Leia sinopse da Nenê de Vila Matilde

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A Nenê de Vila Matilde divulgou a sinopse do enredo para 2012, cujo autor é o pesquisador de enredos Marcos Roza. "Chica Convida! No Palácio da Nenê a Festa é pra Você" é o título do enredo do carnavalesco Fernando Dias.

Confira:

Sou forra, mulher, rainha e mineira. Vivi no Arraial do Tijuco, cidade dos diamantes das Minas Gerais, lá pelos idos do século 18. Fui amada, respeitada, temida, odiada… Meu nome é Francisca da Silva de Oliveira, simplesmente Chica da Silva, negra na cor e mulher de muito valor.

Hoje, em minha paz celestial, decidi dar uma grande festa para ilustres convidados, em homenagem a vitória da liberdade, a literatura, a poesia, a música, ao teatro, ao samba… A cultura dos negros brasileiros.

Nesta festa sem recato, no lugar de navios negreiros teremos carruagens e liteiras douradas, no lugar da dor e da tristeza teremos alegria, e no lugar de grilhões teremos tambores.

Que soem os tambores…

Personificada em minha vida e história, da casa dos sambistas faço o meu castelo. Celebro a vida e a Águia da Azul e Branca põe-te a voar, mostrando a glória desse povo que vive a sambar. Por que hoje “No Palácio da Nenê a Festa é para Você. Chica Convida!”

Peço licença aos donos dessa casa. Com o meu orgulho renovado recebo os meus filhos. Todos educados longe do seio materno, meus “mestres de cerimônia” que trazem no olhar o afeto, a alegria do nosso amor eterno.

Em respeito a Vossa História, meus bambas de fato, que girem as suas “senhoras”, suas Tias Baianas, sigam o meu cortejo em devoção a Nossa Senhora do Rosário à tradição da coroa. Bailam os negros no ritmo do Congado. Onde o Rei do Congo e a Rainha Ginga são coroados… Em tempo de batuque, é dança pra todo lado, olubajé é o seu legado.

Mucamas, criados, atenção! São muitos os afazeres… Movidos por um sentimento de conquista, glória e paixão, cuidem com apreço dos vestidos, das perucas, das jóias à minha adoração. Como o habitual, tragam flores e águas de cheiro. Enfeitem, de forma sem igual, as paredes do palácio com tecidos coloridos, com palhas secas e fios de sisal. Organizem as louças de porcelanas e preparem um maravilhoso banquete. Com um toque africano e bem temperado, caprichem nos quitutes doces e salgados.

Músicos toquem, toquem, toquem… Como a suave brisa que embala a sinfonia dos ventos, apresento-lhes o meu quinteto. Sob as obras musicais, sonatas, transcritas para o meu folheto, trago com requinte e leveza a dança do minueto.

Rufam os tambores…

Alegria, alegria! Não é conto, nem magia é Rei Zumbi que acabou de chegar. Cada qual com a sua verdade, Zumbi e mil Palmares contra a atrocidade em nome da Liberdade.

A virtude de tornar real o sonho da alforria para muitos negros escravos é a sua lei. Entrelaçado em ouro, das minas, eu, o desbravei… Nem tão pouco sonhei. Aplausos, para o nosso glorioso Chico Rei.

Pressinto! E um repentino silêncio se faz presente. Um trotar sublime e envolvente ganha espaço reluzindo-se como uma estrela incandescente. É Dom Obá e Agotime, que a bordo de uma carruagem resplandecente, chegam para desfrutar da alegria de toda essa gente.

Tudo acontece ao mesmo tempo. Ganha movimento e os negros escravos vão se livrando dos seus tormentos. Brilha a este espírito de consagramento, a altivez do que é icomum, a atitude à eficácia, de uma “santa de olhos azuis”. Chega, livrando-se da mordaça, entre a luta e a sua audácia, a negra, que história batizou de Escrava Anastácia.

“Não se ri do destino”. A sua arte floresceu dos sonhos de quando ainda era um menino… Esculpe e dimensiona o seu cenário projetando ao mundo a tradução dos seus santinhos. Isso tudo me fascina, assim, como contemplo a cultura em meu caminho, vou saudando a criatividade de Antonio Francisco Lisboa, o nosso querido Aleijadinho.

Iluminem este palácio. As palavras vão dando conta do meu prefácio. A persuasão ganha vida, meio a discursos, projetos e publicações, uma revolução. Rumam à vitória da tão sonhada Abolição. Para minha grande festa, de forma exuberante e curiosa, tem gente que vem de barco, o meu maior fascínio. Recebam o Almirante Negro, o engenheiro André Rebouças e o político José do Patrocínio.

Assim como sempre quis a essa altura, em noite de festa e de gente feliz, personificado em verso e prosa, seu nome é Machado de Assis. Como em Memórias Póstumas de seu personagem define sua diretriz: a cada poema, crônica, frase um dissabor. Ora extraídos da dor, ora preenchidos com a docilidade deste grande escritor.

Entre linhas revelo o que sinto. O contemporâneo, ao meu olhar, deixou de ser um mistério sucinto. Sob a magnificência de um poeta, dedicado às letras, descobri a Pátria Mãe gentil: Cruz e Souza o maior autor simbolista do Brasil.

Vamos celebrar a glória de um povo que sabe rezar. Tantas origens de tal profusão. Tem batuque? É gira de candomblé. Lá vem Tia Ciata, Mãe Menininha do Gantois ao culto sagrado, que faz da reza um canto, a cada mãe de santo, um axé. Mas quem pode com mandinga não carrega patuá. Peço licença ao Ketu, ao Jejê e ao Nagô, para louvar o Orixá da justiça, nosso Rei Xangô.

O conto que a gente canta é a história que o povo faz. É o samba que os males espanta dos sambistas imortais. Certo do me conduz, vamos cantar sambar ir além do que propus. Unindo a moderna cultura negra brasileira à Mãe África com os belos sambas de Clementina de Jesus.

Nesse reduto de bamba, onde tudo é versado, vou deixando o meu recado. Entre o erudito e o popular ouço Clara cantar, vejo Chiquinha Gonzaga, ao som do piano, abrir alas pro meu povo passar. E sob a regência do maestro renomado, que de Carlos Gomes fora batizado, contemplo um “Guarani” a descansar.

Não há aquele que não preste atenção, na melodia de uma simples canção e não leve consigo o acorde “Carinhoso” de Pixinguinha em seu coração. Um marco ou um dilema? É Grande Otelo interpretando nas telas do cinema. Chega sem choro e sem dor, esbanjando alegria, com suas diversas formas de fazer humor.

Um importante momento! Inicia o primeiro ato da peça “Aruanda” dirigida por Abdias do Nascimento. Um súbito encantamento toma conta de todos. E não é pra menos: elevar a autoestima do negro brasileiro era o seu principal argumento.

A grande festa é a esperança, faz aliança é união. Com seu estandarte exalta a arte e acende as luzes da imaginação. No passo desse compasso o samba se une numa apoteótica celebração: Seu Nenê, Seu Inocêncio Mulata, Seu Carlão, Seu Pé Rachado e Dona Madrinha Eunice a inspiração.

E desse encontro mágico e universal chamado carnaval, bate forte o coração. A Nenê de Vila Matilde confraterniza, entende as razões, que no mundo do samba vale-se muito quando se respeita os pavilhões. Recebe Ismael Silva da Estácio de Sá, Cartola da Mangueira, Dona Ivone Lara do Império Serrano, Seu Calça Larga do Salgueiro, Paulo da Portela e estende nesta Avenida a sua maior paixão… De braços dados desfila o enredo do seu samba, ao lado desses eternos guardiões.

Celebrem, cantem forte, ninguém há de duvidar, que a Nenê é Chica da Silva e Chica da Silva é Nenê! Porque nascemos pra brilhar.

Carnavalesco – Fernando Dias
Pesquisa e texto – Marcos Roza

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