Luis Carlos Magalhães: ‘Ah! O julgamento…’

 

 

Todo ano é mais ou menos parecido, varia a intensidade.

Agora a presença crítica tonitruante de Boni e Laíla. Se não trouxeram luz, pelo menos trouxeram foco a um modelo de julgamento que está a reclamar inadiáveis medidas de sensatez e equilíbrio, ainda que o resultado tenha sido justo, premiando as melhores escolas, cada uma delas com ótimas possibilidades de ser a campeã.

Um resultado justo, um julgamento repleto de erros … Mas, como disse… varia a intensidade. Esse ”tititi” vem de longe. Enquanto as justificativas não são liberadas, que tal conhecermos algumas alternativas utilizadas por sambistas do passado em momentos semelhantes?

Era o tempo dos tablados da Presidente Vargas, entre a Uruguaiana e a Rio Branco. Pela primeira vez o público tinha que esticar o pescoço para cima para ver as escolas subirem no tablado e passar diante da comissão julgadora para julgamento. Tempo em que as escolas voltavam a se reunir em torno de uma mesma associação, deixando de lado as turbulências que as separaram em ligas diferentes no período entre 1949 e 1952.

Atento ao que ocorria com sua escola, temeroso das tramas da Portela de Natal, observador da Mangueira que estreava Delegado e Mocinha, curioso por saber como estrearia uma certa escola de cores vermelha e branca de um morro da Tijuca, o imperiano Francisco de Vasconcelos já dizia: “ Em 1954, quando despontava nos arraiais do samba carioca a escola Acadêmicos do Salgueiro, quando a descontração carnavalesca mais se enredava nas teias de complicados regulamentos ditados pelos poderes públicos (…) a Estação Primeira de Mangueira sagrou-se campeã somando 180 pontos, vindo em segundo lugar a Império Serrano com 177 (…). 

Os regulamentos daqueles anos, de retomada e afirmação das escolas no pós-guerra, determinavam a composição da comissão julgadora com apenas 5 membros: UM MAESTRO; UM ESCULTOR OU PINTOR; UM ESCRITOR OU JORNALISTA; UMA COSTUREIRA OU BORDADEIRA; UM COREÓGRAFO.

Interessante observar diferença de conceitos, a compartimentalização das áreas artísticas do espetáculo com a formação de cada julgador, não por quesito específico, mas por área de formação artística.

E como se dava isso na prática?: O MAESTRO julgava: BATERIA (0 a 10 pontos); HARMONIA (0 a 10); SAMBA (letra e melodia), 0 a 10; O ESCULTOR/PINTOR julgava: ESCULTURA (alegoria e iluminação): 0 a 10; a COMISSÃO DE FRENTE; O CASAL e o CONJUNTO (evolução e riqueza); O JORNALISTA/ESCRITOR julgava: ENREDO; COREOGRAFIA DO CASAL e, também, CONJUNTO e, também COMISSÃO DE FRENTE; A COSTUREIRA/BORDADEIRA julgava: FANTASIA; BANDEIRA (confecção e arte); COREOGRAFIA DO CASAL e CONJUNTO; O COREÓGRAFO julgava: também COMISSÃO DE FRENTE; também COREOGRAFIA DO CASAL; também CONJUNTO (evolução e riqueza) e FANTASIAS.

Interessante observar que os quesitos nobres BATERIA, HARMONIA e SAMBA tinham tratamento especial e eram julgados exclusivamente por um MAESTRO, assim como o quesito ESCULTURA, julgado com exclusividade pelo ESCULTOR/PINTOR, e o quesito ENREDO (motivo e descrição) também por um único julgador-especialista que era o 
JORNALISTA/ESCRITOR.

Já o quesito CONJUNTO, certamente por sua abrangência, era julgado por quatro julgadores diferentes. Outros quesitos eram julgados várias vezes por mais de um julgador, diferentemente de hoje quando o mesmo quesito é julgado quatro vezes por quatro julgadores diferentes: O CASAL, em sua coreografia, era julgado por quatro julgadores diferentes. A COMISSÃO DE FRENTE por três deles.

Como vemos, bastante original para nossos dias. Será que tal modelo poderá inspirar alguma adaptação para os tempos modernos tão conturbados? Uma comissão mais compacta, mais ligada no desfile como um todo, mais ajustada à Liesa? 

E ficar a imaginar se tal “dosimetria” de peso de cada quesito teria sido determinada de “orelhada” (gíria de então) ou se em decorrência de horas a fio de discussões. Já para o carnaval de 1956 o julgamento passaria a ter a mesma configuração setorizada, mas deixando cada quesito com julgamento de um único julgador, mantendo com cada julgador a responsabilidade de julgar mais de um quesito segundo a afinidade de sua formação técnico/artística: O MAESTRO julgava BATERIA, HARMONIA e MELODIA DO SAMBA (0.5); O ESCULTOR/PINTOR julgava ESCULTURA (alegoria), ILUMINAÇÃO e COMISSÃO DE FRENTE; O JORNALISTA/ESCRITOR julgava ENREDO e LETRA DO SAMBA (0.5); A COSTUREIRA/BORDADEIRA julgava FANTASIA e BANDEIRA (confecção e arte); O COREÓGRAFO julgava CONJUNTO e COMISSÃO DE FRENTE.

Fico ainda mais curioso com tal fórmula por ter constatado, como todo o mundo do samba, que “julgamentos-claramente-por-bandeira, como o deste ano, se perpetuam ano ano, tanto quanto “o julgamento-contaminado-pelo-quesito-conjunto”, como se pôde perceber agora.

Explico: da observação das notas em conjunto com as lembranças do desfile, fiquei com a impressão de que os quesitos em julgamento são contaminados,também, além das bandeiras, pela apresentação geral da escola, por seu CONJUNTO. 

Se é assim, com inspiração nos modelos de 1954 e 1956, porque não eliminar o quesito CONJUNTO, quando julgado especificamente, atribuindo-se a cada julgador a tarefa de julgar, além de seu quesito específico, o CONJUNTO. Se tal princípio é verdadeiro, poder-se-ia aplicá-lo também ao quesito EVOLUÇÃO.

Com a mesma inspiração, parece ser consenso, hoje, que a HARMONIA das escolas é determinada pelo carro de som, ao contrário daquele tempo citado em que, sem sonorização plena, o terror dos diretores era ver o canto atravessado na avenida comprometendo o desfile. Mas e se confiássemos naqueles antigos organizadores e eliminássemos o quesito HARMONIA como julgamento específico e passássemos tal atribuição para o julgador de samba enredo ou bateria.

O que trazemos aqui, que fique claro, é a busca de outros conceitos, já experimentados, e que podem servir de base para novas alternativas para o atual modelo que está a merecer inadiáveis medidas de ajustamento.

O carnaval de 2014 e seu julgamento deixam para o mundo do samba uma curiosa lição, a metáfora de seu próprio questionamento. Não há no mundo do samba um só pessoa que não esteja curioso ao máximo aguardando ansiosamente, com grande impaciência e expectativa, por algo que não virá.

Refiro-me às justificativas da julgadora Helenise Guimarães que deu nota 10 para os “carros” da Vila. Como sabemos, o regulamento determina que a nota 10 está isenta de justificativa, eliminando qualquer hipótese de esclarecimento do maior mistério dos carnavais deste século.

Que sirva pelo menos para acabar com isto de uma vez por todas. Nenhuma nota traz em si maior necessidade de justificativa que a nota 10. É ela que dá vitórias, nela que mora o perigo.

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