Luis Carlos Magalhães: ‘O Paulo Barros que virá’

 

 

Quando se imaginava que o mau julgamento seria “tsunami” suficiente, eis que um único passo da dança  das cadeiras deixa tudo parecer chuva de verão. E é desta tempestade maior que respingam análises e considerações díspares, ora enaltecendo, ora desclassificando a forma tão festejada de “fazer carnaval” do ícone do atual carnaval  brasileiro. Daquele que, independente das cores que defenda, faz convergir para si toda  virtude ou todo pecado  das escolas em que atue.

Este artigo não pretende outra coisa senão abordar, sem paixão ou “parti  pris” , o atual e o futuro momento de nossos desfiles à luz da trajetória e do novo rumo tomado por  Paulo Barros. Para tanto, parto da  experiência pessoal vivida neste ano, desfilando por minha escola, 15 anos depois de vestir uma fantasia pela última vez, desde que me meti em coberturas radiofônicas de carnaval. De “terno linho e chapéu Panamá “ vinha eu orgulhoso voltando do desfile, por  trás das arquibancadas, encontrando, a cada passo, alguém a bater em minhas costas e a  me dirigir palavras de reconhecimento.

“Isso é uma escola de samba”. Diziam…

No sábado das campeãs as cenas se repetiam, já então com a comparação do desfile campeão da Tijuca. Muitos diziam ter sido a Portela a “campeã do samba”. Não posso negar que tais comentários sejam justos justos e que me encheram de euforia, mas… será essa uma verdade absoluta?, me perguntei.

Sempre, invariavelmente, os comentários vinham seguidos de apreciações negativas relativas ao modelo Tijucano de encantar plateias, ao modelo de seu carnavalesco encantar, além de plateias, a imprensa  e a comissão julgadora.

Trago o tema à discussão nestes exatos termos por considerar tais posições como forma simplista e incompleta de encarar a questão, e que não conduzem a lugar algum. Quem  acompanha tudo de perto sabe que, a cada ensaio técnico, ainda despida de fantasias e alegorias, a escola demonstrava o quanto estava preparada naqueles quesitos  tão imprescindíveis para alcançar o título. Ao longo de anos e anos assistimos a ensaios impecáveis, bateria formidável, casais sempre top, canto apuradíssimo, evolução deslizante.

Sim, uma escola de samba no mínimo tão boa quanto qualquer outra, sempre competitiva e, portanto, sempre a um passo da vitória. E vinha o carnaval. 

Tudo aquilo que víamos no ensaio técnico víamos também nos carnavais com fantasias e alegorias. Excluído o ano do “SEGREDO”, por incomparável, a escola alternou grandes e menores apresentações arrebatadoras de plateia e  encantadoras de jurados, marcando claramente os enredos encomendados e autorais

E o tempo trouxe reações. Até em censura ouvimos falar: “proibir aqueles truques”, “não é carnaval”, é “circo”. Cumprindo o regulamento, a escola seguia ora vencendo ora “batendo na  trave” deixando para muitos a certeza , ou a impressão,de que todo mérito era do carnavalesco.

A questão relevante, decisiva, que se coloca, então, na minha maneira de ver é: o que , afinal, estará fazendo a diferença? A despeito do sucesso dos espetáculos oferecidos pela escola, o que estará dando a vitória para a Tijuca, como neste carnaval. Quanto mais ficava claro que Paulo Barros fazia a diferença, mais me intrigava a questão da forma de julgar não só do conjunto dos quesitos, quanto os quesitos específicos do conjunto alegórico e de conjunto.
 
Neste ano de 2014, por exemplo. As quatro primeiras escolas, com chances reais de vitória, se equivaleram na pontuação dos quesitos, assim considerado quando a diferença não ultrapassa a dois décimos. As maiores diferenças verificadas foram no quesito samba, em que a Tijuca foi atingida em seis  e nove décimos, considerando, ou não, o descarte. Da mesma forma a Tijuca saiu em vantagem de três décimos em alegorias (com descarte), alcançando cinco décimos sem dascarte que, em nossa análise, é importantíssimo porque revela o conceito do julgador.

Se considerarmos, como deve ser feito, a influência do quesito “alegoria” na avaliação do quesito “conjunto” a diferença aumenta em dois preciosos décimos contra as escolas Salgueiro e Ilha. Não é, pois, nenhuma maluquice  considerar que, na contagem final,as alegorias da Tijuca fizeram a diferença  em uma vitória por um único e dito  “descarnavalizado” décimo. (É preciso, no entanto, considerar que a Tijuca gabaritou (quatro notas 10) em 5 dos 10 quesitos. Desconsiderando os descartes a escola alcançou 8 notas máximas em 10 quesitos. Como contestar uma vitória dessas? Só se considerarmos alguma condição extra-carnaval, que não é o (meu caso) ou a incompetência absoluta dos julgadores que, também, não e o meu caso).

Voltando ao quesito ALEGORIA podemos fazer a seguinte leitura: algumas escolas ofereceram ao público, a aos jurados,  alegorias esmeradas do ponto de vista artístico. A Tijuca trouxe suas alegorias “não-ou-pouco-fantasiadas” que representavam postos de gasolina, pistas variadas de automobilismo. Tudo absolutamente dentro do enredo, ainda que sem fantasias, reproduções teatralizadas de “coisas” tal como elas são na vida real.

Assim eram os personagens, reproduzidos tal e qual são na “vida real”. Ou a leitura correta será: a tijuca trouxe as alegorias que , carnavalizadas ou não,foram facilmente identificadas pelo público no conjunto de seu enredo.

E aí? Como julgar? Que fatores estarão sendo decisivos? Estará a plateia, e também os jurados, se deixando levar por truques e magias? Estará o elemento surpresa, o inesperado, o inusitado superando o elemento carnavalesco, a arte específica do carnaval?

Quem saberá?

Que tal jogarmos um pouco de ficção nesse debate e convidarmos o Nobel  Mario Vargas Llosa para dar sua opinião tão respeitada nos círculos culturais de todo o mundo. 

Em seu livro “A Civilização do Espetáculo-uma radiografia  do nosso tempo e da nossa cultura” o desesperançado pensador  refere-se  a nossos tempos  (nossos carnavais, portanto)em que “(…) a globalização (…) apaga fronteiras e faz com que a cultura deixe de ser elitista, erudita, excludente para se transformar numa genuína cultura de massas, que,em oposição ao espírito das vanguardas, tem como meta oferecer entretenimento à maior quantidade possível de consumidores de todas as classes”.

E aí? Ajudou ou complicou?

De tudo uma certeza: nada é proibido, nada poderá ser proibido à luz do regulamento e da plena e livre criação. Houve quem propusesse que, em reação, todas as escolas produzissem igualmente alegorias “paulobarrianas”. Em que resultaria? “Menos carnaval e mais show ou fim do carnaval e “todo-espetáculo”?

A plateia – sabemos – gosta, gosta muito; os jurados também e a torcida da Tijuca não para de crescer, pelo menos até aqui.  Mas e do ponto de vista das demais escolas, que fazer? Como derrotá-la?  Com desaforos? Com censura? Com rancores?

Só há uma coisa a fazer: seguir o exemplo do Salgueiro, Portela e Ilha, neste carnaval, que quase derrotaram a Tijuca. “Tente outra vez”, como cantou a rapaziada do “TOCA RAUL”, muito longe da Sapucaí. 

Como todos sabemos, o próprio Paulo Barros teria se desnudado dessa função de “carnavalesco” para vestir e afirmar sua condição de “fazedor de espetáculos”. Ou seja; o próprio objeto da discussão trouxe luz a ela. Longe de vestir a roupa alheia caberá às escolas desfilar seus próprios estilos, com enredos convincentes, sambas bonitos, sem inventar maluquices, sem contar histórias fantasiadas e alegorizadas de forma insípida, inodoro e (só)color. Dar ao público, a ao julgador, enfim, a opção: espetáculo ou carnaval.

Sendo assim, a única verdade de toda essa história é que a decisão dos próximos carnavais, mantido o equilíbrio dos demais quesitos, dependerá da personalíssima  concepção dos julgadores quanto à natureza da festa,  qual o conceito do que deve ser efetivamente valorizado.

Ponto.

Agora o grande destaque do nosso carnaval vai para a Mocidade Independente de Padre Miguel, honra e glória da nacionalidade, a mais sensual de todas as escolas, marcada por três grandes contadores de enredo, marcante e marcada por grandes carnavalescos.

Como se sairá um “não-contador-de histórias” em uma escola marcada por formidáveis contadores de histórias? Considerando que a Mocidade até lá se aprimore nos variados quesitos, será fácil apenas aplicar a ela a “espetacularização” característica do novo modelo?

A saída de Paulo Barros da escola que o consagrou foi marcada por uma frase tão bombástica quanto sua decisão de sair. Algo parecido como “a verdadeira liberdade se dá quando nos livramos daquilo que nos faz mal”. Olha, brasa pura!, talvez a frase mais dura dita por um componente ao deixar sua escola em toda a história do carnaval.

O que, afinal, lhe fazia tão mal na Tijuca?

Se completarmos tal frase com outra também a ele atribuída, a respeito de enredos autorais, não patrocinados, não encomendados, nos será dado especular no sentido de que, em seu novo barracão, poderá fazer o que quer, ele próprio determinar o alcance de seus voos.

Que seu inteiro talento poderá aflorar, para euforia da nação independente.

Deixará para trás a  marca de carnavais quase esquecidos “off” Tijuca, como a Viradouro, revigorará a exuberância inigualável, para mim, do requinte absolutamente carnavalizado da Vila da centenária maravilha, ao lado de Alex de Souza em 2009?

Fará carnavais “antropofágicos” transformando Michel Jackson em “neguinhos do morro” ou continuará reproduzindo modelos já existentes e não fantasiados do universo pop?

Não sou eu que pago seu salário, nem mesmo sou torcedor da escola. Não é comigo que estará preocupado em seu novo  barracão. Que faça o seu carnaval, e não o meu. Que puxe e provoque no seu encalço a criatividade dos demais, é o que quero. 

Será um novo tempo dentro do novo tempo do carnaval que seu estilo inaugurou. Tempos, enfim, que o tem favorecido, se contarmos mais uma vez com a visão desanimada e pessimista  expressada  por Vargas Llosa quando identifica o desaparecimento do vocábulo “cultura”, esvaziado de conteúdo. 

Carnaval, simples distração ou espetáculo, a “arte” de Paulo Barros, ao que parece na visão de Llosa, triunfará  “(…) em um contexto no qual a cultura se aproxima cada vez mais do entretenimento e se afasta da reflexão“. Cultura e entretenimento passam a se equivaler, concluo.

Tudo cabe neste momento de efervescência propício a que se deixe entrar a luz, exceto censura e preconceito. Se nossos tempos nos confundem, se já não há mais ou se ainda há cultura, se há arte ou se é entretenimento, o que é relevante para nós, eu, você, Paulo Barros e os demais personagens desta festa é a compreensão do que é ou não é carnaval.

Enquanto pensamos os julgadores julgam, interpretam, dão notas dez. Cabe a eles a compreensão objetiva, aqui e agora, do espírito carnavalesco, razão de ser do carnaval.

Como sempre foi, aliás. Só que, agora, mais do que nunca. 

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