Luis Carlos Magalhães: ‘Anatomia de uma justificativa’

 

 

O julgamento de 2014 certamente deixará marcas.

Será? Ou será como em anos anteriores quando o tempo e os ares do novo carnaval acabam por jogar tudo naquele saco esquecido que já viu esse mesmo filme tantas e tantas vezes. Um julgamento que pode ser qualificado por seus marcantes e contáveis erros ou por seus incontáveis acertos?

A questão mais relevante e mais consequente é saber se todo esse sistema terá consequências, gerará algum aprendizado ou significará apenas aquela velha repetição de comportamento? Terá como consequência uma reflexão da LIESA, dos julgadores, da crônica carnavalesca e dos participantes do carnaval, inclusive de seus dirigentes?

Admitindo que não seja possível fazer um inventário de todas as justificativas, minha intenção é colher, em alguns quesitos, a justificativa que mais me tenha marcado e a partir dela trazer o debate.

Não é mais razoável imaginar que alguém ainda duvide que o julgamento é, hoje, o momento mais decisivo do carnaval? E que, queiramos ou não, os julgadores, hoje, são os principais personagens dessa festa se considerarmos que suas notas dão o rumo do ano seguinte.

Alguém tem dúvidas de que o ato de selecionar jurados, dar-lhes orientação, sobretudo fazer a avaliação de suas performances são as tarefas mais complexas de todo esse processo carnavalesco?

Claro que a direção do carnaval sabe disso tudo aí e dá a tais questões muita importância. É sempre bom lembrar que os corneteiros de sempre anunciavam a vitória da Beija-Flor, por sua força política aliada ao poder de seu homenageado, enquanto outros davam a Mangueira como favorita em razão da força de bastidores de seus recém retornados dirigentes, quase todos figuras tão proeminentes quanto competentes na organização do carnaval.

Mais uma vez nada disso aconteceu.

A pergunta é: será que, efetivamente, estamos dando a importância que a grandeza do espetáculo progressivamente impõe?

Há controvérsias… há controvérsias…

E de nossa parte, críticos do carnaval? Seja da imprensa carnavalesca, seja daqueles que, pelos sites, acompanham o carnaval de fevereiro a fevereiro, o que nos leva a criticar o julgamento, e as justificativas?

Depois de ler aquele calhamaço fico com a impressão de que a visão deles, dos julgadores, tão diferente das nossas, se dá porque em grande parte não vemos o que eles veem. Por outro lado, eles não veem o que nós vemos.

Se não vemos, em grande parte, o que eles veem é porque a base de seus julgamentos é o “ABRE ALAS”, livro a que poucos de nós temos acesso. Não veem o que vemos porque nosso referencial, ao longo do ano, são os sites carnavalescos e de relacionamento e a vivência de cada um nos barracões. Será esse o mistério, a razão de nos surpreendermos tanto com parte das notas e das consequentes justificativas?

Vamos ao caso do samba da Ilha:

Só para usar como exemplo, tomemos a apreciação e o julgamento feito pela julgadora Marta Macedo. Atenta, e até com nível de rigor acima da média para o quesito, a julgadora teve por base de suas apreciações as informações contidas no “ABRE ALAS” da LIESA, como poderemos ler.

Em nosso caso, como não temos tal conjunto de informações, e, sobretudo, porque acompanhamos todos os passos das disputas de samba em cada escola, temos como
referencial a sinopse fornecida aos compositores.

Nossa compreensão do samba-enredo vai desde a apresentação dos sambas em suas escolas, a disputa, a impressão deixada na quadra, a finalíssima, a gravação do disco e a trajetória do samba até o momento em que “a jiboia é esticada” na Sapucaí.

Mesmo que um ou outro julgador acompanhe o samba em alguns, poucos ou muitos, desses estágios, temos que a referência maior seja sempre o “ABRE ALAS”.

E foi assim que a julgadora escolhida pela clareza e explicitação de seus argumentos ao apreciar a letra do samba da Ilha, destaca em sua justificativa : “(…) versos 7 e 8 da 1ª estrofe (na vitrine…seu olhar) estão soltos na letra, não fazem sentido, mesmo após a leitura da explicação da letra no Abre-Alas”.

E aguça sua apreciação para trazer o segundo exemplo daquilo que estamos tentando demonstrar. Refiro-me ao trecho da justificativa em que a julgadora destaca: “ (…) verso 9 da 1ª estrofe (“perder ou ganhar, ganhar ou perder”) tem essa repetição de palavras que não tem função; parece que só está preenchendo espaço na letra (diferentemente da repetição nos versos 4 e 5 do refrão principal-“dar meia volta, volta e meia”- que tem propósito, já que faz alusão à cantiga de roda)”.

Pela assertiva absoluta, temos que a julgadora não tinha a menor dúvida da justeza de sua análise. E é assim porque sua referência, como dissemos, não tem como base o mesmo conjunto de informações transmitido ao compositor concorrente, através da sinopse, pelo carnavalesco que concebeu o “recorte” do enredo.

Está lá a sinopse se referindo a um brinquedo e àquele momento que tantos de nós vivemos em que olhamos um brinquedo na vitrine, sem poder comprá-lo, imaginando que o brinquedo (olhar de menino no olhar do brinquedo)também tivesse o desejo de ir conosco. Assim está na sinopse: “(…) quer saber onde ele foi feito? Em uma fábrica fantástica! E depois, presente na vitrine ou naquele comercial de TV. Como se lhe dissesse: “-Me compre, eu quero você!”.

O “ganhar ou perder”, que para a julgadora foi mera repetição de palavras, que apenas preenchia um vazio, para o carnavalesco, para a sinopse, para nós e, sobretudo, para o compositor representava os jogos de infância desde o meu tempo(bafo-bafo/búrica/encravo/carniça/disputa de pênaltis/pelada/dominó/par ou ímpar) aos tempos modernos dos jogos interativos, de super-heróis dos “smartphones” e das telas de computadores.

No recorte do enredo o carnavalesco dispôs na sinopse: “(…) Assim vivendo e aprendendo, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo. Lembre que jogar era o seu viver. No meio da garotada, com a sacola do lado, só jogava pra valer.”.

Mais que pertinente, poético, alegórico até, momento de rara inspiração para os dias de hoje, que o compositor assinale em seu texto musical os dois momentos contestados pela julgadora atentíssima ao seu referencial (ABRE ALAS) e desconhecedora do referencial do compositor (e nosso) que é a sinopse.

Disse o compositor em seu samba:

“(…)Na vitrine vejo o meu olhar no seu olhar
Perder ou ganhar, ganhar ou perder
Se conectar, jogar e aprender
Um super- herói pode ser você”.

A pergunta que cabe é: a julgadora recebeu a sinopse ou somente o ABRE ALAS?

A intenção aqui longe de desmerecer o trabalho certamente honesto e dedicado da julgadora, é trazer os diferentes focos de apreciação e julgamento.

Longe de afrontar ou diminuir a difícil tarefa dos julgadores, e de quem os escolhe, orienta e deles cobra, a intenção aqui é unicamente a de contribuir para ao melhoria dos processos de avaliação e julgamento dos desfiles.

Como pode um sistema tão complexo de avaliações, em meio a tantas situações insolúveis cujo maior exemplo é seu caráter subjetivo, ou a hipótese de fechamento de envelope a cada dia, como pode, repito, tal sistema ser tão centralizado.

Julgamento e justificativas à parte, o curioso é que, do tão festejado desfile da Ilha, meu reparo se deu relativamente a não alegorização dos trechos contestados do samba. Na minha visão a escola poderia ter chegado ainda mais longe, para além do belíssimo resultado alcançado.

Ali do meu cantinho imaginei justamente a alegorização daquela cena do menino na vitrine, olho no olho com o brinquedo, desejando seu brinquedo favorito sem poder levá-lo para casa. Aquela cena em um carro alegórico.

Mais delírio ainda seria a carnavalização mágica do trecho da sinopse e do samba quando o barro em que tantas vezes brincamos se transformava em ouro daquelas minas fantásticas de que só existiam em nossa imaginação.

Isso mesmo! Eu queria mais aquela alegoria. Voltar no tempo e ver o barro se transformado em ouro em plena avenida.

Delírio puro, reconheço. Mas os culpados foram a Ilha e seu carnavalesco que me levaram a tal estágio de desejos.

Aquelas, para mim, foram as alegoria que faltaram. As que seriam as mais bonitas de todo o carnaval; que emocionariam a Sapucaí e fariam da Ilha a campeã dos mais saudosos, bonitos e inesquecíveis momentos da infância de cada um de nós.

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