Justificativas de Roberto Vilaronga

Ao analisar um cd de samba enredo é preciso despir-se da mágoa sobre os enredos. Estamos analisando o SAMBA e não o ENREDO. É aquela coisa, se o enredo é sobre PORTA analisaremos se contém no samba madeira, ferro, maçaneta, vidro, olho mágico e outros elementos que compõem a porta… ou seja, usar a retórica do “o que temos pra hoje dentro das possibilidades”. O enredo pode ser inferior, mas isso não quer dizer que o samba será ruim só pela inferioridade enredística. Pensem nisso. Por isso algumas pessoas as vezes não entendem as notas dos jurados de SAMBA ENREDO.

Se você vai comprar o CD de samba enredo 2013 e espera encontrar sambas antológicos esqueça. Compre o CD o Dudu Nobre gravado da Cidade do Samba, lá tem samba Antológico. O CD 2013 do grupo especial do RJ não é nenhuma jóia rara, mas também não encontramos anomalias.

Beija Flor 9.7 – O samba é simpático, tem melodia atraente, gosto de ouvir. Mas me incomoda o samba em algumas partes na 1ª pessoa: “Sou Mangalarga Marchador”. Em outros momentos ele cita adjetivos do cavalo de forma narrativa. Outra coisa que incomoda é a leve cacofonia do “Eu vim brilha COM A beija flor”. Tem que trabalhar bem essa parte no canto para não parecer “coá beija for”.

Mocidade de Padre Miguel 9,8 – NÃO… NÃO EXISTE MAIS QUENTE! Taquem pedras, ovos, pandeiros e guitarras, mas é um dos sambas que mais gosto no CD. Longe de ser um samba antológico, mas ele tem algo que todo samba tem que ter: alegria. O samba dá uma viajada legal, passeia por toda a história do festival, vai pra Madri, Portugal, volta pro Rio e até rima “felicidade com Mocidade”. Falta poesia e requinte, mas sobra animação e ele cumpre seu papel fundamental de ser um samba de enredo sobre o ROCK IN RIO. E o enredo é o que está no samba.

Imperatriz 9.6 – Acho um samba correto. Nada mais. Força um pouco a barra em dizer que o Pará é exemplo pro mundo e tal. Se eu não soubesse que o enredo é sobre o Pará, diria que o samba engloba grande parte da cultura de todo o Norte. Tenho fé no desfile e na plástica do Cahê para sucesso do desfile.

Ilha 9.8 – “Caô me guia!” Todo mundo esperava um samba diferente, poético e na linha das músicas de Vinicius por conta da beleza do enredo. Se fosse pra ser assim, teriam pedido um samba para próprio e não feito um concurso na quadra. O samba cumpre seu papel de informar sobre o enredo e de fazer quem escuta entender o que vai passar na Sapucaí. É um dos meus favoritos.

Unidos da Tijuca 9.6 – Frases genéricas no samba podiam ter dado lugar a mais informações do enredo que é riquíssimo.  Precisa conhecer bem a Alemanha, ou o enredo para entrar no que ele se propõe.

Vila Isabel – 10 – O samba do ano. Você fecha os olhos e imagina cada passo narrado no samba. A jogada do plantar/colher é a grande sacada do samba. Um achado.

Portela – 10 – Um samba digno da tradição da escola. Pegaram o jeito na escolha do samba. O samba é emocionante, tem Zaquia Jorge a Vedete do Suburbio, tem Império Serrano, tem Mercadão e até o Baile de Charme do Viaduto. Orgulho suburbano.

Grande Rio – 9.8 – Muitos tacharam o samba como panfleto barato. Acho injusto. O enredo tem tudo a ver com o Rio, se esse enredo e samba enredo fosse em outras escolas, achariam lindo, antológico e seria aclamada campeã só pelo fato de ajudar no côro de defesa do petróleo fluminense (VEM CÁ, ME DÁ, O QUE É MEU, É MEU). O samba enredo da Grande Rio é um Ato que pode virar Potencia tornando-se um manifesto forte na luta a favor dos Royalities, basta saber usar isso a favor da escola. Gosto dos dois refrões, mas a segunda do samba algumas colocações me soam como genéricas ( “vou jogar a rede e puxar, vem me dar um beijo amor” oi?)

Mangueira – 9,9 – Samba de primeira qualidade. Pra mim, um dos melhores dos últimos anos da Manga que poucos comentam por não conhecer o enredo. Para entender a beleza do samba é preciso conhecer bem o enredo da escola que não é somente um cartão postal de Cuiabá. O enredo vai além e leva à cidade um sonho antigo que é o Trem. Praia está para o carioca como o trem está para o Cuiabano e o samba faz essa ligação, saí da Estação Primeira e o sonho chega até Cuiabá. Fabuloso! Só me incomoda na gravação a troca de interpretes nas partes do samba fazendo-o variar…

São Clemente – 9.8 – “Vilão não tem vez, final feliz” O enredo é novelas. Logo o samba tem que contar novelas. Não há um laço de união que faça ligação entre as novelas brasileiras, logo é natural o samba ter várias citações distintas que compõem a obra. Sinto que o samba da São Clemente será um dos mais cantados na Sapucaí por conta do apelo popular que o enredo e que o próprio samba tem. Citações como “Dance bem, dance mal, dance sem parar” e “olha quem chegou: sinhozinho malta” faz com que os leigos que estarão na Sapucaí se familiarizem com o samba e consequentemente cantá-lo.

Inocentes – 9.6 – “Rosa de Sharon…” Li a sinopse umas 3 vezes para não cometer nenhuma injustiça e confesso que gostei mais de sinopse do que do samba enredo. Muito bem escrita por sinal. Só que não consigo ver no samba as 7 confluências. O samba tem informações normais sobre o país, mas nada que chegue – no meu ponto de vista – ao que a sinopse me propôs ao ler. Destaque pro Thiago Britto que de 3 anos pra cá evoluiu muito como intérprete.

Salgueiro – 9.9 – “Tem banca, moral, respeito!” Samba mais famoso do CD. Falaram tão mal desse enredo, mas do samba e sua letra não podem falar. A letra na minha leitura é perfeita e tem cara de Salgueiro. A única coisa que me incomoda pouco é na gravação onde em algumas partes do samba ele dá leve uma caída por conta da troca de interpretes. Fora isso, perfeito.