letra, solta e investindo em uma linguagem popular, cumpre bem  o objetivo de retratar a linha do enredo.

SÃO CLEMENTE: NOTA: 9.5
Uma colagem confusa de personagens de novela, dois refrões que descambam completamente para a marchinha, rimas fáceis e a entrada mal resolvida do último refrão comprometem a qualidade da obra. É a marcha-enredo que a São Clemente vem apresentando constantemente, sob o pretexto de apresentar um samba alegre que seja a cara da escola. Para cantar com o dedinho levantado e ser esquecido no fim do desfile.

INOCENTES DE BELFORD ROXO: NOTA: 9,7
Pátria mãe gentil; a fé refletida na paz de um olhar; um caminho de luz a trilhar; sinto a emoção em cada expressão; Coréia do Sul se faz carnaval; um rio de amor me leva… A letra, repleta de clichês, não ajuda. A melodia não apresenta novidades, ainda que algumas passagens, sobretudo as de tonalidade menor, sejam interessantes. Talvez seja um samba um pouco pesado para uma escola que vai abrir os desfiles. A ver.

UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR: Nota: 9,8
O hino da União da Ilha não tem o nível dos sambas da Portela e da Vila Isabel, mas apresenta qualidades. Tem a cadência característica de samba-enredo e uma letra que, ainda que não apresente maiores novidades e invista em rimas fáceis, cumpre corretamente a função de apresentar o enredo sobre Vinícius de Moraes. A melodia, em certos momentos, é cansativa, sem nuances que permitam dar mais dinamismo ao samba. Um pequeno detalhe, a título de curiosidade, que não compromete a composição: quem se ilude com o canto de Ossanha não é uma menina (coitado do homem que cai/ no canto de Ossanha traidor).

MANGUEIRA: NOTA: 9.8
Um samba com o jeitão da escola, adequado ao estilo de desfile da Manga e ao padrão da bateria da agremiação. Sem brilhantismo, consegue ser, entretanto, melhor do que o enredo. Tem boas passagens, ainda que repita desnecessariamente certos clichês (bambas imortais / relicário de beleza), insista no recorrente e batido jargão de “eu sou Mangueira” e na referência às cores verde e rosa (o nome da escola é, inclusive, citado nos dois refrões). A segunda parte é o ponto alto da obra.

BEIJA-FLOR: NOTA: 9.9
A despeito da inusitada solução de contar o enredo a partir do ponto de vista do cavalo, que relincha grotescamente no início da gravação, é um samba com insuspeitas qualidades, sendo superior ao enredo que o inspirou. A escola, como em geral acontece, escolhe sambas mais densos, com a cadência característica do gênero, evitando as soluções fáceis e as marchinhas-enredo cada vez mais comuns. A melodia tem bons momentos, dignos do gênero, mas o samba de Nilópolis apresenta pequenos problemas na letra, com frases mal construídas no início da segunda parte (ex. Sul de Minas Gerais galopei a riqueza da mineração / café me faz marchar ao Rio da corte a bailar). Abaixo da Portela e da Vila Isabel, é ainda assim um dos bons sambas do ano.

UNIDOS DA TIJUCA: NOTA: 9,6
Um samba sobre a Alemanha que cita mais o nome do bairro da escola do que o nome do país homenageado, em exaltações absolutamente desconectadas com o enredo e exortações repetitivas ao coração tijucano. A letra é uma colagem mal costurada e a melodia não apresenta maiores qualidades.

MOCIDADE: NOTA: 9,7
Samba animado, com refrões marcheados. A letra é confusa em certos trechos, ora parecendo que é o próprio Rock in Rio que conta sua história, ora parecendo que é a Mocidade Independente que fala sobre o festival. Não compromete, mas está longe de ser um grande samba. Como peça publicitária, cumpre bem a tarefa.

IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE: NOTA; 9,9
Um samba com méritos inegáveis, que na maior parte do tempo segura a cadência e não tem receios de investir em uma linha melódica densa e bela. Peca apenas na entrada marcheada do refrão do meio. A letra é mais do que correta (uma das melhores do ano), atingindo bons momentos, com alguns versos de qualidade bem acima da média.

GRANDE RIO: NOTA: 9,5
Uma marcha mal resolvida, gravitando em torno de um enredo problemático. A letra, tributária do inusitado tema, mistura propaganda política, ecologia e romantismo de ocasião (entre exortações ao petróleo e ao fundo do mar, surge um solto “vem me dar um beijo, amor”).  A Grande Rio, depois de apresentar ótimos sambas no início dos anos 90, tem se especializado em desfilar com obras que figuram, com constância preocupante para a agremiação, entre as mais fracas do carnaval.