Luis Carlos Magalhães escreve crônica sobre livro ‘As Três Irmãs’

 

 

AS TRÊS IRMÃS …

O que se espera de um livro sobre o carnaval e as escolas de samba? Informação e mais informação, certo? Mas que tipo de informação?

Para muitos as que lhes traga entretenimento, sobretudo para os “habitantes” daquele universo específico. Para outros, revelações, menos ou mais surpreendentes. Para tantos o detalhamento de momentos menos ou mais importantes, de menos ou mais históricos desfiles.

Para mim e para muitos outros, base de pesquisa, de procura e investigação.

Tudo isto temos aí em livros já editados, em quantidade e em qualidade quando tratam de Portela, Mangueira, Império e Salgueiro. Tanto em discografia quanto em textos.

O livro de Fabato, Alexandre e Alan além de cumprir relevante papel quanto às três irmãs, e quanto ao carnaval das últimas quatro décadas, também aponta para uma questão preocupante.  A questão é: mesmo aqueles textos e autores direcionados às quatro grandes do passado, pilares de todo esse universo, será que estão mesmo disponíveis?

Salvo uma e outra reedição os livros estão esgotadíssimos e só encontráveis, com muita sorte, nos sebos especializados da cidade.

O livro cumpre ainda importante papel de apontar a falta de material de consulta sobre os últimos carnavais das demais escolas.

Mas uma escola de samba não é formada só por vitórias. A alma de cada uma e de seus “heróis” constituem elementos de perpetuação na história e de admiração futura. Será que Pinah, Selminha são apenas aquelas cujas imagens nos foram deixadas pela Tv? Será que André foi apenas o que mais se destacou no seu tempo? E Maria Helena, apenas a que ficou mais tempo com a bandeira?

Muito longe da visão biográfica, cada autor cuidou de pinçar cada um de seus ídolos à luz da emoção que semearam e despertaram.

É João Trinta, Rosa Magalhães; é Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues, Renato Lage, referências do carnaval trazidas em seus mais importantes e criativos momentos vividos à frente de cada uma das “três irmãs”.

Mais que a narrativa pessoal do momento em que cada paixão se revela, as histórias são complementadas com a contextualização de cada momento do carnaval, com ricos detalhamentos de alguns dos principais desfiles.

É assim que a chegada e a influência do jogo na nova configuração vencedora das três  ficam didaticamente dispostas em “O Patronato em três atos”.

Os bastidores de um grande enredo derrotado na pista recuperados com requintes de “barraco” da melhor qualidade em torno de ícones do porte de Elza Soares e a histórica porta-bandeira Remba em “Mulheres à beira de um ataque de nervos”.

É enfim a história rodando ao trazer o dinheiro do jogo, a entrada em cena das comissões de frente espetacularizadas. O novo momento trazido pelo maior dimensionamento de fantasias e alegorias tratado com maestria em “O lixo que é um luxo”.

A visão passada até aqui, em grande parte dos livros editados, é de fora para dentro; análise distanciada de especialistas olhando da platéia para o palco. Aqui, longe disso, ora de fora ora de dentro de suas escolas, as narrativas ganham outra dimensão quando sentidas de dentro para fora, do coração de cada um para a cabeça de todos nós.

Não sei se intencionalmente Alexandre deixou para o final o que para mim é a maior marca da Imperatriz: suas comissões de frente. Sendo o quesito mais transformado desde sua criação, o relato didático, claro e inspirado nos traz a perfeita compreensão de sua evolução, da importância que adquiriu e do papel que exerceu para elevar o prestígio leopoldinense. Não deixa dúvidas de que sua escola foi a motriz do novo status do segmento sem deixar de fazer justiça ao coreógrafo Fabio de Mello.

Para Fabato, também não sei se intencionalmente, coube a narrativa de suas dores e mágoas relativas aos momentos em que sua escola foi impiedosamente castigada pelos julgadores. Mais do que apontar aqueles momentos, não satisfeito, também não sei se intencional, guarda para sua última participação a parte mais bonita de tudo, mais bonita ainda do que qualquer relação de qualquer um de nós com qualquer de nossas escolas: aquilo que um filho sente sobre seu pai quando menino.

E aqui me cabe apontar, que me desculpem Alan e Alexandre, o que  mais lamentei. A escolha da capa foi perfeita e não podia ter privilegiado qualquer dos autores. Mas ao ler o texto de “O MENINO, A TEVÊ E O POETA”, e ao ver na página ao lado o desenho de Leonardo Bora, prova da formidável sensibilidade de artista, desejei que fosse essa a capa do livro tal sua força de representação de duas marcas tão importantes na vida do autor estampadas naquele bonezinho de menino e da emoção que as imagens da TV provocavam naquele pequenino  ser que habitava as nuvens da imaginação.

Tão bonito e tão forte quanto a revelação de outro menino, lá da tão afastada Fortaleza, tão distante da folia, perdido nas asas de um beija-flor. Ali Alan equivocadamente acha que revela somente o segredo do seu  amor nascente por sua escola. Equivocadamente, repito.

O que Alan realiza ali, ainda que sem querer fazê-lo, instintivamente, é a revelação da força formidável do carnaval e das escolas de samba por tantos meninos e tantas pessoas por esse país afora.

A experiência do menino Alan mostra que não é é nas cores, nas imensas alegorias, no glamour presente nas pistas que reside a força de atração, do magnetismo daquele espetáculo. Como pôde uma televisãozinha pior que um rádio barato, quase sem som, totalmente sem cores ter sido mais que suficiente para detonar sua imaginação, seus sonhos e seus voos?

 As mágicas luzes de uma ribalta distante que só ele via, ou ainda: que nem ele via.

A melhor maneira de recomendar o livro é, sem dúvida, tomar dele as palavras iniciais do mestre Cabral. Ou nem isso, basta pegar o título do prefácio: “UM LIVRO, UMA AULA”.

 Fico imaginando se Cabral um dia dissesse isto de algum texto meu, ou de algum livro com minha participação.

Como velho interessado no tema, Cabral, do alto de toda sua trajetória, agradece aos autores ao dizer “(…) com deslavada imodéstia, que considero o trabalho deles –para minha honra, não posso esconder- uma espécie de continuação melhorada dos dois livros que escrevi sobre escolas de samba”. (…) eles trataram de demonstrar que, agora, a história é outra.  Resta-me somente (…) e cuidar de aprender, com detalhes, o que ocorreu com as escolas  de samba no final do século XX”.

 Bem, “melhorada” à parte, por conta de sua polidez – “noblesse oblige” -, Cabral não exagera muito e eu sou testemunha disto. Grande parte do que consegui acumular de informações sobre a Portela, Mangueira, Império e Salgueiro foi colhida nas páginas por ele escritas.

Mas e daí? E o futuro?

“Que seriam dos grandes mitos, deuses e heróis se não houvesse quem contasse suas histórias”. Uma (…) “memória efêmera como a própria festa. Vive de instantes que nunca mais se repetirão”. Palavras do pósfácio perfeitamente encaixado com a proposta do livro, sábias palavras do ”carnavalescante” indomável João Gustavo Melo, também merecedor do ouro, incenso e mirra que tão generosamente oferece aos que vivem para narrar esses feitos.

Como buscar, e reverenciar, sambistas e ícones das outras escolas se não sabemos nada sobre eles. Como conhecer a beleza não só dos desfiles como a beleza da alma dessas escolas se não há informações disponíveis.

Com paixão, sim… com algumas ou muitas queixas doloridas, os autores cumprem  esse papel.

 Não só para esta geração como para as futuras.

 Quem sabe um dia, lá no futuro, um outro menino,  também  com chapeuzinho da Mocidade,  depois de ver sua escola pela TV, possa buscar neste livro, ou em sua disponibilização na web,  os fundamentos  de sua paixão, ainda que muito tempo depois,  mesmo que seu pai não seja tão folião, tão presente, tão querido como aquele outro  pai de um passado  que  já  então estará  tão distante.

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