Mocidade aposta em Portinari para estrela voltar a brilhar

 

 

Reencontrar o brilho de uma estrela que parece perdido há uma década. Está é a difícil tarefa que a Mocidade Independente de Padre Miguel tem para cumprir no Carnaval 2012. E para desempenhá-la com maestria, nada melhor do que retratar a obra de Cândido Portinari, um dos maiores artistas plásticos brasileiros. No comando do desenvolvimento do enredo, a Mocidade vai contar com o talento de Alexandre Louzada, que não esconde as dificuldades para colocar em prática tudo o que queria, mas garante muita dedicação de todos na escola para fazer da Verde e Branco de Padre Miguel uma das seis primeiras colocadas.
 
– Vamos contar a obra dele, sua trajetória, é uma biografia do artista através de sua obra. Vamos usar de uma licença poética para desenvolver a nossa história. Imaginamos que a primeira obra de arte de Portinari seja estrelas no céu de uma igreja e, hoje, ele está na grande morada celestial pintando a tela do firmamento. Vamos levar a nossa bateria, com o ritmo que não existe mais quente, para despertar o artista. Em troca, seremos todos os personagens que sairão de suas telas e ganharão vida para a realidade do carnaval – explica Louzada, falando sobre o ponto de partida do desfile da Mocidade.


O cenário descrito estará na abertura da escola. O abre-alas, ao invés de tradicional estrela-guia, marca da escola nos anos 90, irá ganhar uma verdadeira constelação, tudo para retratar a proposta inicial do enredo e fazer uma relação com a Mocidade. Com o desenvolvimento do desfile, vem a infância de Portinari, não em sua intimidade, Louzada deixou claro que está não é a proposta. A ideia do segundo setor é mostra a época em que o artista deixa Paris e ruma ao Brasil. A volta de Portinari tem como objetivo buscar inspiração para tornar-se, de fato, um artista do nível que conseguiu alcançar.
 
– Ele resolve pintar a sua gente e, ao fazer isso, retrata os meninos de Brodowski, mas se vendo entre esses meninos. Ele também viveu aquelas brincadeiras simples de pessoas simples. Foram quadros antológicos: o menino com chapéu de jornal, o menino com o peão, o circo que chegava ao interior das cidades, o milharal, o canavial e o cafezal, que acabou projetando-o mundialmente – afirma Louzada.


Na sequência, o desfile da Mocidade retratará Cândido Portinari na fase adulta, como um grande pintor de murais. Os trabalhos em prédios públicos, como o da Biblioteca do Congresso – em Washington – serão lembrados, assim como os de temática histórica do Brasil: desbravamento, descobrimento, primeira missa, os Bandeirantes e o enforcamento de Tiradentes.
 
– Depois vamos mostrar uma outra faceta de Portinari pintando murais. São painéis em azulejo. Ele tem uma obra muito vasta de cerâmica. Pinturas feitas para se transformar em revestimento, grandes salões e fachadas de prédios públicos. Nessa parte, vamos pinçar a obra que ele fez retratando a Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, e o Palácio Capanema, aqui no Rio de Janeiro. Se funde no mesmo azul, o céu – com anjos, pombas e santos – e o azul do mar do Palácio Capanema – explica o quarto setor Alexandre Louzada.


A influência que os grandes escritores da época, Graciliano Ramos e Euclides da Cunha, exerciam sobre o pintor aparece no quinto setor. Portinari passa a criar uma série de quadros com temática nordestina. Quadros que estão entre os mais valiosos de sua obra. Intoxicado pelo chumbo, presente nas tintas em que usava, Portinari é convidado para ilustrar uma versão de Dom Quixote de La Mancha, livro de poesia escrito por Carlos Drummond de Andrade. Essa referência estará no sexto setor do desfile da Mocidade e Louzada explica qual será a novidade dessa passagem da escola.
 
– Ele utiliza o lápis de cor para fazer essa releitura. Aproveitaremos o traço dele como desenhista. Não usaremos o lápis de cor, porque a escala cromática é maior, mas usamos o giz de cera para pintar algumas fantasias, imitando o lápis de cor. Ficou um efeito bem bacana.


No penúltimo setor, a passagem de Portinari como morador do Rio de Janeiro pede passagem. Nesta época, mesmo proibido pelos médicos, continuou pintando e retratou o samba, o carnaval, as mulatas, as baianas, as Marias Latas d´Água e a favela. Alexandre Louzada aproveitará esse momento para relacionar a identidade dos trabalhos com a realidade da comunidade da Mocidade
 
– No final do desfile vamos trazer a grande obra dele. A obra que o imortalizou: os painéis Guerra e Paz, que ficam no hall de entrada da ONU e que nós o dissecamos com as agruras que a guerra pode trazer e a beleza e tranquilidade que a paz nos traz. Ainda vivemos em guerra, porém sonhamos com a paz, frase de Portinari. A Mocidade também está incluída nisso, já que todo ano travamos uma guerra para voltar a ter paz, conquistar o título novamente – diz o carnavalesco, que teve a ideia da argumentação do enredo após uma conversa com um amigos que desenvolveu o mesmo enredo no carnaval de Brasília no ano passado.


Louzada explicou que começou fazendo uma rápida pesquisa na internet e enviou uma carta para a Fundação Portinari. Posteriormente, o carnavalesco encontrou-se com João Cândido Portinari, filho do artista, que lhe deu todos os subsídios para o desenvolvimento do enredo.
 
– Quando fui procurá-lo, já tinha a sinopse pronta. Isso foi o cartão de visita e eles ficaram bastante emocionados. Talvez tenha sido por isso, também , que eles permitiram. Conhecer a obra é simples, fácil. Basta procurar nos sites especializados, mas captar o espírito dele é o nosso objetivo. Colocar em prática tudo aquilo que queria transmitir com seus quadros. Estive em Brodowski, em sua casa, e pude sentir toda a energia. Toquei as roseiras dele, o óculos, as roupas – explicou Louzada.


Campeão do carnaval carioca em quatro oportunidades – Mangueira 1998, Vila Isabel 2006, Beija-Flor 2007 e 2008 – e mais uma no carnaval paulistano – Vai-Vai 2011 – Alexandre Louzada é esperança de grande parte da imensa torcida da Mocidade de reviver os áureos tempos da escola. É apontado com capacidade para imprimir o seu estilo na Verde e Branco, assim como nomes como Arlindo Rodrigues, Fernando Pinto e Renato Lage fizeram e foram muito felizes. Sabe-se, porém, que o momento financeiro e administrativo é completamente diferente das épocas citadas e o próprio carnavalesco comenta a situação.
 
– Me gela o estômago(risos). Encaro como mais um trabalho, mas é um trabalho com um grau alto de paixão. A Mocidade é uma escola que atravessa uma fase muito difícil de sua história, são muitas dificuldades financeiras. Buscamos alicerces para poder voltar a ser a escola que foi recentemente. E isso refletiu, logicamente, no trabalho. Eu mesmo, não imaginava que seria tão difícil, mas tenho que dizer que a Mocidade procurou fazer tudo aquilo que foi pedido, porém, trabalhamos com uma redução de mão de obra, de pessoas, e isso atrasa o trabalho. Tínhamos um orçamento do que podia ser feito. Acho que as pessoas podem esperar um trabalho de arte. Não será um carnaval luxuoso, de grandes efeitos especiais. Até mesmo a textura e a pintura das esculturas não é uma coisa com o design que eu mesmo já usei, mas vamos reproduzir pinceladas de um pintor. Todos os carros tem o traço, a geometria, dos trabalhos de Portinari. É gratificante. Tenho carinho, mas também conto com a compreensão dessa comunidade e dessa torcida. Todos sabem da dificuldade da Mocidade. O que eu mais recebo é apoio, força, coragem, uma palavra de alento. Se eu vou conseguir imprimir minha marca na escola ou não, só o tempo vai dizer.
 
A Mocidade Independente de Padre Miguel será a quarta escola a entrar na Avenida no domingo de carnaval. Desde 2003, a escola não figura entre as seis primeiras colocadas. 

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