Leandro Vieira defende enredos patrocinados desde que não reproduzam pensamento comercial

O carnavalesco Leandro Vieira, da Estação Primeira de Mangueira, foi o convidado da primeira mesa de debates do stand do site CARNAVALESCO, em parceria com a Boutique e Bar Sempre Vila, no segundo dia da feira Carnavália-Sambacon no Centro de Convenções Sul-América. Leandro falou sobre o enredo da Mangueira para o Carnaval 2018, contou que nunca projetou ser carnavalesco e atacou o conceito comercial de alguns enredos patrocinados. Confira abaixo os principais pontos do bate-papo com Leandro Vieira.

A repercussão tão positiva do enredo te deixa surpreso?

leandro“Não esperava toda essa repercussão, mas fico feliz ao fomentar a discussão, um discurso alinhado ao que sambista pensa. O enredo foi abraçado por torcedores de outras escolas. Está faltando sambista para falar e discutir o carnaval. O show, o entretenimento e a festa esvaziaram o conteúdo pertinente da escola de samba e silenciou a voz do sambista. Vivemos uma nova fase, o esvaziamento da pertinência das escolas e o diálogo com a sociedade”.

A sua sinopse se mostrou bem enfática e forte. Você chegou a reescrever ou desde o começo era essa a tua proposta?

“Eu dou muito importância ao conceito do enredo. Pra mim um desfile nasce com literatura, uma transposição de ideias. Ela fomenta as ideias muito antes da plástica. Escrever e ler faz parte do meu universo de criação. O enredo nasce à luz dessa discussão recente. Não é só o corte de verba, e sim a vilanização das escolas de samba. Um decreto que tenta domesticar liberdades. A minha sinopse abraça toda essa condição. O conteúdo mesmo assim está nas entrelinhas”.

Você acredita que sua forma de fazer carnaval pode significar uma nova tendência artística dos desfiles, com enredos que valorizem mais a cultura popular?

“Eu ainda não estou no pé dos maiores na minha opinião. Seguir essa tendência do que eu faço não seria bom. Na verdade acredito que os desfiles devem ter uma cartela plural. Cada trabalho é um trabalho. Paulo Barros é um cara fundamental com seu estilo. Rosa Magalhães e seus enredos acadêmicos idem. Cada profissional traz uma nova opção. Acho que os estilos deveriam ser opostos. se eu apareço é porque segui uma linha diferente. Um dos pecados do carnaval é a pasteurização de tudo”.

Você vê uma boa safra de novos artistas, como você João Vitor, Jorge Silveira?

“Concordo que é uma boa safra, mas os presidentes ainda precisam abrir as suas cabeças. Tem muita gente boa para trabalhar. O carnaval é pautado no conservadorismo. Meu primeiro carnaval na Mangueira é um acidente de percurso. Eu fui para a escola, mas seria junto com um outro artista, mais experiente. Ninguém aceitou e acabei ficando sozinho. Existe no carnaval muito conservador disfarçado de moderno”.

Quando te falam que você é a maior estrela que surgiu no carnaval desde o Paulo Barros você reage de que maneira?

“Eu acho que não é isso. Olho para o meu trabalho de forma diferente que todos olham para o trabalho do carnavalesco. Sou um artista plástico que me tornei carnavalesco. O importante pra mim é o ofício de fazer, o cara que trabalha todo dia, que refaz. Não consigo olhar para o meu trabalho como inovador. Me vejo como artista envolvido em consertar aquilo que está errado no meu trabalho. Propor o que proponho requer estudo e pesquisa e isso me coloca imerso em um processo de criação que aí sim me orgulha do que tenho feito. Paulo Barros continua sendo a última novidade”.

Você não projetou ser carnavalesco. Como isso se processou na tua cabeça?

“Sempre tive aptidão para a arte. Queria fazer arte conceitual, pintura. Achei que faria disso meu sustento. Mas os tropeços me fizeram estagiário em um barracão, quando conheci o Cahê no momento que ele estava na Portela. Passei a trabalhar com ele e segui com ele na Grande Rio e na Imperatriz. Trabalhei com outros artistas também. Fui demitido em uma época em que não consegui emprego em algumas escolas. Diante disso aconteceu o convite da Caprichosos e aceitei pela situação de desemprego pois o valor do salário era inferior ao de figurinista. Me apaixonei pela Caprichosos, me envolvi muito, foi para mim o desfile mais importante que eu fiz enquanto artista. O que aconteceu com a escola em 2016 era para ter ocorrido em 2015 e se acontece minha carreira estaria encerrada. Envolvi meus amigos e famílias em um mutirão e fui abraçado. Me abriu as portas para a Mangueira”.

A escola de Belas Artes tem que papel na arte dos desfiles de escola de samba?

“O papel da escola não é nem pela questão plástica. A menor contribuição que o carnavalesco dá é no aspecto plástico. Mas ela me faz pensar ao me colocar em contato com o trabalho de grandes artistas do mundo das artes. Aprendi sobre cultura popular e me debrucei nos saberes dessa arte. Mais que me formar como artista a escola de Belas Artes me fez conhecer a intelectualidade cultural brasileira”.

Como foi a abordagem do Luciano Huck para ser enredo na Mangueira?

“Eu não me sentei com ele para conversar sobre absolutamente nada. Chegou a proposta para a escola e me foi passado. Existia a proposta e ela seria acompanhada de um patrocínio de R$ 6 milhões. Eu de antemão disse que não tinha como fazer. Não tenho nada contra ele, mas a Mangueira tem uma tradição histórica de homenagens para personalidades de pertinência cultural inquestionável. O apresentador até o momento não atingiu esse patamar”.

O presidente da Mangueira tem uma postura conservadora e você é um militante da cultura popular. Como é a relação de vocês?

“Não tenho o que reclamar do Chiquinho. Foi altamente corajoso ao apostar em um cara sem história nenhuma que havia ficado em 7º lugar no Grupo de Acesso no ano anterior. Ele tem dado demonstrações que é confiável. A confiança é mútua. Existem pontos de divergência, mas o importante não é pensar igual. Independente de estarmos de acordo sempre chegamos ao consenso. A maior prova da qualidade do presidente é a autorização deste enredo para a Mangueira em 2018”.

É possível enredo patrocinado oferecer contrapartida cultural?

“Não tenho a menor dúvida. Não sou contra o patrocínio. Sou contra a reprodução de um pensamento comercial e que supostamente querem parecer autorais. Essa mão não dá muito certo. A Unidos da Ponte teve um enredo sobre a sombrinha que eu acho maravilhoso. Adoraria fazer um enredo sobre a cachaça, um artigo altamente carnavalesco. Poderia ser patrocinado. A pertinência cultural é total. O que não pode é transformar o enredo em um caráter comercial”.

Com muitos elogios, muita gente na imprensa já questiona como o Leandro vai agir quando for criticado. Como você analisa o trabalho da imprensa especializada?

“Eu não acompanho tanto o que falam do meu trabalho. Sei quando gostam ou não gostam, mas não sou vidrado. Estou aberto a qualquer tipo de crítica, Sou suscetível ao erro. Não acho que só falem bem. Até disseram que meu enredo do ano passado encontrava pontos de contato com outros que falavam sobre religiosidade. Eu busco a minha verdade. Não olho meu carnaval com vista elogiosa. Sou meu principal crítico”.