Luis Carlos Magalhães comenta proibição das faixas das torcidas nas arquibancadas

Duas coisas foram e são muito importantes nos carnavais que estamos vivendo. Uma os ensaios técnicos, por tudo que tanto já declarei e por toda a alegria que me dá e à minha família. A outra é a presença mais-que-sadia das torcidas organizadas das escolas de samba nas arquibancadas, tanto nos ensaios técnicos quanto nos dias dos desfiles oficiais.

Não conheço os grupos das outras escolas, conheço os ligados à Portela. Mas é pelo que me dizem os grupos Portelenses que acabo conhecendo os grupos das demais, mesmo que indiretamente.

Pessoas qualificadas, com objetivos de vida definidos, voltados para uma tarefa mais que louvável de fortalecer exteriormente suas escolas, sem qualquer vínculo institucional com a “escola oficial”, dentro da melhor sintonia com os mais modernos cânones de participação da democracia moderna.

Foram para a rua protestar pacificamente contra atos que consideraram equivocados praticados pela diretoria da escola. Foram ao órgão oficial das escolas apresentar clara e transparentemente suas questões sem qualquer subterfúgio.

Foram às quadra defender honestamente e com toda paixão aquele que consideraram o melhor hino para a escola, participando de todos os degraus da disputa. Hoje há o reconhecimento geral do quanto se empenharam e do quanto e quão legítima eram suas lutas. E hoje estão lá, dia-a-dia no barracão, lado a lado com o carnavalesco ajudando, cooperando sem qualquer interferência em tudo que lhes for possível fazer. Prova de amor. Só isto, prova de amor pouquíssimo vista em carnaval já tão mercantilizado.

Para eles não importa. Só importa suas escolas, a manutenção de suas histórias e tradições. Nunca pediram nada em troca, um único centavo, um único favor. O tal amor incondicional de que tanto só ouvimos falar. E, mais importante, sem qualquer vinculação eleitoreira.

Belíssimo exemplo de postura sadia, desprendida, solidária, absolutamente saudável e Deveriam se louvadas, homenageadas por todos nós, pelas direções das escolas e pela direção geral do carnaval pelo padrão de conduta que só faz marchar a favor dos melhores rumos desta festa que tanto nos orgulha. E agora leio a coluna de Ricardo Delezcluze dando conta da inacreditável proibição imposta às torcidas.

Sei que o bom senso seria neste momento bom conselheiro. Nada mais prudente que aguardar o ensaio técnico de logo mais, ou mesmo aguardar a ação de algum repórter, no sentido de ouvir o Presidente Castanheira, o diretor Elmo sobre as razões que presidiram esse gesto, até porque estou curiosíssimo para conhecer a origem de iniciativa tão drástica, que interesses estariam confrontados, tudo tão sem diálogo, sem ponderações com os atingidos.

Seja qual for o motivo, será que era a única alternativa?

Tanto Castanheira quanto Elmo merecem tal postura, só assim não procedo por considerar que meu dever de solidariedade e de protesto fala muito mais alto neste momento. E, além do mais, duvido que tal determinação tenha partido deles. Duvido mesmo! O desfile ficará mais “clean”. Leia-se: não vai ter mais aquela gente ali se emocionando, apaixonada por sua escola.

E assim marcha a festa que ainda é da alegria, fundada na paixão, na emoção, em algum desvario que lhe resta. Marcha para onde? Para a racionalidade plena? Para a maximização de suas potencializações mercadológicas? Um espetáculo meramente para ser assistido, telespectadorizado?

Fico imaginando a cabeça de quem toma tais iniciativas. Claro que deve ser ultra competente, vitorioso em sua qualificação profissional, reconhecido, quem sabe até invejado. Certamente orgulho de seus filhos, suas famílias, belíssimos apartamentos, carros de alta qualidade e conforto.

Será que não há um segundo sequer de seu tempo para imaginar que “seu tempo” ali vai passar? Que daqui a setenta anos será apenas mais uma foto na estante? Será que não imagina que uma festa tão característica, tão definidora da marca, da cara de sua gente merece algo mais que estar em uma prateleira para ser vendida para distantes germânicos, asiáticos e poloneses?

Será que mentes tão qualificadas, tão privilegiadas, tão bem formadas não serão capazes de extrair mais resultados financeiros sem ferir algo que foi construído ao longo dos tempos, mudança por mudança, tradição para tradição? Sem cravar o punhal fundo e torcê-lo mais e mais, mais do que já vêm torcendo?

A festa do réveillon já está sem o “povo do santo”, o Maraca sem a geral, as arquibancadas, aquelas velhas tardes de domingo sem as bandeiras de nossos clubes,já acabaram até com a Praça Onze.

Quem acabou com ela já não é nem mais retrato na prateleira. Mesmo assim a carnaval está lá, sua memória está vivíssima, cantada em quase todos os carnavais pelos descendentes do povo que a celebrizou.

As coisas criadas pelo povo ficam, de uma forma ou de outra, mesmo quando esfaqueadas por competentíssimos executivos temporariamente conduzidos ao trono. Pena que não haja república, pena que a república não os atinja, ainda.

Logo agora, com aquelas arquibancadas novas, logo agora com sambas tão bonitos, com perspectivas tão boas para os desfiles que andavam à meia-bomba, chega uma notícia dessas. Tão pesadamente negativa, tão pesadamente anti-carnavalesca, sobretudo anti-democrática.

Quem sabe a justiça se faça. Sim, aquilo ali, quando alguém adquire um ingresso para um desfile está firmado um contrato, mesmo que não assine nada. É titular de direitos e obrigações reconhecidos mesmo que não estipulados.

Não há nenhuma norma ou cláusula, pelo menos para este ano, impedindo que os adquirentes de ingressos, consumidores enfim, levem para a pista os instrumentos de sua paixão, desde que, é claro, não atrapalhem os demais adquirentes-consumidores. Ali, cada torcedor daquele é um consumidor. Portanto, justiça neles, república para esses imperadores tardios, pretensos donos do nosso carnaval.

O pior de tudo é tanta gente boa por aí, boa mesmo! , super bem intencionada, embarcando nessa canoa e achando que somos meros representantes de um romantismo que não existe mais.

Dói pra caramba!

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