Não apenas o álcool nos compromete o juízo

Na reta final das escolhas dos sambas-enredo que representarão suas agremiações em 2013, faço uma autocrítica como compositor:

Durante as disputas, perdemos toda a noção da realidade e tudo o que nos falam parece verdade.

Quando recebemos aquele tapinha no ombro, ouvimos do autor: “seu samba está bem”, “estão falando muito bem dele; só precisa que você invista mais”.

É a senha para perdemos o juízo. Privamo-nos de bom senso e exageramos em nossa “criatividade”.

Nosso samba que era a jóia mais linda e que lapidamos com carinho, deixa de ser o suficiente. Precisamos de mais torcedores, incluir adereços, pessoas fantasiadas, os melhores cantores.

Quem sabe uma queima de fogos digna do Reveillon ?

Entramos num estado de transe que só acaba quando o samba é cortado…

…ou chega a delírios orgásticos quando vencemos.

Toda essa euforia termina com a constatação do que ficou pra ser pago. Não raro, o valor recebido pelo samba vencedor não cobre o que foi gasto.

Para o compositor, o prêmio de verdade, é o orgulho de ver sua escola de coração desfilar com seu samba.

Boa sorte aos compositores e que sejam escolhidos realmente os melhores para o bem do carnaval.

Ofereço também uns versinhos despretensiosos para, de antemão, homenagear aquelas escolhas “Mandrake”:

Eu sou o samba que nunca foi,
Eu sou moderno e do passado ,
Quando me cantas já estou cansado,
Quando começo já acabei.
Passo depressa, sou na medida
Do que eu falo eu nunca sei.

Mas tenho “a cara” da tua escola…
Dos diretores, da curriola.
Tão logo chego, sou aplaudido;
Tão logo acabo já sou esquecido.

Sou o melhor, cresço na quadra,
Eu sou um hino.
O meu autor já me cantava
Desde menino.

E tenho “a cara” da tua escola.
Na avenida eu passo bem
Mesmo depois, sendo lembrado
por mais ninguém.
Não tem importância, Não faz mal
Sou o que sou:
Um samba feio, frio e funcional.


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