Max busca inspiração em seu último título para fazer Jorge Amado na Imperatriz

Fugir do lugar comum. Esta parece ser a aposta do carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense, Max Lopes, que, em 2012, terá a grande responsabilidade de desenvolver o enredo sobre o escritor Jorge Amado. Sempre bem-humorado, o experiente carnavalesco exaltou o tema escolhido pela Rainha de Ramos e nos contou como pretende desenvolver o enredo. Engana-se quem pensa que o desfile da Imperatriz será uma viagem pela literatura do escritor, Max foi buscar detalhes da vida pessoal de Jorge Amado em Salvador.

Pela diversidade de acontecimentos na vida de Jorge Amado, Max Lopes resolveu traçar a mesma estratégia de quando foi campeão pela última vez do carnaval, em 2002, com a Mangueira.
 
– Vou fazer o Jorge Amado como eu fiz o Nordeste na Mangueira. É difícil falar de um Nordeste inteiro com tantos assuntos relativos, então escolhi cinco ou seis assuntos, assim eu fiz também com Jorge Amado. É um grande enredo, não é um assunto. Eu e o presidente decidimos fazer. Aproveitamos o centenário dele para prestar uma homenagem merecida. Falaram mal falado. Não foi tão descritivo e elaborado como estamos fazendo.

Para seguir a linha mais intimista, Max viajou até a Bahia e conheceu alguns familiares de Jorge Amado, em especial o filho do escritor, que chegou a confessar ter pena do carnavalesco para condensar todas as informações sobre seu pai em apenas um desfile. Ao ler a sinopse, porém, de acordo com Max, João Jorge Amado parabenizou o carnavalesco por conseguir resumir em apenas algumas frases o estado de espírito de seu progenitor.

No meio do processo existe o samba-enredo, que precisa estar em conformidade com o que a escola vai apresentar na Avenida. Talvez em função disso, muitas pessoas tenham estranhado o fato da obra fazer poucas alusões diretas à carreira de Jorge Amado. Max revela que isso foi proposital e determinante para que a obra de Jéferson Lima, Ribamar, Alexandre D´Mendes, Cristóvão Luiz e Tuninho Professor vencesse a disputa.
 
– Pedi que o samba fosse uma homenagem, que não ficassem pontuando o enredo, pincelassem algumas partes do enredo, mas que não deixassem de falar da Bahia. Tudo dele tem relação com a Bahia. A única manifestação dele que não se passa na Bahia é 'O país do carnaval', que se passa no Rio de Janeiro. Ele participava de tudo, da lavagem do Bonfim, das rodas de capoeira, daquilo tudo, então você tem que falar da vida dele, não só da literatura. A literatura é um capitulo desse enredo. Na época do 'Liberdade, Liberdade' ninguém queria, mas eu bati o pé e deu certo. Pedi aos compositores que fizessem uma defesa do samba e ela ficou perfeita. Ele conta o enredo nas entrelinhas, não é qualquer um que entende. Os outros sambas eram muito descritivos. Aí corre-se o risco de acontecer que houve no ano da religião(2010). O samba era lindíssimo, mas era pesado, acabou arrastando na Avenida – explicou ele.

A forte ligação de Jorge Amado com a religião também será lembrada no setor onde serão retratados a lavagem do Bonfim e a 'feitura' do escritor no candomblé, onde foi um dos obás de Xangô no terreiro Ilé Axé Opó Afonjá. Além de Amado, Tom Jobim e Caetano Veloso estavam entre os obás. A amizade com Pierre Verger, família Caymmi, Caribé e a forma perfeita de retratar o Mercado Modelo ganharão menção, assim como o Pelourinho e os vários personagens de livros infantis, pouco conhecidos do grande público.

O carnavalesco também lembrou a relevância cultural do enredo, num momento em que se lê cada vez menos livros no Brasil.
 
– Estudei em Colégio Militar e sempre fui muito ligado à literatura. Li muita coisa de Jorge Amado. Capitães de Areia, por exemplo, foi uma coisa que me tocou muito. Já tinha um bom conhecimento e,a partir dele, comecei a ir para a Bahia e conversar com familiares de Jorge Amado, pesquisei coisas íntimas, descobri que ele era louco por sapo e tinha mais de três mil sapos de todos os tipos no jardim da casa dele. De louça, de barro, de verdade e etc. As pessoas deveriam ler mais. A internet é uma faca de dois gumes. Depois que ela surgiu, ninguém sabe mais nada, nem ler, nem escrever. Só ficam batendo teclinha e vendo o Ronaldinho batendo punheta (risos).

Desde que voltou para a Imperatriz, em 2010, este será o terceiro enredo autoral consecutivo de Max Lopes. Numa época de imposição de patrocinadores nos enredos de algumas agremiações, ele comemora a liberdade e garante que só precisou fazer algo que não aprovasse em apenas uma ocasião ao longo de sua carreira.
 
– A única imposição que tive em toda a minha carreira foi na Mangueira, no ano da energia(2005). Tinha que ser esse o enredo porque era muito grana que ia entrar. Ótimo! Mas sou esotérico e a minha fonte de energia é outra. Queria falar da energia natural e eles quiseram outro caminho. Tentei fazer, mas não deu certo. A Mangueira não é uma escola high-tech. É igual a Imperatriz, não dá para fazer algo futurista, a escola pede algo mais técnico, mais sério. Eu gosto do barroco, sou muito barroco. Vou fazer um carro da Igreja do Bonfim com umas esculturas lindas, vocês vão ver – promete.
 
A Imperatriz Leopoldinense será a terceira escola a desfilar do domingo de carnaval. A escola busca acabar com um jejum de dez anos sem conquistar o título.

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