‘Muiraquitã’ para a Imperatriz voltar aos títulos

O desempenho mostrado pela Imperatriz Leopoldinense nos últimos carnavais fez a diretoria da escola ligar o sinal de alerta e perceber que mudanças precisariam ser feitas. Para comandar essa guinada, Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro foram contratados para desenvolver o carnaval da escola e promover uma verdadeira revolução plástica na Imperatriz. O pontapé inicial foi dado na noite desta segunda-feira, quando a Rainha de Ramos lançou com festa em sua quadra o enredo ‘’Pará – O muiraquitã do Brasil’’, que abordará o estado do Norte do Brasil.

 

À primeira vista, o nome causa estranheza, mas, ‘muiraquitã’, nada mais é que uma pedra, que, de acordo com o costume local, serve como um amuleto para a vida. Viés que a Imperatriz pode se agarrar para voltar a ser a escola que todo ano disputava com força o campeonato. Cahê Rodrigues trouxe consigo um muiraquitã e entregou-o  a nova rainha de bateria da Imperatriz, a atriz Cris Vianna, que arrancou muitos aplausos das cerca de 600 pessoas presentes na quadra da escola.


O diretor de carnaval, Wagner Araújo, abriu a noite falando sobre as mudanças feitas pela diretoria da escola na equipe de criação do carnaval e na frente da bateria.

– Fizemos mudanças radicais buscando inovar e devolver a Imperatriz ao caminho das conquistas. Foi uma mudança necessária, não pelos resultados na classificação, mas pelo resultado do trabalho em si. Mudamos também a rainha de bateria. A Luiza já vinha demonstrando cansaço da rotina do carnaval em algumas entrevistas e escolhemos uma mulher linda, inteligente e negra para substituí-la a altura. Tenho certeza que ela vai se empenhar para fazer um bom papel. É bom deixar claro que não temos nada contra a Luiza Brunet. Ela sempre foi muito correta e desempenhou a função com muito respeito e competência. Cris, Mario, Kaká e Cahê, essa casa é de vocês e espero que sejam muito felizes – desejou Wagner aos novos membros gresilenses.

– Me sinto muito honrada em estar chegando à Imperatriz. Sou paulistana, mas aprendi a amar e respeitar o samba carioca. Amo isso aqui, lidar com a comunidade, vou procurar estar presente ao máximo de ensaios que eu puder. Não vou substituir a Luiza, ela é minha amiga e insubstituível, quero somar e ajudar a Imperatriz a conquistar o título – disse Cris Vianna, sem esconder a emoção.

Assim como ocorreu quando a agremiação falou sobre Campos, uma eliminatória de samba-enredo local será realizada em Belém do Pará. O vencedor terá o direito de disputar a finalíssima na quadra da Imperatriz. Wagner deixou claro também que as escolhas de samba continuarão seguindo o mesmo modelo de sucesso dos últimos anos.

– Não temos compromisso para escolher samba de ninguém. Digo isso por que, alguns, de maneira tola, podem imaginar que, se trouxermos um samba do Pará, é para ele ser campeão. Não tem nada disso. Vai ganhar o melhor, como sempre ocorreu na Imperatriz – finalizou.

O enredo

 

Em seu primeiro contato com a comunidade, Cahê Rodrigues foi bastante requisitado e retribuiu falando sobre o prazer de vestir a camisa da Imperatriz, oito vezes campeã do carnaval carioca.

– Estou muito feliz. A Imperatriz é uma escola que representa muito para o carnaval carioca, responsável por boa parte da história do carnaval e é um desafio novo para mim e para a escola. A Imperatriz precisa de um gás, tem um histórico incrível e eu vou fazer o máximo que puder, contando com a ajuda da Kaká e do Mário, que são cenógrafos e estão com muita vontade de trabalhar. Acho que vai ser um divisor de águas na minha carreira. Quero resgatar a Imperatriz campeã, uma escola de guerreiros.

Perguntado sobre como seria a divisão do trabalho com os cenógrafos, Cahê revelou que não haveria divisão, mas sim comunhão de ideias em todo o processo de concepção e criação do carnaval. Mecanismo diferente do último trabalho da dupla em conjunto com um carnavalesco. Em 2006, na Viradouro, Mário e Kaká Monteiro dividiram a produção do carnaval com Milton Cunha. Enquanto o carnavalesco concebeu as fantasias, eles ficaram responsáveis pelas alegorias. Cahê lembrou também que sempre que a dupla não puder estar presente no barracão, ele irá até o encontro deles para resolver algumas questões. Durante a entrega da sinopse, apenas Kaká Monteiro esteve presente. Mário teve compromissos na TV Globo, onde ambos trabalham.

Falar sobre um lugar não é novidade para Cahê. Em 2011, na Grande Rio, ele desenvolveu um desfile falando sobre Santa Catarina e, por mais que o incêndio no barracão da escola tenha destruído praticamente todo o carnaval, foi possível ver um desenvolvimento de enredo que fugiu do lugar comum. Desta vez, ele, ao lado de Kaká e Mario Monteiro, também promete sair um pouco do trivial.


– Falar de um lugar é sempre um desafio. Sempre tentamos fugir do lugar comum para que o enredo possa ganhar conteúdo e um caminho que desperte a atenção das pessoas. O Pará é rico de muita coisa, então a gente procurou pegar vários elementos que compõem a história do Pará. Vamos passear por lugares diferentes com uma plástica diferente e o público vai se identificar com algumas coisas. Existem movimentos folclóricos e religiosos que são muito conhecidos e isso também estará presente ao longo do desfile, mas sempre com a preocupação de trilhar um caminho diferente, para que o público possa ver o Pará de uma maneira fantasiosa. O público precisa reconhecer que o Pará é feito de muitas coisas. Não é só música, não é só o Círio.

A sinopse, escrita de maneira poética e repleta de palavras em tupinambá, foi bem recebida por grande parte dos compositores presentes. Eles formam uma ala que, a cada ano, vem provando sua qualidade, com disputas que chegam a apontar três sambas ótimos, em média, por ano. O carnavalesco lembrou esse detalhe também.

– Eu estou muito feliz porque sei que a Imperatriz tem uma ala incrível de compositores. Você pega o histórico da escola e só tem samba maravilhoso. Tenho certeza que a sinopse vai deixar os compositores bem à vontade para confeccionar belíssimas obras. Sei que essa sinopse será entregue nas mãos de excelentes profissionais – afirmou Cahê, lembrando que não houve nenhuma exigência mirabolante dos patrocinadores do enredo, apenas pediram que o Pará fosse percebido pelo público no Sambódromo.

Responsável direto pela negociação que trouxe o enredo para a Imperatriz, o intérprete da escola, Dominguinhos do Estácio, não esconde de ninguém a íntima relação que tem com o estado nortista, em especial com a festa do Círio de Nazaré, manifestação católica que acontece em todos os meses de outubro. Ele afirma que o povo paraense está ansioso para ver a Imperatriz homenagear o estado. Além disso, teceu elogios à sinopse.


– Será emocionante com toda a certeza. Eu fiz tudo o que pude para esse enredo chegar até aqui, fiz esse acerto. Todo o povo paraense está esperando esse carnaval e vai destilar um axé, uma energia fortíssima para juntar com o resto do Brasil e levar a Imperatriz ao título. Achei muito legal a sinopse. Ela facilitou para o compositor. Tá na bandeja. É botar a bola no gol sem goleiro (risos).

Após a leitura da sinopse, como já é de praxe na Imperatriz nas últimas apresentações de enredo, uma encenação no palco com elementos da cultura paraense foi exibida. O encerramento contou com Dominguinhos do Estácio cantando o samba da Estácio de Sá de 1975 – ‘’A festa do Círio de Nazaré’’.

Calendário da disputa

Nos dias 10 e 24 de julho, os compositores poderão esclarecer suas dúvidas com os carnavalescos. A gravação e apresentação dos sambas concorrentes acontece no dia 29 de julho, a partir das 10h, na quadra da Imperatriz. No dia 31/07, as chaves serão sorteadas e no dia 05 de agosto começa a disputa de samba na Imperatriz Leopoldinense. Já a finalíssima tem previsão de acontecer no dia 17 de outubro.

 

 

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