‘Mulatas! Um tufão nos quadris’ pode concorrer a melhor filme estrangeiro no Oscar 2012

Uma vitória para o carnaval carioca! É desta maneira que Aydano André Motta, roteirista do documentário ' Mulatas! Um tufão nos quadris' e jornalista de O Globo, exprime o sentimento despertado pela inclusão do filme na lista dos 15 pré-selecionados à indicação ao Oscar 2012, na categoria melhor filme estrangeiro. Lançado em janeiro, a produção conta os dramas e alegrias do cotidiano e da história de 13 mulatas de nove escolas de samba do Rio de Janeiro. É a primeira vez que um filme baseado em histórias reais dos personagens do carnaval carioca chega a esse patamar.

Em conversa com o site CARNAVALESCO, Aydano contou detalhes do filme que, além da pré-indicação ao Oscar, foi exibido durante o Festival de Cinema de Toronto, no Canadá.

– O mais importante para mim, mais do que a vaidade de ver o filme nessa relação, é a coisa de conseguir com que uma celebração do nosso carnaval chegue tão longe. Meu objetivo maior é celebrar o carnaval carioca. Quero também, um dia, poder fazer filmes sobre mestre sala e porta bandeira, puxadores… A ideia de fazer o filme foi do diretor Walmor Pamplona e, a Carioca Filmes(Produtora), nos forneceu toda a estrutura necessária. O Walmor teve a ideia depois das histórias que eu contava. Converso bastante com os meus amigos sobre o carnaval, mesmo eles não tendo relação direta com o universo – afirma Aydano, que há 23 anos participa da cobertura do carnaval.

Apesar der ser um filme feito com personagens do carnaval, o jornalista chama a atenção para temas inerentes aos diferentes segmentos da sociedade brasileira presentes na produção. Mesmo conhecendo o mundo do samba, Aydano confessou que chegou a se surpreender com alguns relatos.

– São personagens bem mais ricos do que eu imaginava. Elas contam sufocos e alegrias da vida pessoal. O filme mistura dramas e comédias. A história da Sonia Capeta, da Beija-Flor, por exemplo, que perdeu um filho assassinado e, com a ajuda do carnaval, conseguiu recuperar a alegria de viver, é algo muito importante. Tem também a história da Elaine Ribeiro, da Porto da Pedra, que durante algum tempo dirigiu sem carteira de motorista no Rio e, quando era parada numa blitz, jogava charme, fazia um gracejo para o policial. É um filme que acaba nos fazendo perceber o quanto a sociedade brasileira é preconceituosa e racista. Até hoje, tem gente que acha que elas são prostitutas. Eu mesmo já fui questionado. Sou casado com uma jornalista de O Globo e as pessoas perguntam como é que ela deixa eu chegar perto das mulatas! Como se eu tivesse que ter alguma relação sexual com elas só por conhecê-las – disse ele, ressaltando que, por essa razão, o documentário acaba despertando o interesse de pessoas que não pertencem ao universo do carnaval.

'Mulatas! Um tufão nos quadris' foi exibido durante o carnaval e hoje é possível vê-lo em eventos realizados em universidades e casas de cultura. Orçado em 190 mil reais, a produção, para ser escolhida, rivaliza com filmes que foram sucessos de bilheteria e que contaram com gastos mais generosos, como 'Tropa de Elite 2' e 'Bruna Surfistinha'. Por essa razão, Aydano, apesar de confessar não ter tanto conhecimento de quais são os parâmetros para a escolha final, considera o 'Mulatas' um time pequeno na disputa entre os grandes.

Aydano: ''Não ganhei nada para fazer esse filme''

Para que a ideia inicial fosse bem executada, o jornalista fez questão de realizar dois pedidos à produção do filme.

– Antes de começarmos as filmagens, levei duas condições inegociáveis para todos os envolvidos: a primeira era de que todas as mulatas que participassem fossem respeitadas da maneira que merecem. Quando você vai entrevistar a Paola Oliveira, não poderá falar uma gracinha, dar mole para ela. Então, quando for entrevistar a Bisteka, terá que agir da mesma maneira. A segunda, era de que todas elas tivessem transporte para se locomoverem até o local das gravações. Consegui até um módico cachê para elas. Muito longe do que elas merecem, mas algo simbólico, pela participação nas filmagens. Aliás, é bom que fique claro que eu não ganhei nenhum centavo para fazer esse filme. Ganho o meu dinheiro trabalhando no jornal. Fiz pela valorização do carnaval e pela minha pregação. Defendo que os artistas do carnaval sejam tratados com o mesmo respeito que os outros artistas. A Selminha tem que ser tratada como a Fernanda Montenegro. Não estou discutindo patamar artístico, apenas a valorização de quem demonstra o seu talento e contribui para a manutenção da nossa cultura – desabafou Aydano.

Apesar de todo o fascínio que a figura da mulata representa nas escolas de samba, Aydano admite, porém, que elas diminuem a cada ano. Sabedor das negociatas dos bastidores do carnaval, ele aponta a desvalorização das mulatas pelas próprias escolas de samba como a principal causa.

– Admito com tristeza que isso, de fato, vem ocorrendo. As escolas não valorizam suas mulatas como deveriam. Preferem colocar de rainha de bateria uma artista da televisão. Essas pessoas, muitas vezes, não sabem nada da escola e não respeitam nem a manifestação artística do carnaval. Um exemplo positivo é a Sabrina Sato, mesmo vindo do Salgueiro, ela sabe respeitar a Vila e sempre se coloca à disposição da escola. Outros nomes não têm o menor respeito. Acho uma pena que as escolas aceitem isso. O aluguel do posto de rainha de bateria é algo que contribui para o sumiço das mulatas. Nós temos o exemplo da Gracyanne Barbosa, que está indo para a quarta escola diferente como rainha de bateria. É o Estandarte de Ouro da infidelidade carnavalesca. Lamento que as escolas tenham abandonado o fato de dar destaque às mulatas no cargo de rainha de bateria. Poderiam revelar novos talentos. A Tania Bisteka, em 1999, na Mangueira, foi convidada pela Globo para participar do programa 'No Limite'. A Quitéria Chagas virou atriz depois do sucesso que fez na Sapucaí. Até entendo os problemas financeiros das agremiações, mas é preciso equilibrar essa questão.

Aydano só recuou quando perguntado qual seria a mulata-símbolo do carnaval carioca. Bem humorado, permitiu-se a omissão, com a justificativa de que poderia magoar muita gente, caso esquecesse de mencionar um nome. Ele também lembrou ser impossível comparar trajetórias e épocas diferentes, citando as inesquecíveis Pinah e Adele Fátima e as contemporâneas Dandan do Salgueiro, Meire Lannes da Mocidade e Jaqueline da Beija-Flor.

A escolha da produção que representará o Brasil na categoria melhor filme estrangeiro será divulgada na próxima terça-feira, dia 20 de setembro. Confira o trailer do filme 'Mulatas! Um tufão nos quadris'   

     

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