Não dá para segurar. Parceria de Alemão é bicampeã na Mangueira na homenagem para Maria Bethânia

Morada eterna de nomes como Jamelão, Cartola, Carlos Cachaça, Dona Zica, Dona Neuma e Luizito, o Palácio do Samba viveu uma noite digna de seus grandes momentos. Os compositores Alemão do Cavaco, Almyr, Cadu, Lacyr D Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão repetiram o feito de 2015 e é deles a obra que vai representar o desfile da Mangueira no Carnaval 2016, na homenagem para Maria Bethânia. A votação do júri foi aberta para imprensa e, apesar de não divulgado o placar, cerca de 70% dos votantes optaram pelo samba campeão. Foi a terceira conquista de Alemão na Verde e Rosa (2011, 2015 e 2016). Almyr assinou o samba campeão de 2004 ao lado de Cadu, que também estava na parceria vitoriosa deste ano. Paulinho Bandolim venceu em 2010 e 2015, assim como Renan Brandão. Lacyr D Mangueira foi o único a vencer pela primeira vez.

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A cantora Maria Bethânia, grande homenageada no desfile da escola em 2016, chegou cedo na quadra da Mangueira, por volta das 22h30 e ficou em um camarote exclusivo ao lado do espaço destinado ao presidente Chiquinho. Com uma comitiva de cerca de 40 pessoas, Bethânia foi solícita com os fãs que acenavam e pediam fotos. Antes do início das apresentações, a cantora foi breve nas palavras e relatou a alegria de estar no sagrado Palácio do Samba. – É um honra muito grande pra mim estar aqui ao lado de vocês. Viva a Mangueira! – declarou a cantora, antes de ser ovacionada. Bethânia acompanhou com atenção a passagem de cada samba finalista e demonstrou mais animação com a apresentação do samba de Lequinho e seus parceiros. O grupo de pessoas que a acompanhava caiu no samba na passagem do samba de Alemão do Cavaco. A cantora deixou a quadra antes do anúncio do campeão, na metade da apresentação do último samba da noite, entre 03h e 04h da manhã.

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Responsável por implementar um estilo de melodias que foge à tradição da Mangueira, mas que vem se mostrando acertado, Alemão do Cavaco festejou sua terceira conquista na Mangueira. – Com todo o respeito que possuo a essa agremiação e a meus colegas de ala dos compositores, mas nossa parceria teve a plena consciência do que era a necessidade da escola, em termos de letra e melodia. Conquistamos a nota 40 esse ano e se Deus permitir vamos conseguir novamente – apontou Alemão.

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Renan Brandão se uniu a Alemão do Cavaco na disputa para o Carnaval 2015. Vencedor em 2010, era um dos mais eufóricos com mais uma vitória. – Acredito que nossa parceria tenha conseguido entender com perfeição o que era esperado pela escola. Ver os segmentos cantando nosso samba é o que me deixa mais feliz com essa vitória. Trazer o samba para a primeira pessoa foi nosso mérito maior e agora veremos Bethânia cantar essa homenagem mais que merecida – afirmou Renan.

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A tarefa da parceria de Alemão do Cavaco era inglória. Se apresentar depois de Lequinho e seus parceiros, valoriza consideravelmente essa conquista. Entretanto, o samba mostrou porque foi escolhido pela maioria do júri. A tendência de que os segmentos da escola, em sua maioria, apoiaram o samba ao longo da disputa se confirmou na na final. O departamento feminino foi unânime em manifestar apoio para obra. A ala de compositores também não se fez de rogada e cantou em vários momentos. O samba foi o que teve a torcida mais adeptos dos segmentos. Com uma melodia mais cadenciada que seu principal concorrente, não foi notável em nenhum momento um temido arrastar daobra. Apesar de não ter sido uma apresentação apoteótica, ficou a sensação de uma celebração. O diferencial foi o apoio do mangueirense. Cerca de 4.200 pessoas estiveram presentes na quadra, que comporta 5 mil. Apesar disso não foi necessário fechar os portões, por medida de segurança, como costuma ocorrer na final da Mangueira.

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O compositor Cadu afirmou que a parceria percebeu nas últimas semanas de disputa o apoio dos segmentos mangueirenses. – Meu trecho favorito do samba é o refrão principal. Ele é forte demais e puxa do mangueirense o que ele tem de melhor, que é a emoção. Nossa parceria teve um processo muito longo pra preparar esse samba. A gente costuma ser muito exigente, e juntando três parcerias vitoriosas como foi, não poderia ser diferente. Todo mundo opina, tem ideias, e a gente só põe algo em prática depois que todo mundo concorda. Esse ano foi bem mais demorado do que no ano passado, por exemplo. Foi quase um mês pra finalizarmos o samba. Nas últimas semanas, quando a gente viu a velha guarda, as baianas, entre outros segmentos respondendo de uma maneira muito positiva ao nosso samba, a gente começou a sentir que estava no caminho certo. E o resultado é esse: o samba foi anunciado, a quadra continua lotada e muita gente cantando o samba e comemorando o resultado.

O receio de que a melodia mais dolente possa representar um ponto de preocupação para a Mangueira, já que a escola fecha os desfiles em 2016, foi rechaçado pelo diretor de carnaval Júnior Schall. Em entrevista ao CARNAVALESCO, ele foi catedrático em defender o tom melodioso da obra. – Uma melodia bem construída sempre tem vantagem, pois ela facilita o canto do componente. Estamos apenas iniciando um trabalho a partir dessa escolha e agora é fazer esse samba chegar no ponto que desejamos – afirmou Schall.

O presidente Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, não integrou o júri de votantes, que contou com 43 pessoas. Ele liderou a reunião que definiu o campeão e explicou o porque de liberar a presença da imprensa. – Isso demonstra como a Mangueira conduz o seu carnaval, com lisura e democracia – afirmou. Chiquinho da Mangueira teceu elogios ao vencedor e todos os finalistas. – Infelizmente só tenho que optar por um, pois todos são vencedores. Acredito que o que tenha decidido foi o apoio do mangueirense. Foi a final mais disputada dos últimos 20 anos – opinou Chiquinho.

A volta da estética da Mangueira

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, Leandro Vieira, responsável pelo desfile da Verde e Rosa em 2016, garantiu que prepara uma "estética de reencontro para o mangueirense". – Meu objetivo é fazer um desfile que desenvolva uma plástica, uma "estética de reencontro para o mangueirense. O meu trabalho prioriza muito a escola onde eu estou. Acredito que cada escola tem um DNA, um perfil que eu não tenho o direito de mudar. A Caprichosos tinha a marca dela moldada por grandes carnavais. Eu cheguei lé e me esforcei pra fazer uma Caprichosos, com cara de Caprichosos e acrescentar algo que tenha a ver comigo. Com a Mangueira não vai ser diferente. A confecção das fantasias está caminhando. A Mangueira caminha com as dificuldades que todos sabem que existe, Mas a Mangueira tenta driblar essas dificuldades com criatividade, empenho. Não acho que a Mangueira é a mais adiantada, mas também não é a mais atrasada. E, de qualquer forma, a gente não está apostando corrida com ninguém. De que adianta terminar os trabalhos um mês antes do Carnaval e, quando ele chega, o que você tem pronto não é o ideal?"

Casal no início do desfile
 
Responsáveis pelo pavilhão da Mangueira, o casal Raphael e Squel voltará a desfilar na parte inicial da escola, mas ainda não conheceram suas fantasias para 2016. – Ainda não sabemos o que será o nosso figurino. Isso será após a escolha do samba. Quando estiver pronto ensaiaremos de cinco a seis vezes com ele e o que tiver que cair e ser mudado será feito. Vamos desfilar novamente na frente da escola. Sem prepotência afirmar é bem difícil conseguir os 40 pontos e mais difícil ainda mantê-los, mas eu e minha parceira Squel conquistaremos a nota máxima na Avenida. Surpreenderemos ainda mais homenageando Bethânia – disse Raphael. Squel está radiante com o desfile do ano que vem. – Estou muito feliz de viver esse momento da Mangueira. O samba que ajudará nossa dança é o samba que a comunidade abraçar.

Bateria com máximo de 240 ritmistas

Comandante da bateria da Mangueira, Vitor Art está ciente da responsabilidade e já pensa em novidades para o desfile. – Tivemos dois ensaios da bateria com todos os sambas finalistas e algumas coisas a respeito de bossas já puderam começar a ser estudadas, mas a gente espera a definição do hino escolhido pra trabalhar melhor as ideias que a gente teve e desenvolvê-las. Isso também vale para coreografias. Temos a sorte de ter um carnavalesco que também é músico, então na hora de fazer a nossa fantasia, ele é uma pessoa que vai saber pensar no que o ritmista precisa pra fazer bem o seu papel na avenida da melhor maneira possível. Traremos entre 220 e 240 ritmistas – revelou.

Rainha de bateria, Evelyn Bastos dedicou a grande final para o intérprete Luizito, que faleceu em setembro. – Desde o primeiro sábado, após o falecimento do Luizito, já me perguntava como seria essa final sem ele. Luizito estava radiante com o enredo. Queria cantar Bethânia na Avenida e eu como boa filha que já gostava do enredo, passei a gostar em dobro em homenagem a ele. Hoje ele não está aqui fisicamente, mas espiritualmente sim.

Confira como foram as demais apresentações:

Parceria de Pedrinho da Flor: A parceria foi saudada pela cantora Maria Bethânia no momento que cantava o alusivo. Entretanto, a artista logo se sentou em seu camarote. Um grupo teatral vestido com roupas circenses e outro com vestimentas de retirantes deram molho para apresentação. O refrão principal teve bom rendimento. Apenas a torcida da parceria interagia com o cantor Ronaldo Yllê e os integrantes do palco. O restante da quadra se manteve indiferente. O intérprete Wander Pires entrou no meio da apresentação, logo após as duas passadas só para o canto da torcida. A quadra se manteve em silêncio até o término da apresentação, apesar da garra demonstrada pela torcida.

Parceria de Lequinho: Um início avassalador onde a obra foi cantada não apenas pela torcida mas por toda a quadra. Mais uma grande apresentação comandada pelo interprete Tinga, que parece ser o "mister final". Um banner com a foto de Bethânia com sua mãe, Dona Canô, emocionou a cantora. O rendimento do samba durante os 40 minutos de apresentação deixou claro que a obra também teria totais condições de representar a Mangueira. Uma passagem linear, sem queda de rendimento em nenhum momento. Maria Bethânia acompanhou com muito entusiasmo chegando a gravar um vídeo em seu celular e manifestar-se com aplausos.  

Em uma disputa de extremo equilíbrio pesou a força dos segmentos da escola no apoio ao samba campeão. Quem frequenta e desfila na Mangueira fez sua opção e o júri acatou a decisão. A festa em Mangueira terminou, como de costume, pelas ruas da Visconde de Niterói, com a bateria "Tem que respeitar meu tamborim" arrastando o povo. 

A Mangueira será a última escola a desfilar na segunda-feira de carnaval, com o enredo "Maria Bethânia: A menina dos olhos de Oyá". A Verde e Rosa foi a 10ª colocada no desfile deste ano. O samba será gravado no próximo dia 15/10 na Cidade do Samba, a partir das 13h. O ensaio técnico da agremiação está marcado para o dia 20/12, às 21h.