Na busca pelo passo perfeito: casais discutem rumos do julgamento do carnaval

Os casais de mestre-sala e porta-bandeira foram bem claros. Todos querem maior objetividade nas justificativas dos jurados do carnaval. Expressões como “faltou algo a mais” e “poderia ser melhor” não ajudam no desenvolvimento e aperfeiçoamento do casal e precisam ser banidos nos cadernos de justificativas. Pelo menos esta foi a principal questão levantada pelos quatro convidados para integrar a mesa do seminário “Pensando o Carnaval”, desta terça-feira, na Facha, em Botafogo. As porta-bandeiras Lucinha (Portela) e Squel (Grande Rio) e os mestre-salas (Grande Rio), Julinho (Vila Isabel) e Marquinhos (Unidos da Tijuca) tiveram a oportunidade de expor suas ideias e opinar sobre temas polêmicos.

– Nós sabemos quanto é subjetivo o julgamento da dança do casal. É uma arte e ela precisa ser analisada com essa subjetividade. Mas não adianta o jurado não ser objetivo no momento de justificar sua nota. Como vamos melhorar quando nos deparamos com algumas justificativas que não acrescentam nosso aperfeiçoamento? Dizer apenas que faltou algo a mais é completamente subjetivo. O que é algo a mais? Ainda teve um ano que eu desfilei de sol e o jurado escreveu que o sol não brilhou na apresentação – queixa-se o mestre-sala da Vila Isabel, Julinho.

Marquinhos e Lucinha foram mais além. Para os dois, a bandeira ainda “pesa” no julgamento. O mestre-sala da Tijuca deu exemplo do seu colega Ubirajara que deixou a própria Tijuca e hoje é contratado pela São Clemente.

– O Bira chegou na São Clemente e parece que ele não sabia mais dançar. Ele foi execrado pelos jurados.

A mesma opinião tem a porta-bandeira Lucinha. Para ela, o julgamento em algumas ocasiões é baseado não apenas na dança apresentada na Sapucaí, mas também levado em consideração o “nome” do casal.

– Muitos falam que uma porta-bandeira que está há dois anos no carnaval foi injustiçada. Gente, isso acontece. Eu já passei por isso. É preciso ter tempo de estrada. Eu estou no carnaval há vinte e poucos anos. É fácil chegar e reclamar da nota. Difícil é sentar e realmente ver que o jurado tinha razão. Eu sempre tento considerar as justificativas – explanou Lucinha

Deixando o julgamento de lado, Marquinhos pediu a volta da posição do casal à frente das baterias. Hoje, praticamente todos os casais desfilam logo depois da comissão de frente de suas respectivas escolas desde que a Beija-Flor implementou esse sistema em 2002.

– É muito frio. Eu pareço um Exú, iluminando os caminhos. No primeiro ano que eu desfilei à frente da escola ainda na Mangueira, senti um vazio. Além disso ainda “competimos” com as comissões de frente. Esse ano, nós gritamos com a jurada que continuava olhando para nossa comissão e já estávamos em frente à cabine. Daqui a pouco, eu preciso descer da Sapucaí de helicóptero – brinca Marquinhos.

Já Lucinha e Squel discordam e preferem desfilar à frente da escola. A porta-bandeira da Grande Rio diz que a posição é mais tranqüila e foge das confusões da bateria.

– Eu preciso de concentração e tranquilidade. No primeiro ano como primeira porta-bandeira da Grande Rio, eu desfilei à frente da bateria e não foi bom. Você fica esperando até a bateria sair do primeiro recuo. Sempre tem um tumulto – admite Squel.

Outra questão levantada foi a forma de julgar o casal em condições adversas como chuva ou um óleo na pista como aconteceu este ano no desfile da Beija-Flor.  Com a pista escorregadia, o casal da escola de Nilópolis, Claudinho e Selmynha, teve dificuldades de evoluir. Os jurados receberam uma recomendação da Liga de considerar o problema na pista de desfiles. Para Lucinha, o caso merece uma maior discussão, já que episódios semelhantes já aconteceram na Avenida e não houve nenhuma recomendação por parte da Liesa.

– Em 2009 eu desfile com muito óleo na pista. Fui julgada e penalizada independente de como estava a pista. Levei dois 9,8. Você precisa ter um padrão. Não pode agir de maneira diferente em casos parecidos.  Mas você sabe que se fizer uma apresentação sem erros, feijão com arroz, na chuva, o jurado não vai descontar ponto. Mas você também vai rezar pra chover? – disse Lucinha.

No entanto, os quatro concordaram em manter no critério de julgamento do casal de mestre-sala e porta-bandeira a fantasia usada pelos dois. A indumentária é avaliada pelo jurado de casal e não de fantasia. Para eles, parte da responsabilidade da fantasia é do mestre-sala e da porta-bandeira.

– Eu visto inúmeras vezes a minha fantasia. Faço teste de resistência para que nada despenque. Isso melhorou muito de uns anos para cá. Pelo menos no Especial, eu acredito que todos os casais podem testar suas fantasias bem antes do desfile. Nós também acompanhamos a confecção das roupas. Esse zelo e cuidado do casal são importantes. Hoje, quando alguma indumentária cai durante o desfile é uma fatalidade – comentou Squel

Os quatro convidados ainda demonstraram certo desconforto com os rumos que a dança do casal de mestre-sala e porta-bandeira está chegando.  Para Lucinha e Julinho, é preciso, sem perder a espontaneidade, manter as tradições do carnaval.

– Acho que em alguns momentos somos levados pelas justificativas dos jurados e ficamos presos na dança e consequentemente erramos a mão – diz Julinho.

Marquinhos engrossou o coro e revelou seu descontentamento com os  rumos do julgamento.

– Eu gosto muito de dançar. Se pudesse faria meu feijão com arroz. No desfile das Campeãs, desfilei mais solto, sem aquela coreografia toda marcada. Você acaba dançando melhor.