Leandro Vieira: ‘Carnaval é cultura. Arte do carnavalesco não é a aptidão do desenho, é pensar o enredo’

baiana_leandroLeandro Vieira, carnavalesco da Mangueira, inaugurou nesta terça-feira a exposição Bastidores da Criação – Arte Aplicada ao Carnaval, no Paço Imperial, no Centro do Rio, onde exibe o passo a passo de criação de um desfile. O objetivo da mostra, segundo o próprio Leandro, é mostrar o que o público não vê na Sapucaí e fazer ele enxergar as pessoas como verdadeiras obras de arte. A abertura do evento contou com a presença de grandes nomes da cultura carioca e do carnaval, entre eles, Rosa Magalhães, hoje carnavalesca da Portela, e Renato Lage, que está na Grande Rio.

Durante conversa com o site CARNAVALESCO, Leandro falou sobre o legado da exposição para o carnaval.

– Logicamente tem minha realização profissional, mas a importância é para o carnaval, não quis ter a pretensão de fazer uma exposição do meu trabalho, embora, ela seja debruçada no meu trabalho, nem quis ter a pretensão de ter isso como uma exclusividade da Mangueira, tanto que no título da exposição não tem Mangueira, nem o Leandro, nem nada, são os bastidores do carnaval… Até porque esse trabalho que está sendo exposto aqui não é feito só por mim, é feito por todos os carnavalescos do Grupo Especial, Acesso, Intendente… Acho que o carnaval antes de qualquer coisa é cultura, é arte. E a gente muitas vezes, nós mesmos profissionais, não nos imbuímos desse espírito de arte – frisou o carnavalesco que contou como foi pensada a exposição.

exposicao_leandro6

exposicao_leandro5– Quando eu pensei na mostra de carnaval para o Paço, quis dar uma abordagem de obra de arte para o que é produzido. Tudo que tem aqui foram coisas do desfile da Mangueira que vieram pra cá justamente pra dar a intenção de que existe um bastidor artístico, que a tal ópera popular de Fernando Pamplona existe… As pessoas conhecem muito o trabalho final do carnaval, o desfile, o espetáculo, o show… Mas não conhecem isso aqui. Isso aqui é o bastidor, o rascunho, o desenho, o tecido… É o barracão… – enfatiza o artista que é incisivo ao dizer que para ele carnaval é cultura e ponto.

– Só vejo o carnaval como cultura, não consigo ver de outra forma… A minha formação me leva a pensar assim. Não sei ver como festa, detesto carnaval como festa, como entretenimento, acho carnaval muito mais do que isso. Por isso, questiono muito a pertinência das coisas que vou fazer e acho que isso é fundamental. Carnaval é cultura popular, tem toda uma trajetória histórica, representa muita coisa significativa para a cultura brasileira, para cultura carioca… pensar carnaval de uma maneira menor, acho bobo – frisa.

Ainda durante o evento, o CARNAVALESCO questionou Leandro sobre o que mais o motiva na arte de fazer o carnaval e ele afirma que é o enredo.

– O que eu mais gosto é o enredo. Na verdade, a arte do carnavalesco não é a aptidão do desenho, é o pensar o enredo, pensar o que ele propõe. Busco impregnar o que eu faço com um conceito muito forte, por trás do visual, do desenho… Acho que isso é mais importante. O desenho não é o mais importante, o conceito que você consegue impregnar na sua alegoria, na sua fantasia e no discurso do seu enredo. Eu gosto muito do discurso do enredo. Minhas referências são das coisas que eu ouço, por onde ando, o que como… Bethânia, por exemplo, é uma voz que ouvi a vida inteira. Para o ano que vem estou com vontade de falar de uma insatisfação com o carnaval, dessa questão política, não que eu vá fazer um enredo político, mas vai permear e estar impregnado disso também – adianta.

exposicao_leandro2Atualmente, Leandro é aclamado como um dos melhores carnavalescos em atividade, e já está sendo comparado por muitos a Rosa Magalhães, que também tem formação acadêmica em Artes. Modesto, ele diz que nunca pensou em ser carnavalesco, principalmente chegar ao Grupo Especial. Ele diz que teve sorte de chegar até aqui.

– Nunca pensei em ser carnavalesco. Acho que ninguém pensa: quando crescer vou ser carnavalesco, queria trabalhar com arte. Estudei arte porque queria fazer pintura, instalação, arte conceitual, expor em galerias, ganhar dinheiro com arte… Minha ideia era fazer isso, mas é difícil trabalhar com arte. Tropecei e caí no carnaval, a vida prega essas peças na gente e hoje estou com meu carnaval no Paço Imperial, que é uma instituição de arte – comemora.

Serviço:
Exposição: Bastidores da Criação – Carnaval sem Máscara
Abertura: 18h30, de 13 de junho de 2017
Período: 13 de junho a 20 de agosto
Local: Paço Imperial – Praça XV de Novembro, 48 – Centro – Rio de Janeiro – RJ