Morre Waldyr 59, integrante da Velha Guarda da Portela e parceiro de Candeia

Faleceu na madrugada desta quarta-feira, aos 87 anos, Waldyr 59, integrante da Velha Guarda Show da Portela, e que foi parceiro de Candeia. Ele será velado na antiga quadra da Portela, a Portelinha, na Estrada do Portela 446, em Oswaldo Cruz, a partir de 15h, o corpo de Waldir 59, compositor e integrante da Velha Guarda Show da Portela. Seu Waldir morreu de insuficiência respiratória, na Unidade de Pronto Atendimento do bairro do Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio. Ele havia sido atendido no local durante o dia de ontem, com problemas respiratórios, e foi liberado. Horas depois, teve uma piora, foi levado pela família de volta à UPA, e não resistiu. O enterro de Waldir 59 será às 10h da manhã desta quinta-feira, no Cemitério de Inhaúma, Zona Norte do Rio.

Ano passado, em entrevista ao CARNAVALESCO, ele falou da parceria. Segundo o sambista, a dobradinha contava com a essência perfeita para dar certo: o estudo e a música.

– O Candeia foi o meu melhor parceiro, a minha alma gêmea das composições.  Eu nunca cantei, essa era a missão dele. Eu sempre escrevi as letras e ele tornava cada uma em música. E isso é provado em muitos sambas nossos e em um em especial. 'Ser Portela é ter qualidade', diz a música, mostra a gente.

Veja um texto abaixo sobre Waldyr 59, de Luis Carlos Magalhães

UMA CELEBRAÇÃO PORTELENSE

Foi num fim de semana já distante, em 2010.

Uma invasão de gente vinda de São Paulo. Não exatamente como aquela corintiana de 1976 no jogo com o Fluminense no Maracanã. Desta vez muito diferente. No centro da roda Valdir 59, bamba da Portela e parceiro de Candeia, o grande homenageado da tarde.

No comando a futuramente lendária Cristina Buarque, incansável, guerreira, renitente, inesgotável (salve, Vargens!) portelense, com o sorriso sereno de quem sabe a grandeza da missão que exerce, exerceu e exercerá para sempre manter acesa a chama e a marca do modo portelense de fazer samba.

De São Paulo o já familiar grupo Terreiro Grande integrado por pouco mais de dez jovens apaixonados pelo tipo de samba que um dia se fez nos morros e terreiros da cidade do Rio de Janeiro, paixão essa com grande ênfase nos sambas de Oswaldo Cruz e Madureira.

Como cenário a muito secular esquina da Rua do Mercado com Ouvidor junto ao casario colonial, em baixo de uma amendoeira ao lado do prédio da Bolsa de Valores. 

Em meio a mesas, pela viela estreita, a Rua do Ouvidor com gente e cadeiras espalhadas era cenário ainda maior do que aquele mesmo terreiro consagrado por Gabriel da Muda que ali mesmo faz o samba reinar solto nos sábados intercalados.

Pena que era tarde ainda, não havia lua. Só faltava anoitecer.

Lançava-se ali o disco comemorativo dos 75 anos de Candeia. Mais do que o lançamento, a comemoração do aniversário do grande líder. Mais até do que isto, a celebração da força e da tradição da Portela.

Tuco, integrante deste grupo, garimpador de raridades, fiel discípulo de Cristina, puxava uma rodada de sambas- enredo dos tempos de glória da Portela. E todo mundo cantava… todo mundo cantava muito.
 
Waldir 59 olhava soberano toda aquela gente ainda tão jovem, cantando sambas tão antigos, quantos deles de sua própria autoria junto com seu velho parceiro que era ali homenageado.

Quem seria aquela gente toda, de onde terão vindo, por que estavam ali, diante dele, como em uma cerimônia, cantando de forma tão vibrante e uníssona os sambas de sua escola?

Que Portela era aquela? Quantas Portelas existirão por este país a fora?

 Quantos que ali estavam já desfilaram no carnaval? Quantos têm ou terão ou terão tido esta vontade um dia? Quantos se interessam por carnaval e por desfiles?

 O Momento da maior emoção veio quando foram puxados simultaneamente os sambas "Brasil, Panteão de Glórias" e "Riquezas do Brasil".

 Dentre tantas pérolas cantadas, vale aqui destacar esses dois momentos que, muito mais que história da Portela, são momentos da história e da evolução do desfile das escolas de samba.

O primeiro deles é do ano de 1959 em que a Portela vencera o Salgueiro de Debret. Era 'o canto do cisne'. A partir dali, com o enredo sobre Palmares, a escola tijucana alteraria radicalmente todo esse  panorama.

Neste enredo, "Panteão de Glórias", a Portela refletia com precisão o exato teor curricular das escolas onde tantos de nós estudamos: a valorização do que chamávamos os grandes vultos da nacionalidade. 

Como dissemos, o samba, de autoria de Candeia, Casquinha, Bubu,Waldir 59 e Picolino, foi cantado por grande parte dos presentes com entusiasmo ainda comedido.

O samba seguinte foi cantado pela escola três anos antes, em 1956, desta vez superada pelo Império Serrano de Caçador de Esmeraldas.  

Um samba histórico, inesquecível se julgado com o juízo e a ponderação do momento, da época de sua composição, pela mensagem que encerra e por sua representação do conteúdo escolar já referido, passado para os autores quando jovens estudantes e para tantos de nós.

O samba era de Candeia e de seu então parceiro, o ali presente e emocionado Valdir 59.

Desta vez o samba e o enredo não tratavam daqueles heróis que nos ensinaram a respeitar e cultuar; tratava-se agora de nossas riquezas naturais. Se estávamos sendo enganados, ou não, é outra questão. Se tais riquezas foram, ou não, transformadas em benefício de nossos pais, de nosso país e de nossas e das futuras gerações também é outro papo.

A verdade é que Candeia, Valdir – e nós também – aprendemos assim. E se orgulharam e acreditaram que éramos uma dádiva, aquela terra farta e generosa  descrita na carta de Caminha, tantas vezes cantada por nossas escolas na avenida:

Brasil, tu és uma dádiva divina
Cacau, cana de açúcar e algodão
Borracha, mate e café
Produtos dessa imensa nação

E versos de construção sofisticada;
E as tuas riquezas inveja o mundo
Jazidas tais e tamanhas
Em teu solo tão fecundo

Até ali nada de muito diferente de tantos outros sambas cantados naquele período.  Dali para frente o samba cresce, adverte, aponta, convoca e chama à consciência com ênfase, alcance e vigor poético poucas vezes visto.

Para os mais jovens convém lembrar que tudo isto se deu antes do golpe militar.

Orgulhávamos de nosso exército, Caxias era herói nacional; minhas irmãs mais velhas namoravam cadetes, como todas as meninas de então. Declamávamos "A Pátria" de Olavo Bilac nas festas de fim de ano:

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste,
Criança! Não verás nenhum país como este!

E é assim que Candeia e Valdir finalizam aquele samba ali tão cantado, com aqueles mesmos versos de Bilac que abriram as portas para nossos corações e mentes juvenis, "jovens dessa imensa nação", para toda a grandeza, beleza e generosidade que carregamos por toda a vida:

E aos defensores do amanhã
Futuros doutorandos do Brasil
Estejam sempre alerta
Tragam na lembrança o conselho de um poeta
Criança, não verás país nenhum como este
Imita na grandeza
A terra em que nasceste

Não sei dizer o que Valdir 59 estava sentido naquele momento. Sei bem o que senti. vendo toda aquela gente  cantando aquilo. Como sabiam toda a letra, e a música? Por que cantaram com tanta energia?

Quantos eram nascidos já naqueles anos tão distantes?

E voltei a me perguntar: quem eram eles? De que cantos do Rio saíram? Quantos já desfilaram pela Portela ou se interessam por desfiles? 

Quando a lua apareceu por trás do prédio da Bolsa, resolvi ir embora.  Não faltava mais nada…

Subi caminhando a velha Rua do Ouvidor tentando imaginar os antigos carnavais do tempo do entrudo, das grandes sociedades, de antes da Avenida Rio Branco. Como podia caber tanta gente ali.

Fui andando e pensando na Portela. Que mistério era este? Por que a Portela é capaz disso?

Qual o mistério da Portela, afinal?

Fiquei mais uma vez intrigado com a hipótese de tantas daquelas pessoas não ligarem para carnaval e para desfiles. E que eram tão portelenses quanto qualquer um de nós envolvidos com a Sapucaí. Parei para atravessar e olhei para trás, ainda ouvindo o coro alto.

Acho que a Portela é assim mesmo. É tão grande, tão forte, tão imensa que nos surpreende. Como se a gente não conseguisse perceber sua grandeza. 

Independente, acima dos desfiles, acima do carnaval. A Portela traz consigo e em si a força maior que é a força do samba. Sua dimensão se mostra independentemente do momento.  Não importa se é carnaval, se é desfile ou se é uma roda de jovens paulistas cercada por cariocas de todo os cantos.

E assim, enfim, a gente compreende que o que estava ali com Valdir, com Tuco, Cristina e com Gabriel era aquela velha semente eterna que um dia a velha guarda plantou. 

Disco referido:
Terreiro Grande e Cristina Buarque cantam Candeia
Produção: Zeca Buarque Ferreira
Direção artística Homero Ferreira
Fotos (ambas de Bia Alves)
Tuco e Valdir 59
A roda de samba do Ouvidor
Terreiro Grande: Marcelo Cabeça, Renato Martins, Luizinho, Roberto Didio,Tuco,Lelo,    Edinho, Cardoso, Neco, Miséria, Eri, Alfredo Castro, Pereira, Jorge Luiz Garcia, Careca
Sugestão para ouvir agora:
"Brasil, Panteão de Glórias" e "Riquezas do Brasil": faixa 4 do disco