Justificativas de Ricardo Barbieri

O samba-enredo tem vários momentos.

Desde a sua criação ele passa por fases. E, em cada uma dessas fases, ele se mostra com formatos diferentes.

Quando da gravação do CD para inscrição no concurso da escola, o samba se mostra de um jeito. Durante as apresentações na quadra, sofre várias transformações (dizem). Depois de escolhido é emendado, remendado, sobe tom daqui, acelera dali e o samba é outro no CD oficial. Existe ainda o desempenho na avenida onde, dizem, o samba pode ou não “funcionar”.

Por fim, há ainda outra fase que, pra mim, é importante: o pós-carnaval. O samba que sobrevive e permanece depois do carnaval esse sim, é bom.

A Portela e a Vila, em minha opinião, têm sambas muito melhores que as outras e, por este motivo, são as únicas escolas as quais eu daria nota dez. As outras estão num mesmo nível, abaixo dessas duas. Outro aspecto é que algumas pessoas do samba tem “gigantesca” resistência em receber críticas.

Vale destacar que não é meu papel atribuir notas a sambas. Por outro lado, não posso deixar de criticar a forma de avaliação praticada pelos julgadores de samba-enredo, claramente influenciados pela estética das escolas, atribuindo notas altas para sambas que não merecem. Então, vamos falar do que temos para o próximo carnaval:

PORTELA
A letra descreve o enredo de forma inteligentíssima. A melodia surpreendentemente versátil navegando por jongo, pagode e samba que lembra os anos 70 também é inteligente, imprevisível, sem obviedades. Mesmo as mudanças desnecessárias na primeira parte e no primeiro refrão, não conseguiram tirar o brilho do samba. Costumo considerar que um samba bom é aquele que a gente gosta de cantar e não cansa ouvir. Este samba da Portela é delicioso.
Nota: 10

VILA ISABEL
É um samba com pedigree. Vale destacar que haviam no concurso outros bons sambas, que poderiam igualmente credenciar a Vila como melhor samba. A Vila tinha várias opções. E foi escolhido mais uma vez um bom samba. O final da primeira parte e preparação para o refrão do meio é lindo. O refrão do meio gostoso de ouvir e de cantar. O refrão de baixo é mais comum, porém bonito. Destaque para a sacada genial de “A Vila vem plantar…” que no bis vira “A Vila vem colher…” Acho que esse trecho tira o refrão debaixo do lugar comum. A Vila está à frente das outras escolas ao manter a qualidade de seus sambas. Isto permite que a escola venha sempre competitiva.
Nota: 10

MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL
Vai servir para a escola na avenida. Tem uma melodia animada. O refrão “Não, não existe mais quente…” com a longa pausa já virou “meme” na internet.
Nota: 9,9

GRANDE RIO
Chama a atenção que a parceria é formada por compositores de talento superior ao samba. O enredo é um complicador. Amarras de sinopse e cabrestos impostos pelo tema devem ter provocado a dificuldade na elaboração dos versos, decorrendo em rimas de menor inspiração.
Nota: 9,7

UNIÃO DA ILHA
Talvez uma necessidade exagerada em comparar os sambas da Ilha dos últimos anos com os grandes sambas do passado, exerça pressão e faça com que bons sambas sejam tratados como ruins. O samba deste ano não dá para qualificar como ruim ou bom. Com certeza é um samba versátil e permite que o intérprete, com sua habilidade, o torne um samba funcional como é do gosto de alguns.
Nota: 9,8

BEIJA-FLOR
Samba que se encaixa bem na Beija. Mas, deixa um pouco o jeito de sambas parecidos dos últimos carnavais. Isto é um mérito. E o enredo pela narrativa do samba promete ser bem tratado na avenida.
Nota: 9,9

SALGUEIRO
Continuo não gostando do enredo. Alguns trocadilhos com o patrocinador e um samba bem animado.
Nota: 9,8

MANGUEIRA
Samba bonito. Mesmo estando um pouco abaixo dos grandes sambas deste ano, mantém o estilo da escola dos últimos anos. É difícil fazer um samba sobre Cuiabá. Aqui o esforço em produzir sobre um enredo CEP ou patrocinado por parte dos compositores pode ser enaltecido.
Nota: 9,9

UNIDOS DA TIJUCA
Destaque para os últimos versos do refrão principal: “Metade do meu coração é Tijuca…” um achado. Um bom samba. Habilita a escola no quesito.
Nota: 9,9

INOCENTES
Um grande esforço em ser poético e extrair uma melodia que emocione. Em determinado momento diz: “a fé refletida na paz…” É uma região de conflitos históricos e desde 1945 sob governos autoritários. O samba remete à imigração várias vezes. Não faz referencia ao fato de ser a décima terceira maior economia e ser um dos países mais desenvolvidos do mundo. Mas seria mais complicado ainda poetizar isso.
Nota: 9,7

IMPERATRIZ
Descreve bem o enredo. Mas derrapa na frase; “exemplo pro mundo; Pará” Com todo respeito, estado lindo, rico, de um povo forte e bonito. Mas, daí a ser “exemplo pro mundo…”
Nota: 9,8

SÃO CLEMENTE
Refrãos dentro da mesma proposta da escola do ano passado. Mas, não parecem tão marcantes quanto o “Bububu do bobobó”
Nota: 9,8