Lançamento do livro de Sérgio Gramático homenageia os Mestres Delegado e Dionísio

A noite de quinta-feira foi marcada pela emoção e homenagem a dois grandes mestres na arte da dança: Delegado da Mangueira e Manoel Dionísio. Ambos foram exímios mestres-salas e hoje continuam ensinando admiradores do ramo e apresentando os casais na Sapucaí em dias de desfiles para os julgadores. Depois de tanto rabiscarem a Marques de Sapucaí com seus bailados leves e conquistarem as melhores notas para suas agremiações, o escritor Sérgio Gramático Júnior conta a vida desses dois grandes baluartes do carnaval na forma literária. O lançamento do livro “Delegado e Dionísio – vidas em passo de arte” ( Editora Hama) aconteceu no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, localizado no Centro do Rio.

Autor do livro, Sérgio Gramático Júnior, falou ao CARNAVALESCO sobre como surgiu a ideia de elaborar essa biografia e a finalidade do livro:

– Eu fiz uma palestra e eles estavam presentes. Depois disso, o Dionísio me convidou para dar uma palestra na escola de mestre-sala e porta-bandeira. Nesse momento, o embrião começou a surgir. Em seguida, comecei o trabalho de pesquisa – que não foi fácil-, entrevistas com pessoas próximas, familiares, e consegui um DVD de cada no Centro Cultural Cartola. Foi um Trabalho de aproximadamente um ano e meio. O livro conta com 116 páginas e 35 histórias de cada um, desde suas vidas pessoais até as profissionais. O livro é um meio de preservar nossa cultura e ter um registro sobre essas pessoas que são ícones – finalizou o escritor

Delegado da Mangueira, um dos homenageados, já estava sentado à mesa aguardando o início da celebração antes mesmo do horário marcado. Em entrevista ao site CARNAVALESCO, ele contou sobre os mestres-salas atuais e sobre a responsabilidade de sustentar esse status:

– Sinto-me muito feliz com essa homenagem. Hoje, quando vejo o mestre-sala dançar, fico um pouco triste, porque poderia ser eu ali dançando. Fico com aquela vontade de entrar naquele meio, fazer a minha coreografia. Então, fico olhando meus amigos. Uns eu ensinei e outros ainda tentam usar alguns passos meus, porém não conseguem. Os meus passos só eu sabia usar. Você via que, no passado, tinham muitos mestres-salas bons de verdade. Hoje, vejo o Marquinho da Unidos da Tijuca muito bem. Outro menino que gosto é da Estácio, o Marcinho, e o do Salgueiro, Sidcley. O mestre-sala para ser bom ele precisa ter passos variados. Ele tem que fazer tudo diferente. Precisa ter dez ou 20 passos, e não ficar rodando junto com a porta-bandeira – declarou Mestre Delegado.

Manoel Dionísio, fundador da escola de mestre-sala, porta-bandeira e porta-estandarte, também falou ao CARNAVALESCO das suas visões sobre os mestres-salas de hoje em dia e da homenagem recebida:

– É legal que fico me perguntando se mereço. Já fui enredo na Infantes da Piedade e também de bloco. Agradeço muito tudo isso. Principalmente porque estou vivo e posso ver isso tudo. Infelizmente, os mestres-salas hoje não têm um samba cadenciado para dançar e, por isso, precisam fazer suas danças em cima do refrão. Até porque as baterias hoje estão muito iguais, tirando a da Mangueira, onde você fecha os olhos e escuta a diferença devido ao surdo um que não tem resposta. Isso é uma fórmula de samba. O mestre-sala precisa ser cavalheiro, um cortejador, um defensor, um “garanhão”, pois a dança do mestre-sala é de sedução. Ele precisa sempre proteger o pavilhão. Hoje, a primeira dama da escola não é a mulher do presidente e, sim a porta-bandeira. Os dois são muito invejados e muito cobiçados, mas também os mais miseráveis, porque são apenas dois e, mesmo fazendo uma brilhante dança em toda a Avenida, se eles deixam cair um pedaço da fantasia já seria penalizado.Ainda vejo o Ronaldinho como excelente mestre-sala. Mas, se eu fosse ele, dançava mais dois anos no máximo senão vão pará-lo com notas baixas como fizeram com a Vilma que até hoje é a “Deusa da Passarela” – concluiu Dionísio.

Uma das juradas do prêmio Estandarte de Ouro, oferecido pelo jornal O Globo, Lygia Santos fez um desabafo ao site CARNAVALESCO, em relação ao local da escolinha de mestre-sala e porta-bandeira gerenciado por Manoel Dionísio:

– Eu acho que é um momento oportuno, mesmo que tardio, porque o Brasil não respeita os reais valores da Música Popular Brasileira, principalmente do carnaval. Isso aqui é um patrimônio da cultura. Então, acho que eles merecem muito mais. Eu não sei como o Dionísio que luta muito com a escola de dança. Ele abraça quase todos os mestres-salas e portas-bandeiras do Rio de Janeiro e do país. E mais ainda, leva para o mundo. Como pode até hoje não ter um espaço considerável para escolinha? Ele ocupa um espaço mínimo emprestado. É o momento do estado, da prefeitura, seja lá  quem for, dar a ele um espaço definitivo. Essa escola é muito importante. Uma pena que aqui na cidade ele não é reconhecido dessa forma. Espero que esse reconhecimento comece a partir de agora – desabafou.

Curiosidades do Mestre Delegado da Mangueira

Nascido em 29 de dezembro de 1921, Hégio Laurindo da Silva foi criado no morro da Mangueira e iniciou no samba ainda menino. Com 17 anos, começou a desfilar como mestre-sala e sempre tirou as notas máximas do quesito. Os mestres-salas e a porta-bandeira não sambam (por sinal os únicos no desfile),eles bailam. Sabendo disso, ingressou no balé, no Theatro Municipal. Delegado também passou pela harmonia, bateria, foi ritmista (tocando o surdo um). Passou também no carnaval paulista na camisa verde e branco. No carnaval carioca seu último ano de desfile foi em 1984, sagrando-se supercampeão com a Mangueira no primeiro ano do Sambódromo. Ganhou a Medalha Pedro Ernesto em 1998. Hoje, ele ensina o bailado aos jovens da Mangueira do Amanhã e também na Escola de mestres-salas, porta-bandeiras e porta-estandartes de Mestre Dionísio.

Curiosidades do Mestre Manoel Dionísio

Nasceu na cidade mineira de Além Paraíba, em 1936. Manoel dos Anjos Dionísio, chegou ao Rio de Janeiro com oito anos de idade. Antes de ter uma grande história no carnaval, tentou ser goleiro no São Cristovão. Seu início como mestre-sala foi em 1959, no Salgueiro – escola do coração. É bailarino desde 1955. Assim como Delegado, foi aluno de Mercedes Batista (1º bailarina negra do Theatro Municipal). Em 1965, foi premiado como o melhor diretor social da federação de blocos. Em 1988 começou a trabalhar como assistente-técnico de carnaval da RioTur. Hoje, Dionísio comanda a escola de mestre-sala, porta-bandeira e porta-estandarte que foi fundada em 1990.