Loucos pela Ilha e a primeira parte dos vídeos do Grupo C

Foi a epopeia mais incrível que já vivi. Eram pouco mais de 17 horas quando desembarquei na Intendente Magalhães. Vindo de São Paulo, onde pude assistir pela primeira vez aos desfiles de lá e sem dormir por conta de uma criança inquieta que a todo momento dava chutes na minha poltrona. Munido da velha filmadora que clama por aposentadoria e do tripé que após a atabalhoada noite acabei deixando por lá. Eu estava ciente e preparado para aquela que considerava a maratona sambistíca mais entusiasmante que vivi. Passados dois dias de espectador no Anhembi seria participante ativo no registro da festa na Intendente. A rotina de sempre: correr da cabine no meio da pista para a concentração e da concentração para a cabine. Tudo dentro da normalidade exceto pelo fato que seriam 16 escolas em uma noite. Fato este que me deixava animadíssimo.

Fui alertado por inúmeras pessoas do cansaço provocado pela maratona do Grupo C. Enquanto eu poetizava sobre a beleza dos desfiles ao amanhecer, muitos contra argumentavam com a questão da concentração estafante das últimas escolas; lembravam que as últimas e primeiras ainda enfrentariam o parco público e o excesso de motivação ou cansaço dos jurados. Era um debate perdido. Então restava ver o que aconteceria. E eu sem sono e sem dormir durante 72 horas, de pé graças a muitas latas de energético nas duas horas que antecederam o desfile aguardava a entrada da primeira escola da noite:

Unidos do Jacarezinho

 

O Jacarezinho chegou como grande favorito mas esbarrou na complicada posição de desfile. A cada ano convenço-me que abrir os desfiles na Intendente é pior que fechá-los. São poucas as escolas que sabem lidar bem com essa situação que destrói favoritismos como foi o caso do Jacarezinho. Não consigo encontrar muitas explicações que não essa para os componentes reconhecidamente aguerridos em tantos outros carnavais não repetirem a performance de outros anos quando a escola trazia um bom samba e um bom conjunto alegórico com belas fantasias. O sempre competente trabalho do carnavalesco Eduardo Gonçalves merece aqui meus sinceros aplausos.

Acadêmicos do Engenho da Rainha

Depois do samba da Ponte o do Engenho era para mim o melhor do grupo. Pelo menos melodicamente era um dos melhores disparado. O grande problema é que o Engenho mais uma vez padeceu da frieza do público e dos componentes dada a posição de desfile, em que o Jacarezinho também esbarrou. Por mais que se alegue que o enredo não tinha um desenvolvimento tão claro e que poderia render bons frutos, afinal falar de Portela é sempre uma boa pedida.

Vizinha Faladeira

Uma das mais antigas escolas do carnaval carioca, refundada por moradores do Santo Cristo enfrenta a mais grave crise desde sua refundação. Não sei até que ponto isso pode realmente ter influenciado, mas muitos componentes da Vizinha reclamam que a escola não conseguiu se adequar e entender a dinâmica dos desfiles da Intendente e continua presa aos tempos em que desfilava bem próximo de sua sede, seja na Rio Branco, seja na Sapucaí. Fato é que a Vizinha voltará ao Grupo D em 2012. E a caminhada de volta para a Sapucaí ficará cada vez mais complicada.

Boi da Ilha do Governador

Pela primeira vez desfilando em Campinho, o Boi da Ilha foi outra escola que enfrentou dificuldades para desfilar na Intendente. Uma proposta plástica interessantíssima do carnavalesco Guilherme Alexandre parece ter esbarrado em alguns problemas na sua execução. A comissão de frente, ao lado do intérprete Marquinhos do Banjo e o belíssimo samba foram os grandes destaques do desfile. A bateria do mestre Xula impressionou pelo tamanho, destreza e ousadia; merece deferências.

Unidos do Cabuçu

Esquentar com o belíssimo samba de 1988 é esquentar de verdade. A Unidos do Cabuçu fez história no carnaval precisa e mostra suas credenciais antes de cada desfile. Depois de dois anos onde poderia facilmente ter abocanhado o caneco este ano a Cabuçu não teve um dos anos mais felizes. A destacar apenas o canto sempre marcante da escola. Um fator que pode ajudar e explicar esse resultado tão frutífero do entrosamento dos desfilantes com o samba pode ser o calendário. A escola foi a primeira a escolher o samba para o carnaval 2011.

Rosa de Ouro

Como outras tantas escolas na Intendente Magalhães, a Rosa de Ouro de Oswaldo Cruz praticamente desfila em casa. A escola causa comoção no público presente e lota a pista desfiles com parentes e amigos dos componentes dela. Por um lado a escola vinha com uma boa sequencia de desfiles que a levaram ao grupo C em 2011. Por outro lado não conseguiu empolgar em 2011.

Semana que vem eu volto com mais seis escolas do Grupo C.

Na última coluna falei dos “mestres loucos” do prêmio sambanet. Hoje trago outros loucos, os “Loucos pela Ilha”. O enredo divulgado pelo Acadêmicos do Dendê é significativo para enterdermos o que significam essas “pequenas” escolas para a cidade do Rio de Janeiro. O Acadêmicos do Dendê desde sua fundação tem ligações estreitas com a União da Ilha do Governador. Não poderia ser diferente, pois boa parte de seus componentes e fundadores são ligados a União. Assim o Dendê construiu uma história referenciada pela União da Ilha. Em alguns momentos muito ligados e em outros apartados (como nos dois últimos anos quando a escola desfilou no mesmo horário que a coirmã insulana) ou em momentos de conflito. Essa relação atinge seu ápice com o anúncio do enredo para o carnaval 2012 que homenageará e contará a história da escola maior e mais antiga do bairro. Foi na União da Ilha que os grandes sambistas da Ilha do Governador criaram raízes e se fundamentaram para partir para outras agremiações e fundar novas. Esse é um momento muito interessante para observarmos o quanto essa proximidade e afastamento é importante para explicar a sobrevivência e vitalidade das pequenas escolas. Antes que alguém venha condenar e pedir que todas as escolas da Ilha se aglutinem em torno da maior. Antes que surjam os discursos que condenam a existência de 3 escolas em distância geográfica tão pequena. Antes dos discursos acusatórios, o Dendê ergue a voz para dizer: “somos gratos!” Mais do que gratidão o Dendê quer se aproximar para disputar. Sim, pois a estrutura competitiva que a escola faz parte é a mesma da União da Ilha. O Dendê que hoje busca a vitória no Grupo D poderia alcançar o Grupo Especial e disputar o título de melhor escola do Rio de Janeiro com a sua homenageada, União da Ilha. E quem dirá que o inverso também não pode acontecer, afinal quem diria que Vigário Geral e Unidos de Lucas se encontrariam no Grupo D?  E no dia em que elas se encontrarem no mesmo grupo e eu torço muito, no Grupo Especial a gratidão contará em nome do samba.

O lançamento do belo enredo acontecerá no dia 10 de junho na quadra da escola (Estrada do Dendê, 191 – Tauá – Ilha do Governador). Na ocasião a escola entrega a sinopse aos compositores e servirá risoto de frango a todos os presentes. A festança está marcada para começar às 21 horas.

Quem também escolheu  enredo e trocou sua comissão de carnaval foi a Unidos do Cabuçu. Os carnavalescos Marcyo Oliveira e Marco Aramha desenvolveram o enredo “Cabuçu da a Elza na avenida” . A dupla vem de um bom trabalho pelo Gato de Bonsucesso. O enredo pode ser interessante mas ainda paira suspense sobre qual será a abordagem. Pode ser uma série de coisas desde Elza Soares até a gíria que faz referência a gatunagem. Um bom exemplo da última abordagem foi o da escola virtual Sociedade Águia Real que desfilou com tema intitulado “Olha a Elza: Perdeu mané! Se gritar pega ladrão não sobra um meu irmão!!” e aplaudido no desfile da VirtuaFolia.

Coloco-me à disposição para trocar idéias e receber novidades sobre sua escola, de qualquer grupo e qualquer parte do Brasil no e-mail delezcluze@gmail.com