Meia Noite na Praça Onze

MEIA NOITE NA PRAÇA ONZE
(ou a “nossa” novela das seis)

Não é por nada, não… mas nós merecíamos isto. Precisamos ir com calma, é verdade, esperar um pouco mais para ver, mas… que merecemos, ah! isso merecemos.

Depois de ler sinopses tão desinteressantes, em que carnavalescos se desdobram para tirar leite de pedra, depois de ter que ouvir tantos sambas sofríveis compostos por autores que se esforçam para tirar suco de frutas secas, chega-nos de surpresa uma alegria tão grande.

Mas tem sido difícil. De verdade, de verdade mesmo, ainda não consegui ver nenhum capítulo completo. Tenho chegado sempre atrasado, lamentando o quanto seria tão mais vibrante se fosse no horário nobre.

É o período em que gostaria de ter vivido. Por ser branco, de formação escolar e cultural europeizada me fascinam aqueles anos compreendidos entre a virada do século e a primeira guerra mundial em 1914. Imagino Paris como era.

Anos que precederam a carnificina da primeira guerra e que serviram de referência para que os anos seguintes, os fogosos anos 20, ficassem conhecidos como os anos loucos. Imagino Paris como era… Paris do Jazz, do Charleston, de Josephine Baker, Mistinguetett, Chevalier. Do Follies Bergère, do Cassino de Paris, do Moulin Rouge, Montmartre.

Desses prazeres sonhados e imaginados o único a que tive acesso foi o de beber absinto. Comprei uma garrafa já bastante adaptada à racionalidade de nossos tempos. Acho que de absinto mesmo deve ter muito pouco mesmo.

Mas é também aqui, nesta época, por suas características, era o tempo que escolheria para viver. Aqui, onde o buraco era bem mais embaixo. É isto que esperamos ver. Nossa viagem às primeiras décadas daquele século e encontrar a “belle èpoque” carioca em um cenário bastante diverso: uma abolição que não libertou – só pela metade –, uma república mal implantada e uma democracia incompleta já tão distante, um pouco mais que hoje, fora do alcance de tanta daquela gente. Também só pela metade; tudo pela metade.

Mas é aquele tempo que acho que a novela pretenderá mostrar. A trajetória, a alegria e a coragem de nossa gente em busca de casa, comida, saúde e educação para seus filhos. Um tempo em que havia todo um país sendo revelado. As novas funções da cidade, capital de um país que engatinhava no capitalismo crescente no mundo, coração convergido dos vários e distantes brasis espalhados, receptor de tanta gente misturada de cores, dores, humores e amores, todos aqui chegados em busca de uma coisa só, trabalhar e ganhar o pão de suas vidas e de suas famílias, repito.

Famílias que para aqui vieram, ou aqui estavam, vindas das lavouras exauridas e falidas do Vale do Paraíba, de Minas, Espírito Santo; veteranos da campanha de Canudos, da guerra do Paraguai. Aqui se misturaram com a ‘baianada’ que já por aqui vivia, com as influências de músicas e ritmos europeus, engoliam isto tudo para depois vomitar aquilo que hoje

conhecemos, e tanto nos orgulhamos, como a cultura brasileira.

Aquela mesma cultura brasileira que tantos de nós desejamos ver desfiladas na nossa avenida do carnaval. O encontro maior, mais bonito, mais colorido, mais espetacular da nossa gente com sua própria história.

Mas é preciso levar a cabeça para aquele tempo, fazê-la viajar para um período de pouco mais de uma década pós-abolição. As ruas estreitas, os enfrentamentos de blocos de sujos, a aversão absoluta aos capoeiras, consideradsos seres armados sem estarem com armas. Suas armas eram suas próprias destrezas, tantas vezes para enfrentar armas infinitamente mais letais. Escudo de suas peles, pontas de seus punhais. Guerra étnica? Sei lá. Ou algo muito parecido…

Levar a cabeça para lá, compreender o que era ser negro, mestiço, branco pobre, em uma sociedade que buscava ser francesa, em hábitos e avenidas, jogando para baixo do tapete todo o “lixo” deixado pelo período colonial e pré-abolição.

Sim, as músicas não eram aquelas que ouvimos pela TV, é verdade. Era o tempo das polcas, do maxixe e do fox-trote. Nem eram aquelas músicas e nem era o samba que sequer existia ou existia apenas como dança. O samba, mesmo aquele dos baianos, da Praça Onze, de Donga, de Sinhô, de Caninha, ainda amaxixado e acompanhado por prato e faca e palmas da mão só conquistaria a cidade em 1916 e, principalmente, no carnaval de 1917, tudo a partir do quintal da Ciata.

O outro samba, o nosso, o “samba de sambar”, inventado no largo do Estácio por Bide, Ismael  e sua turma, só viria na segunda metade dos 20, para depois ser abraçado e lapidado por Noel. Tempo dos fonógrafos, gramofones e discos de cera. Da euforia dos domingos de outubro no alto da Penha e seus arredores.

Tomara que seja isto que a novela vá mostrar. Como era viver naqueles dias sendo branco ou sendo negro, ou melhor e mais precisamente, adaptando a linguagem, sendo incluído ou não no vigente projeto nacional de branqueamento e europeização: a Paris dos Trópicos versus a Pequena África, primeiro na Pedra do Sal, depois no Largo de São Domingos e depois na Praça Onze, berço das nossas fantasias.

Os casarões, cortiços e casas de cômodos sendo derrubados trazendo de volta a visão daquele formidável carnaval da Vila Isabel de Alex de Souza e Paulo Barros. Exemplo, para mim, do que é fazer carnaval pra valer, que agrade turistas, telespectadores, sambistas e admiradores das histórias do povo brasileiro. O encontro mágico e emocionante da beleza do samba, a beleza da cenografia, a beleza da história: a mais sublime fantasia, no sentido exato e carnavalesco da
palavra.

Que a novela seja boa para todos, sobretudo para todos que se sentem tão desanimados e enganados, torpedeados por uma safra de enredos como a de 2013.

Será que veremos os movimentos de valorização da cultura negra dos anos 20? Será que curtiremos a reviravolta da semana de 22? Como será mostrada (será mostrada?) a aparição do Samba de Donga e depois o samba de Ismael e Bide? Teremos Noel? Será que veremos a elegância de Paulo.

Acho que já é exigir muito. Por enquanto é muita beleza, a de Isabel e Zé Maria juntos, lado a lado, para desafiar, enfrentar e segurar a barra do que vem por aí. Ouvir o samba da Imperatriz escolhido fazendo justiça à ala de compositores mais bem sucedida deste século, a que nos deu mais alegrias nesta época de compositores vítimas maiores de enredos tão insípidos, tão inodoros e tão incolores.

Ainda não consegui ver a abertura; não vi e já gostei muito, pelo que me dizem.

Como é bom ficar imaginando que é naquela época que migraram para cá, para os morros da cidade, mães e pais que gerariam, tempos depois, aqueles que hoje chamamos baluartes e que fundariam Salgueiro, a Portela, a Mangueira, o Império, a Tijuca, a Deixa Falar, estas abrindo caminho para tantas que viriam depois construir a marca maior da cultura brasileira.

A esperança é que a “nossa” novela continue nesse nível de capricho, que mostre a todos qual é a nossa cara e como esta cara se formou, se forjou e ficou desse jeito que somos.

Uma cara da qual tanto me orgulho, à qual procuro por toda vida me fazer mais semelhante, do jeito que meu pai me ensinou, do jeito que me esforço para ensinar para meus filhos.

Orgulhosamente!

e-mail para contato: lcciata2@hotmail.com

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