Namastê! Mocidade repete bom nível na busca pelo bi

Por Thiago Barros

mocidade_desfile_2018_43-3Atual campeã do carnaval, a Mocidade Independente de Padre Miguel fez um desfile justo para defender o título. Última escola a passar na Sapucaí no primeiro dia do Grupo Especial, a Verde e Branca teve falhas, sim, mas manteve o bom nível apresentado em 2017, mesmo com um enredo que foi muito criticado no pré-carnaval – e foi muito bem desenvolvido.

A comissão de frente não teve o impacto do Alladin, mas foi excelente. O samba-enredo foi o que se esperava – com boa apresentação de Wander Pires e do chão da comunidade. Outro ponto positivo foi o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marcinho estreou com o pé direito com o pavilhão da Verde e Branca.

mocidade_desfile_2018_20Por outro lado, houve falhas que podem prejudicar a escola na avaliação. A última alegoria não funcionou e a evolução teve problemas. Mesmo assim, pode-se dizer que a Mocidade passou como uma das melhores do dia. Agora é aguardar o que vem por aí na segunda-feira e o julgamento na quarta.

Enredo

“A estrela que habita em mim saúda a que existe em você” foi o enredo de Alexandre Louzada para a Mocidade em 2018. A Verde e Branco falou sobre a Índia e correlacionou a cultura do país com a do Brasil. Uma abordagem bem semelhante ao que foi feito no desfile do título de 2017 com o Marrocos, porém com muito mais misticismo e mensagens de fé.

mocidade_desfile_2018_43-11Para compreender o enredo, é preciso entender o Início, o Meio e o Fim. O desfile foi dividido assim, além dos setores tradicionais. Segundo a história contada, o Brasil que nós conhecemos hoje existe por causa da Índia. E é algo que faz sentido, afinal, os portugueses encontraram nossas terras “por acaso”, tentando chegar justamente à Índia.

E, de acordo com a Mocidade, isso não foi acidente. Foi “Brahma quem guiou as velas de Portugal”. Ou seja, uma divindade hindu “desviou” o caminho das Grandes Navegações para cá. Aí começa a relação de coincidências e semelhanças entre as culturas que foi contada durante todos os setores – que são seis – do desfile.

mocidade_desfile_2018_43O primeiro setor foi o Namastê, quando os deuses abrem alas para a magia do carnaval. O segundo trazia A Índia dos bons selvagens: as histórias se entrelaçam. No terceiro setor, a “Índia” cultivada, na mata virgem, com lábios nem tão doces, e no quarto, Os Frutos estrangeiros e uma Identidade Brasileira, falando da culinária e do amor.

O quinto setor trouxe o Boi, com a Vaca Sagrada da Índia e as festas de Boi no Brasil, Do boi de lá ao nosso boi brasileirinho. E dessas festas para o último, O Fim, no Holi. A festa de cores para pintar a Sapucaí e também o branco, da paz, em uma mensagem contra a intolerância. Com os mensageiros da paz, da Índia e do Brasil, de várias religiões, unidos.

mocidade_desfile_2018_64-2Vale destacar a explanação perfeita da Mocidade no Livro Abre-Alas, que é entregue aos julgadores, para o seu enredo. A história, a justificativa e os detalhes de cada ala e alegoria explicam direitinho o que tudo significa. E, para quem já tem algum conhecimento sobre o tema ou leu com atenção todas as informações, a tradução foi perfeita.

Há quem diga que a concepção do enredo não é das melhores e que ele é “forçado”. Vai da cabeça de cada um. Isso pode ser levado sim em conta na avaliação do quesito. Porém, na realização, que seria “a capacidade de compreensão do enredo a partir da associação entre o tema ou argumento proposto e o seu desenvolvimento apresentado”, não há o que criticar.

mocidade_desfile_2018_64-10Samba-Enredo

E algo que ajuda demais a compreender melhor o enredo é o samba-enredo. Os versos cheios de significado, a melodia ousada e os refrões que “pegam” faziam com que ele fosse consierado por muitos um dos melhores do ano – disputando com Paraíso do Tuiuti e Beija-Flor. E se já era bom ouvir pelo CD, ao vivo e vendo o desfile, fez mais sentido ainda.

Prestar atenção aos versos do samba e correlacionar com tudo o que passa na Sapucaí faz com que se perceba exatamente o desenvolvimento do enredo e confirma a importância de uma obra bem feita para um desfile. Não só pela empolgação dos componentes, mas para auxiliar também na leitura e compreensão do mesmo. A obra caiu como uma luva.

mocidade_desfile_2018_67Altay Veloso, Paulo Cesar Feital, Zé Glória, J. Giovanni, Denilson do Rosário, Carlinhos da Chácara, Alex Saraiça e Leo Peres são os compositores dessa obra-prima, que passou em um andamento um pouco mais lento do que se esperava.

Comissão de Frente

A comissão de frente da Mocidade deu o que falar em 2017 com o Alladin Voador, e por isso a expectativa era enorme em torno do que Jorge Texeira e Saulo Finelon trariam para a Sapucaí neste ano. E eles não decepcionaram. Fizeram uma apresentação, literalmente, eletrizante no desfile de 2018 da Mocidade.

mocidade_desfile_2018_73-3“Deuses e Monges: Namastê pra todo povo da avenida”, com 26 bailarinos (somente 15 aparentes nas apresentações, como manda o regulamento), em dois grupos (15 homens e depois 8 homens e 3 mulheres), contava a história de como Indra, deus do trovão e das tempestades, e rei de todos os deuses do passado, se revoltou ao perceber que os monges passaram a venerar a Trimúrte.

Um embate entre Indra, monges e deuses foi a apresentação. Um homem com um dread de 5 metros, outro soltando raios, literalmente, e vários representandos os muitos deuses hindus fizeram uma apresentação espetacular. E, além disso, Gandhi, Madre Teresa de Calcutá e outros mensageiros foram saudar a Mocidade e a Sapucaí. Uma das melhores comissões que passaram na Sapucaí em 2018.

Alegorias e Adereços

mocidade_desfile_2018_82Foram seis carros no desfile da Mocidade, começando com o grandioso abre-alas, verde e branco, a cara da escola – com um tom de verde mais clarinho do que o do símbolo da agremiação. Nesta primeira alegoria, Brahma, Vishnu e Shiva, “Santíssima Trindade” hindu, abrem alas para a magia do Carnaval. À frente, vêm os elefantes, animais sagrados no páis e símbolo do amor divino – num efeito semelhante aos camelos de 2017.

Na segunda, Florescer Sob O Céu Tupiniquim, também predominantemente verde, Tupã encontra Indra, sua contraparte hindu, com destaque para a vitória régia e flor de lótus. O carro representou o florescer da vitória régia sob o céu tupiniquim. O terceiro carro foi “Ringe e Range, Rouquenha, A Rígida Moenda” correlacionando a doce cana e as flechas doces de Kamadeva, deus indiano do amor, que na alegoria aponta para o alto seu arco e flecha.

mocidade_desfile_2018_83-4A quarta alegoria juntava Lakshmi, a deusa hindu da semeadura e da fertilidade, com a Bahia, que foi o porto de chegada dos portugueses e das especiarias da Índia, que influenciaram na culinária local. O quinto carro alegórico era um dos mais impactantes. Uma escultura gigantesca de Khamadenu, a vaca sagrada da Índia, se juntava com vários bois brasileiros, com destaque para o Garantido e Caprichoso, de Parintins.

E fechando o desfile, uma mensagem de fé. O Templo de Lótus, localizado em Nova Deli, todo estilizado. Um carro todo branco, com detalhes em prata, em um recado de paz, tendo a Madre Teresa de Calcutá, Ganesha, a Flor de Lótus… Todos reunidos. “Eis o triunfo do bem e da fé”! A grande questão é que, como o desfile terminou de dia, o efeito de luzes que dava um pouco de cor ao carro não fez tanta diferença.

Fantasias

mocidade_desfile_2018_78As fantasias da Mocidade foram de muito bom gosto, alternando entre o luxo necessário para uma escola desse tamanho, mas também a simplicidade de algumas alas que representam temas que não exigem tanto assim – como a Ala 24, dos Filhos de Gandhi, por exemplo.

A paleta de cores, aliás, foi a cara da escola. Muito verde, branco e dourado. Especialmente nas primeiras alas, muito luxuosas e também de fácil leitura. Destaque para a Ala 1, de Shiva, e a Ala 9, A Seda da Sinhá: Poder e Ostentação.

O último setor também merece destaque. Eram várias fantasias bastante coloridas, formando um grande Holi – o Festival de Cores da Índia, que se assemelha ao nosso Carnaval. Ala 25 vem de Roxo, 26 de Rosa, 27 de Amarelo, 28 de Laranja.

Harmonia

mocidade_desfile_2018_61Wander Pires conduziu o samba-enredo da Mocidade em um ritmo um pouquinho mais para trás. A linha melódica do samba era bem agradável, e a obra foi uma das mais cantadas por componentes e até pelo público. Nos camarotes e frisas, bastante gente cantou os versos – especialmente o refrão do meio.

As primeiras alas cantaram bastante. Ala 1, Ala 2, Ala 6. Todas cantaram demais. Até mesmo nos carros alegóricos os componentes demonstraram o gosto pelo samba-enredo da Verde e Branca, que foi aquilo tudo mesmo. Vale destacar também a Ala 20, Boi Pintadinho, que com uma fantasia relativamente pesada, deu um show do mesmo jeito.

Evolução

mocidade_desfile_2018_55O calcanhar de aquiles da Mocidade foi a Evolução. A agremiação teve que acelerar o ritmo no fim do desfile, por conta da dificuldade de tirar o abre-alas da Avenida. Isso causou ainda uma certa “parada” da escola por um certo tempo. Na saída do recuo da bateria, no final do desfile, um buraco se formou. Foi rapidamente preenchido, mas ocorreu.

Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas formaram o primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, estreando na Mocidade representando a onisciência de Shiva, o olho “que tudo vê, tudo conhece” e a magia de desvendar as verdades da vida. E começaram com o pé direito na escola de Padre Miguel.

mocidade_desfile_2018_26A dupla fez um bailado bastante impressionante. Foram passos muito bem sincronizados e executados. Marcinho, especificamente, foi muito bem. Leve, simpático, confiante… Foi um belo recado para quem duvidava que o casal poderia honrar o pavilhão verde e branco da Zona Oeste.

Namastê!

A saudação foi um grande símbolo do desfile da Mocidade. Desde os representantes do país que vieram à frente da escola até a paradona da bateria, que se ajoelhou e fez uma variação melódica bem interessante na apresentação em frente ao segundo módulo. Inclusive, com a interação com a rainha Camila Silva.

A ala de passistas da Mocidade também merece elogios. Bem vestida, simpática e com todo aquele samba no pé tradicional da Zona Oeste. No fim do desfile, os torcedores invadiram a Sapucaí, cantando bastante, com bandeiras e brincando com o público, que respondeu bem ao desfile desde o começo.

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