Lembranças de Joãosinho Trinta

Em março de 2009, o jornalista e sociólogo Bruno Filippo, diretor do Instituto do Carnaval, encontrou-se em Brasília com Joãosinho Trinta. No texto abaixo, ele relata detalhes deste encontro – e. ao fim, atualiza-o num post-scriptum que mostra bem o drama do carnavalesco.
 
De manhã, à beira do Lago Paranoá, na mansão cinematográfica que há dois anos o acolheu confortavelmente como morador ilustre da Capital Federal, Joãosinho Trinta é enfático: “As pessoas do Rio de Janeiro pensam que eu estou inválido, mas não sabem que minha mente está em ebulição; estou mais produtivo do que antes.” Ao terminar essas palavras, ordenou-me: “Anote aí. Está tudo na cabeça.”  (Leia abaixo)

Perguntara-lhe sobre o enredo que ele vem preparando sobre o cinquentenário de Brasília, e a resposta veio em forma de uma pequena sinopse que ainda não foi escrita, mas que está em sua mente. Os dois acidentes vasculares cerebrais que num espaço de nove anos, entre 96 e 2005, prejudicaram-lhe a fala e os movimentos não lhe diminuíram o poder da oratória, a capacidade de hipnotizar o interlocutor pela força com que expõe e defende suas ideias.

Na noite anterior, Joãosinho assistira, na sala de projeção da mansão, à ópera “Carmem”, que ele pretende remontar no Iate Clube de Brasília ainda este ano. Mês que vem, deve viajar à África do Sul. Está negociando participação na concepção da festa de encerramento da Copa do Mundo de 2010. Como de praxe, as cerimônias de encerramento fazem referência ao país que vai sediar a edição seguinte; a ele caberia, então, elaborar algo sobre o Brasil, palco da Copa de 2014.

Os tempos, de fato, têm sido bons para ele. Um livro de arte, de capa dura, com análises de todos os seus trinta carnavais, foi lançado com pompa na Cidade do Samba, antes do carnaval. Em Brasília, a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro (ARUC), fundada em 1961 por cariocas que foram transferidos para Brasília, conquistou seu 29º campeonato ao desfilar com enredo em homenagem a ele.

Preso à cadeira de rodas, Joãosinho é assistido 24 horas por dia por duas enfermeiras contratadas por Ricardo Marques, empresário e ex-secretário de cultura do Distrito Federal. Ricardo Marques é o dono da mansão que hospeda o mago do carnaval. Em verdade, é ele quem banca integralmente Joãosinho, das despesas básicas ao caríssimo tratamento médico. “Joãosinho Trinta era para ser um homem rico, milionário, por tudo que fez como profissional do carnaval. Mas, como gênio que é, nunca se preocupou muito com essas coisas mundanas, sempre ajudou as outras pessoas e se esqueceu de olhar para si”, diz Marques, que emenda: “Trouxe o Joãosinho para Brasília porque ele vai impulsionar o carnaval daqui. A capital Federal tem de ter um carnaval tão bom quanto o de São Paulo.”

Ricardo Marques é uma figura interessante. É pastor evangélico de uma pequena denominação de Brasília. Em sua mansão, nas noites de quinta-feira, realiza cultos, dos quais  Joãosinho às vezes participa. Marques não esconde que concilia o cristianismo com a Maçonaria, a que diz pertencer. E, desde que se tornou tutor de Joãosinho, acrescentou o carnaval a essa mistura que, para muitos, é de água com vinho. Tem pretensões político-partidárias. Pretende lançar-se candidato a deputado federal pelo PRTB, partido do vice-presidente da República, José Alencar. E, de roldão, convenceu Joãosinho a aventurar-se pelo universo da política. Joãosinho confirma que sairá candidato a deputado distrital pelo mesmo partido, ao qual já se filiou.        
 
Foi de Marques a ideia de promover a volta de Joãosinho Trinta à Beija-Flor num enredo sobre Brasília. No início de fevereiro a notícia vazou, muito provavelmente com o intuito de criar um factóide. Saíram notas em colunas influentes e um grande jornal de São Paulo chegou a estampar a seguinte manchete: “A volta triunfal de Joãosinho Trinta.” O problema é que ainda não havia nada fechado, até porque o enredo em homenagem à capital faz parte do projeto de marketing do governo do Distrito Federal, que vai liberar a tão sonhada verba para patrocínio. Outras escolas já se candidataram a esse enredo, e a Beija-Flor é uma das concorrentes. A escola escolhida será anunciada em abril.

Mas o factóide estava criado – e reacendeu uma das grandes polêmicas do mundo do carnaval. Laíla, manda-chuva da comissão de carnaval da Beija-Flor, veio a público dizer explicitamente que, se Joãosinho voltasse, ele deixaria a escola. Uma velha desavença, que vez por outra emerge, voltou à superfície: Laíla arvora-se um dos autores da ideia de levar para a avenida o já histórico Cristo Redentor censurado, e aproveitou o momento para relembrá-la. Dias atrás, confirmando o interesse da escola pelo enredo, Laíla voltou a dizer: “Só faremos esse enredo se não houver interferência externa, não aceitaremos isso.”

Mesmo assim, Ricardo Marques acredita que o poder do dinheiro fará a conciliação dos dois mestres do carnaval. E chega a dizer o seguinte, desmentindo tudo o que até agora tem sido publicado: “Laíla demonstrou muito entusiasmo pelo projeto. Existe uma grande expectativa pela volta de Joãosinho Trinta, que será uma espécie de conselheiro da comissão de carnaval. E Oscar Niemayer também estará presente, projetando um carro alegórico.”  

São 2h30m da madrugada. Joãosinho bebe, vagarosamente, uma taça de vinho após o jantar que terminara há duas horas. Nos longos intervalos entre os goles, repete várias vezes o elogio à comissão de carnaval de sua ex-escola: “São artistas fantásticos, que merecem todo reconhecimento. Laíla é extraordinário, conheço-o desde os tempos do Salgueiro, fui eu quem o levou para a Beija-Flor. São eles que farão esse enredo. Eu vou apenas orientá-los”.

Joãosinho responde, com detalhes, a todas as perguntas embaraçosas. Dá a sua versão para as polêmicas, faz revelações bombásticas sobre os bastidores do carnaval, fala de figuras conhecidas. Mas, para o desespero meu e dos leitores, fez-me jurar, antes das respostas, que nada seria publicado. Mesmo depois de sua morte. “Sou um homem de 75 anos, não tenho necessidade de mentir”, diz.
     
Antes de dormir, Joãosinho, sentindo o espanto que suas declarações causaram nas pessoas que acompanharam a conversa, abre um sorriso malicioso: “Vocês não sabem de nada!”. No dia seguinte, depois de observar o lago, pede à enfermeira que o leve de volta ao seu quarto. Ali, debruça-se sobre uma pilha de livros que, sob variados ângulos, narram a história da construção de Brasília.

Post-Scriptum – Como se sabe, Joãosinho Trinta não participou do enredo da Beija-Flor em homenagem a Brasília e não foi eleito deputado distrital (teve pouco mais de 200 votos), depois do que pediu a Ricardo Marques para mudar-se para o Maranhão, seu estado natal, onde pretendia ser enterrado, no que foi atendido nesta segunda-feira. Sábado à noite, quando Joãosinho morreu, Laíla apareceu choroso na televisão.   

Abaixo, leia a última sinopse escrita por Joãosinho Trinta. Seria para o enredo em homenagem a Brasília que a Beija-Flor escolheu para o carnaval de 2010. O texto foi ditado de cabeça pelo carnavalesco a Bruno Filippo, que o transcreveu.

Brasília é uma cidade predestinada. Tem uma significação máxima para o Brasil. É a única cidade que, com menos de cem anos de existência, foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade. JK mostrou ao mundo que, além de nossa capacidade criativa, tivemos a garra de superar desafios como esse – a construção, em pleno Planalto Central, de uma cidade que seria julgada não só pelo Brasil, mas também pelo mundo. Esse desafio teve dimensões imensas que nunca entraram no rol das indagações nacionais.   

O primeiro desses desafios foi a dimensão continental de nosso país, desprovido do meio mais fácil de comunicação que é a estrada de ferro. Tínhamos como ligação entre o Norte e o Sul, apenas os navios. Nos anos 40, durante a 2ª. Guerra Mundial, vários navios brasileiros foram afundados seguidamente pelos submarinos de Hitler. Se a 2ª. Guerra fosse vencida pela Alemanha nazista, teríamos nossa comunicação cortada, o Brasil seria dividido entre Norte e Sul.
   
Apesar disso, homens influentes e brilhantes, como Carlos Lacerda, travaram guerra contra a mudança da capital. Todo esse lado negativo foi vencido pelo dinamismo de Juscelino e por muitos homens brilhantes que a memória nacional já esqueceu. À inteligência de Niemayer e Lúcio Costa somam-se as de Athos Bucão, Israel Pinheiro, Bruno Giorgio, Bernardo Souza, Ernesto Silva, Coronel Eliodoro. Além, é claro, dos candangos que vieram de todo o Brasil.
     
Aquela extensão de barro vermelho foi transformada numa arborização abundante, que oferece a maior área verde por habitante do mundo e abriga toda a exuberância de plantas do bioma do cerrado brasileiro. Pois bem: ninguém esperava que essa exuberância viesse um dia a ser manchada justamente por quem deveria esmerar-se para cultivá-la. Brasília passou a ser sinônimo de corrupção, de escândalos, de um exército de malfeitores que trabalha para deixar o povo na miséria.

Tiradentes, José Hipólito da Costa (o fundador, em Londres, do primeiro jornal brasileiro, o “Correio Brasiliense”), José Bonifácio, Vanhargem, Marechal Deodoro e tantos outros grandes homens de vulto estão ligados à história da mudança da capital. Um astrônomo belga chamado Luiz Cruls, que chefiou uma caravana de técnicos que partiu do Rio de Janeiro em lombo de burros rumo ao Planalto Central, é hoje uma figura esquecida, mas muito importante. Ele chefiou a Missão Exploradora do Planalto Central, em 1892, com o objetivo de delimitar geograficamente a região da futuracapital. Isso um ano depois de a Constituição de 1892, a primeira Constituição republicana, ter previsto a nova capital para aquela região. É essa história, são esses grandes nomes que vamos resgatar, pois são eles o passado e o futuro do Brasil.

Comente no espaço abaixo: