Misticismo para falar de São Luís é a proposta da Beija-Flor

Acostumada a trilhar o caminho de seus enredos pela parte mística, a Beija-Flor de Nilópolis usará novamente a fórmula de sucesso dos últimos carnavais para abordar os 400 anos de história de São Luís no Carnaval 2012. Uma viagem pela história da capital maranhense desde a sua colonização até a exploração da bauxita nos dias atuais é a proposta da atual campeã do carnaval. O fio condutor será a cultura maranhense, recheada de influências africanas, traço forte na história da Deusa da Passarela.

O enredo começa com a colonização da cidade. O encontro entre portugueses, franceses e holandeses com os Tupinambás, habitantes da então Upaon-Açu (nome que quer dizer Ilha Grande) será mostrado. Assim como a vinda dos navios negreiros com a colonização portuguesa. Com eles, veio a religião do povo de Daomé, em sua maioria formado por monarcas africanos, e a forte cultura maranhense ligada aos escravos ganhava vida. Fran-Sérgio, um dos carnavalescos da comissão de carnaval, explica a opção da escola.
 
– Tudo parte da pesquisa, quando fomos para o Maranhão sentimos que tudo lá é místico. Se você for ao Centro Histórico irá sentir essa presença mística de uma terra onde a formação negra foi a mais influente. Todas as festas lá são religiosas e carnavalizáveis, é uma mistura meio louca, mas tudo isso é místico. Andar pelo Centro Histórico de noite te deixa impressionado. Ainda é iluminação da época, de lampiões, e o tom é esse. É impressionante como a cidade é preservada nesse aspecto. A Beija-Flor sempre foi voltada para isso, quando assumimos a comissão nós acabamos indo por esse caminho. Nós gostamos desse viés e temos um respeito muito grande com a parte religiosa. É um casamento perfeito com a Beija-Flor. Não é nada forçado. Somente a Beija-Flor faz desse jeito, sai naturalmente. Procuramos falar de coisas que o Brasil não conhece. É um país rico culturalmente e nós mesmo nos surpreendemos com algumas coisas que descobrimos em São Luís.

O culto à Casa das Minas, as casas Nagô e as casas de Candomblé serão outros pontos bem marcantes no desfile da Beija-Flor no setor que abordará a religiosidade de São Luís. Outras manifestações menos conhecidas como o Encantado e as festas de São Belibeu ganharão menção. No Encantado, por exemplo, reis ancestrais como Dom Sebastião e Rei Luis XIV incorporam em médiuns. De acordo com Fransérgio, o próprio Pierre Verger, enredo da Ilha em 1998, conversou em francês com um dos médiuns incorporados e comprovou a prática.

– Ninguém nunca falou de São Luís sob essa visão negra. Essa é uma aposta nossa. Selecionamos pessoas com o objetivo de retratar fielmente o que os negros passaram – lembra o carnavalesco.

Outro traço da cultura maranhense que não poderá ficar de fora é o Bumba-meu-Boi. Fransérgio explica que após a comissão de carnaval da Beija-Flor ter contato mais íntimo com a festa em 2011, o enredo ganhou ainda mais força.
 
– O Bumba-meu-Boi é uma marca. Não tem como falar de São Luís e não citá-lo. Fomos assistir e vimos o quanto é maravilhoso. É um povo alegre, festivo e que trabalha com uma profusão de cores muito rica. Ideal para o nosso trabalho.

As lendas populares maranhenses, como a assombração de Ana Jansen, uma aristocrata que maltratava escravos e que hoje perambula por São Luís em sua carruagem, serão contadas. E a parte da literatura e poesia ganhará um lugar especial.
 
– São Luís ganhou o título de Atenas Brasileira pelo seu desenvolvimento nessa área. Gonçalves Dias e Josué Montello são de São Luís e serão homenageados. Dizem que no Maranhão se fala o melhor português do Brasil e vamos contar essa história – afirma Fransérgio.

A influência do reggae no cenário musical de São Luís, a Jamaica Brasileira, e a cantora Alcione também serão citados e as figuras do carnaval de rua local, como o Fofão – espécie de Bate-Bola de São Luís – aparecerão no enredo.

Assim que o tema foi anunciado, foi comum pessoas do mundo do samba indagando um possível déjàvu relativo ao desfile da escola de 2001, que contava a saga de Agotime, uma rainha escrava africana. Fran-Sérgio explicou a relação entre os temas.
 
– Tem algo de Agotime pela força mística dele, mas esse enredo é muito mais fortalecido pela história de São Luís do Maranhão. Agotime tinha um rota que ela traçou para chegar até aqui e foi sobre isso que a gente falou. Dessa vez, não. Vamos falar especificamente de São Luís.
 
Presente na São Luís do presente e na construção de um futuro melhor para a capital do Maranhão, a exploração mineral não poderia ficar de fora. A bauxita e outros recursos serão mencionados pela Beija-Flor. O último setor, tentará retratar fielmente a São Luís de hoje, com toda a sua arquitetura preservada e os históricos casarões.

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