Mesa de debate de sinopses e enredos na Carnavália-Sambacon termina com um ‘Fora Crivella’ ovacionado pelo público

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O último dia de painel cultural com Milton Cunha na Carnavália-Sambacon manteve o altíssimo nível de debate dos dias anteriores. Neste sábado, o evento reuniu duplas dinâmicas para falar sobre o processo de criação do carnaval. O enfoque foi sobre enredos e sinopses, mas tiveram falas sobre a crise no carnaval com direito a “Fora Crivella” bradado pelo carnavalesco da Unidos de Padre Miguel, João Vitor, que foi aplaudido pela plateia lotada.

– Esse prefeito não pode acabar com o nosso carnaval! Peço licença, como temos a hashtag #ForaTemer eu digo Fora Crivella!

img_20170715_143727650Durante o encontro, Milton Cunha fez algumas provocações aos participantes da mesa, uma delas, se qualquer tema pode virar enredo. As opiniões foram diversas. O pesquisador João Gustavo Melo, que atua com Mauro Quintaes na Unidos do Peruche, em São Paulo, pontuou que tudo tem um limite.

– Um enredo tem que ter pertinência e tudo tem um limite. Por exemplo, o iogurte da Porto da Pedra antes de ir pra lá passou pelo Salgueiro e a gente sabia que ia ser ruim. Ainda bem que a presidente Regina Celi teve a sensibilidade de negar – frisou.

Mauro Quintaes lembrou de um enredo patrocinado que fez no Salgueiro, que tinha um R$ 1 milhão da TAM, e que iria homenagear o comandante Rolim. Eles queriam que um carro tivesse um armazém porque a família tinha um armazém. Eu apresentei pra escola uma conta: se eles estavam dando 1 milhão, e você vai gastar 8 milhões pra fazer o carnaval vamos homenagear em um carro, se quiser que fale no desfile todo que paguem os R$ 8 milhões – contou o carnavalesco.

img_20170715_152453095Samile Cunha, mediadora do debate, acredita que qualquer tema pode ser carnavalizado, desde que tenha um bom recorte.

– Tudo tem pertinência, se fosse assim Ivete Sangalo não virava enredo, Bethânia não virava enredo, uma mulher que canta descalça, quando no carnaval você precisa de um monte de adereços. O recorte é que é importante, o conflito que é estabelecido é que leva para algo singular – disse.

A jornalista Flávia Oliveira concorda com Samile e falou ainda sobre a questão do patrocínio. Para ela, a escola precisa deixar clara como será essa relação.

– Na minha opinião tudo pode virar enredo, até o iogurte (risos). Dependendo do recorte que você vai dar. Ratos e Urubus, por exemplo, não parecia fazer sentido no começo, mas foi maravilhoso. Acho que as escolas têm que pensar se vai ser subordinação total ou não? Cabe a escola decidir.

img_20170715_152805497João Vitor contou que a parceria com o jornalista Daniel Targueta no enredo sobre Viriato Ferreira (Rocinha 2017) foi tão boa que decidiu dar continuidade.

– O pesquisador é nosso parceiro de confiança. Ele está junto com a gente desde que o feto é gerado. O carnaval é como uma gestação, você não sabe se o filho vai vir com saúde ou não – comparou.

Ainda no encontro, João Gustavo Melo falou sobre a parceria com o carnavalesco Mauro Quintaes. Os dois estão trabalhando juntos na Unidos do Peruche, escola de samba de São Paulo, que em 2018 vai homenagear Martinho da Vila.

– Fazer sinopse sobre escritor é um desafio em dobro. Mostrei o texto da sinopse para o Mauro, ele aprovou e pediu pra eu passar pro Martinho. Estava morrendo de medo, levei uns 10 dias pra entregar. Martinho leu, em 20 minutos, ele me ligou e brincou: cara, você fez uma poesia! Vi que estamos no caminho certo – disse Gustavo.

img_20170715_140346183Os participantes concordaram que um bom enredo sempre resulta em um bom samba. Nesse momento, Mauro Quintaes usou como exemplo o texto de João Gustavo Melo.

– Quando entregamos pra escola eles adoraram, mas pediram pra mandar mais texto e dissemos que não, que era isso mesmo. Não temos que dar nada mastigado, temos que fazê-los pensar. Recebemos sambas ótimos, tem três que vão dar trabalho – apontou.

Nas considerações finais, emocionado, Mauro Quintaes pintou que tem orgulho de viver do carnaval e que seu filho se chama João por conta de Joãosinho Trinta. Já Aydano Andre Motta fez uma provocação. Ele pontuou que o prefeito Marcelo Crivella pretende acabar com o carnaval.

– Acho que o carnaval tem se vestir pra guerra porque isso é uma batalha. A civilização carioca está em risco, o carnaval e as manifestações de rua estão ameaçadas. Acho também que está faltando autoestima no carnaval, ora, ninguém faz isso aqui. Se você quer discutir o que só eu faço, tem que discutir com respeito – frisou.